Nos últimos anos, Jogos Vorazes tornou-se a mais relevante série infanto-juvenil no cinema, honrando o posto deixado por Harry Potter e que foi negligenciado por uns vampiros paz e amor. Contudo, a adaptação dos livros de Suzanne Collins não é uma mera desculpa para levar adolescentes ao cinema e criar casais apaixonados para iludir meninas sonhadoras. A série desenvolveu uma protagonista feminina forte, estabelecendo a forma de como a mulher é vista no cinema, e trouxe subtramas complexas que abrem espaço para discussões sobre problemas atuais da sociedade como o mundo ilusório dos reality shows, a manipulação da mídia e da informação, o sistema de governo totalitário e a política de interesses. Uma jornada que chega ao seu fim este ano com Jogos Vorazes: A Esperança – O Final. 

 

 

Tendo início logo em seguida do final de seu antecessor, A Esperança – Parte 1, acompanhamos o grupo revolucionário denominado Panem, liderado pela presidente Alma Coin (Julianne Moore), propondo um massivo ataque contra a Capital. Enquanto isso, Katniss (Jennifer Lawrence) continua sendo usada como o principal símbolo dessa revolução, e durante este processo de propaganda política, ela começa a questionar-se sobre o real motivo daquela guerra, além de ter que lidar com um Peeta (Josh Hutcherson) em fase de recuperação após a lavagem cerebral que o fez quase matá-la. Assim, cansada de ser só um objeto de marketing, decide ir em uma própria missão, apoiada por um pequeno grupo de soldados, para assassinar o presidente Snow (o divertidamente sarcástico Donald Sutherland) e trazer a paz para todos os 13 distritos.

 

Uma premissa que faz o filme voltar com a estrutura dos dois primeiros filmes, já que para chegar ao presidente Snow, os rebeldes precisam atravessar uma cidade lotada de armadilhas, criando assim um novo Hunger Games. Deste modo, o roteiro, escrito por Peter Craig e Danny Strong, equilibra momentos de ação com várias cenas dramáticas, principalmente aquelas envolvendo Peeta e Katniss. Em relação ao personagem Peeta, o roteiro acaba forçando a barra para inseri-lo na trama, pois mesmo com as melhores intenções em reabilitá-lo ou que os planos da presidente Coin fossem ocultos para mandá-lo junto do grupo, a aceitação deles em levá-lo em uma missão de grande importância e por si só perigosa, não faz muito sentido. Um peso que não se justifica naquela situação.

 

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Neste desafio para chegar até Snow, o diretor Francis Lawrence prova novamente porque foi a melhor escolha para comandar a franquia deste o segundo capítulo. Sabendo manter a sensação claustrofóbica com planos fechados e a proximidade dos personagens nos diálogos com close-ups (veja como Katniss vai se aproximando aos poucos de Peeta), também mostra controle na direção das espetaculares sequências de ação que unem urgência e tensão em um ritmo frenético, lembrando de seu ótimo trabalho em Eu Sou a Lenda. Há uma específica sequência no subterrâneo da cidade que deixa muito filme de terror com inveja, sendo uma das mais impactantes da série e que, em seu clímax, mostra uma Katniss anestesiada pelo horror de suas experiências, tanto que ela nem fraqueja ao acabar com o sofrimento de um amigo. Um filme que não é só para jovens faz um bom tempo.

 

Sobre a temática, o novo Jogos Vorazes investe na política desta vez. Nem toda revolução tem boas intenções, e geralmente o fim de um ditador pode ser o começo de outro. A sequência em frente a mansão de Snow relata perfeitamente a mensagem que o filme quer passar, resultando em um clímax que, não penso ter sido uma surpresa, é uma das melhores cenas que vi no cinema este ano e com certeza ficará para sempre na memória dos fãs, fechando com flecha de ouro a franquia. Vale ressaltar também o trabalho do fotógrafo Jo Willems que manteve a paleta cinzenta neste universo moribundo (o mundo colorido de Em Chamas é uma lembrança distante) e a épica trilha sonora  de James Newton Howard que sabe o momento certo para aparecer.

 

 

Após o último clímax, a história perde sua força, mas ainda funciona como um prólogo para mostrar o destino dos personagens. Um final que pode ser considerado covarde, mas depende do ponto de vista. Se fosse para levar até as últimas consequências a crítica defendida pela franquia, sim, o clímax poderia ter sido trágico e abalar de uma vez a estrutura emocional dos fãs. Entretanto, a história é sobre Katniss Everdeen que de peça manipulada pelo sistema, tornou-se heroína de uma nova geração. Penso que a conclusão é justa com a personagem, depois de todo o sofrimento que passou.

 

Jogos Vorazes: A Esperança – O Final é um fechamento digno de uma série que mostra ser possível fazer uma obra madura e reflexiva para um público jovem, e que agora deixa o bastão para a próxima franquia de sucesso. Arrisco dizer que ele retornará ao universo de um certo bruxo.

 

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Trailer: