Não é uma tarefa fácil ser o próximo filme da Pixar após o brilhante Divertida Mente. O filme marcou o retorno do estúdio depois de um tempo turbulento de direções criativas, além de entregar um universo fantástico sobre a psique humana. Deste modo, antes da empresa entrar em uma onda de continuações, mais uma animação original é lançada (dentro de um ano), e mesmo sendo menos ambiciosa do que sua antecessora, não deixa de ter seu brilho próprio. Se a tristeza foi o destaque anteriormente, agora chegou a vez do medo ganhar o palco em  O Bom Dinossauro.

 

 

Marcando a estreia do diretor Bob Peterson em longa-metragens – ele é o responsável pelo curta Parcialmente Nublado -, o filme começa com uma premissa interessante, mostrando a evolução dos dinossauros sem que o meteoro atingisse a Terra e assim provocasse as mudanças que os extinguiram. O protagonista, Arlo (Raymond Ochoa), é um saurópode vindo de uma família de fazendeiros – sim, dinossauros fazendeiros – e faz o possível para ajudar os pais nas tarefas de campo. Contudo, enquanto seus irmãos se destacam por habilidades específicas, ganhando, desta maneira, o direito de deixar a marca da família, Arlo não consegue sair da sombra de seu medo, falhando na simples tentativa de alimentar uma galinha jurássica. Vale notar que na cena do nascimento de Arlo, apesar de sua fragilidade, o grande ovo simboliza o potencial que há dentro do protagonista. Pixar respirando nos pequenos detalhes.

 

Logo nos primeiros diálogos com o seu pai, Poppa  (Jeffrey Wright), já fica claro qual será o arco principal do roteiro: o amadurecimento de Arlo para superar seus medos. Assim, com uma aparante simples história em mãos, a Pixar prova mais uma vez o poder de conta-la independente da idade do público. A cena que Poppa ensina a beleza que está escondida atrás do medo, pode ser considerada uma das mais belas do estúdio, uma poesia visual em forma de corrida entre vaga-lumes. É o típico momento que você sabe estar assistindo algo memorável.

 

 

O estúdio também não se acovarda nas decisões para que a trama seja honesta com sua mensagem, deste modo, nada será relevado para que a jornada de Arlo seja menos dolorosa e perdas, como na realidade, fazem parte de uma vida em transformação. O conflito inicia quando o carismático e medroso dinossauro se perde da família e precisa encontrar o caminho de volta, e para isso, irá contar com a ajuda do humano Spot (Jack Bright), uma relação que traz uma curiosa inversão de papéis, já que Spot é retratado como um animal irracional, mas precisamente como um cachorro para melhor assimilação das crianças. Se o cachorro é o melhor amigo do homem, porque não dos dinossauros? Só para não parecer que o filme é perfeito, Spot não é um dos personagens mais cativantes, porém ele cumpre com eficiência seu papel na história.

 

Se a relação de Poppa e Arlo é marcada por diálogos reveladores (a última cena entre os dois não consegui enxergar muito bem por causa da chuva dentro dos meus olhos), com Spot, Peterson mostra o controle que tem do visual, lembrando bastante o silêncio tocante de Wall-e. A cena que os dois conversam sobre família é um momento que por sua construção já é emocionante, mas que ganha ainda mais força quando se vê o fechamento da mensagem. Um roteiro bem amarrado no drama e também no humor que está temperado na medida certa (a viagem psicodélica é sensacional). Enquanto outros estúdios adoram transformar o T-Rex em vilão, aqui o famoso predador ganha uma nova perspectiva, mostrando que até os mais temidos seres podem sentir medo.

 

 

Em termos técnicos, o filme é exemplar. Vários planos são verdadeiros quadros de arte, e não vejo a hora de ter um quadro com Spot e Arlo olhando para o sol entre as nuvens. Na maior parte do tempo, esquecia completamente que estava assistindo uma animação, tamanha a veracidade do ambiente, com a água – sempre bem-vinda metáfora para batismo, transformação – sendo um exemplo claro do avanço da tecnologia. No entanto, nada seria dela se não fosse a competência de uma ótima história, e uma trilha sonora, composta por Jeff e Mychael Danna, que unindo música clássica com ritmos tribais, entrega vida àquele mundo selvagem.

 

O Bom Dinossauro é um filme menor, comparado aos clássicos da casa, porém não deixa de ser competente em sua simplicidade. Reflete de uma maneira orgânica sobre temas como família, amizade e o medo, este último, um sentimento que não se pode negá-lo, mas achar uma maneira de lidar com ele. Se você está com medo, você está vivo. Desta forma, a Pixar continua com sua missão de não simplesmente entretecer o público, e sim de ensiná-lo uma nova maneira de ver a vida.

 

04-otimo

 

Trailer: