Em 2006, chegava aos cinemas 007 – Casino Royale. Este capítulo tornou-se um marco na franquia por trazer um universo realista, sem as invencionices de gadgets cada vez mais bizarros e vilões excêntricos,  além de ser a estreia do ator Daniel Craig que, na minha humilde opinião, é o melhor James Bond até hoje, com todo o respeito que Sean Connery merece.

 

Agora em 2015, esta fase formada por mais dois filmes, o esquecível Quantum Of Solace e o excelente Skyfall, chega ao fim com Spectre. Juntos, esses filmes propuseram revelar o passado do agente, funcionando como uma desconstrução do personagem. Spectre também é a despedida de Craig como 007, e quem sabe um início de uma nova fase menos realista, já que o filme se mostra bastante a vontade em querer retornar a fórmula clássica.

 

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Roteirizado por várias mãos, incluindo entre elas do roteirista de Skyfall, John Logan, a história acompanha 007 em busca de uma misteriosa organização que está envolvida em importantes acontecimentos mundiais, e para conseguir atingir seu objetivo, Bond usará de todos os meios para descobrir quem está por trás dela, nem que para isso precise desafiar sua própria agência comandada por M (Ralph Fiennes). Com esta premissa, Spectre não apenas fecha um arco, mas liga as três últimas histórias – de uma maneira bem conveniente – para assim tornar-se uma série particular dentro desta longínqua franquia.

 

O filme pode ser dividido em duas partes: uma boa outra má. A primeira parte é a trama principal que envolve Bond e a Spectre, e essa é a que vale o ingresso da sessão. Dirigido novamente por Sam Mendes que no início já investe em um plano sequência hipnotizante, mostrando um Craig, como de praxe, competente na pele do agente, nunca perdendo a classe até mesmo quando um prédio inteiro desaba ao redor como um dos clímax desta sequência. Impressionante como os efeitos visuais raramente se denunciam, mantendo o público vidrado na tensão criada. A sequência que Bond persegue os criminosos de avião é digna de entrar no grupo das melhores da série.

 

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Por outro lado, a segunda parte que pode ser facilmente ignorada é a do personagem M que briga contra o fechamento de sua divisão. Uma trama semelhante ao que foi retratado em Missão: Impossível – Nação Secreta. Os personagens secundários só ficam interessantes quando interagem com Bond, principalmente Q (Ben Whishaw) e Moneypenny (Naomie Harris) que entregam ótimos momentos de humor. Não lembro de ter me divertido tanto em um filme da série, a discussão de 007 com Moneypenny sobre a vida pessoal dela, enquanto o agente está em uma perseguição de carro ainda mais humorada, é impagável.

 

Já no grupo de antagonistas há um certo desequilíbrio. Dave Bautista como Mr. Hinx, que entra mudo e sai calado (ou quase), acaba roubando as cenas e, vale destacar, a cena de lutra entre ele e Bond dentro do trem, em grande parte com sons ambientes, chega doer os ossos de tanta porradaria rústica. Uma sequência impactante que resume o James Bond do séc. 21 e que é esquecido quando é apresentado o excêntrico Blofeld (Christoph Waltz com o mesmo tipo de atuação que vem marcando negativamente sua carreira). Clássico vilão do cânone que deve deixar muito fã nostálgico feliz, com direito ao seu gato branco e uma máquina de tortura. Entretanto é o típico personagem caricato que não condiz com a estrutura narrativa construída nesta fase. Em compensação, a linda Léa Seydoux é o par romântico de Bond, surgindo como uma oportunidade do agente recomeçar sua vida, o que me faz lembrar novamente da última aventura de Ethan Hunt (a originalidade em Hollywood está de férias).

 

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Felizmente não se pode reclamar da produção que é exemplar. Toda a mise-en-scène da festa dos mortos enche os olhos pela beleza. A fotografia de Hoyte Van Hoytema sabe exatamente o seu papel, dando vida as belas paisagens áreas e cobrindo a desconhecida organização Spectre em sombras. Não é a toa que nas primeiras aparições de Blofeld, o cenário e o personagem estão cobertos pela escuridão, e quando o vilão se revela completamente, o branco domina todo o quadro. Para finalizar, Sam Smith é a voz escolhida para mais uma impecável abertura que apresenta a dramática canção Writing’s On The Wall. 

 

007 Contra Spectre encerra de maneira satisfatória este arco sobre o passado de Bond, mesmo não sendo fiel ao realismo inserido neste universo até então e por uma ou outra trama desnecessária. No entanto, o filme ainda continua empolgante, divertido e com certeza será difícil encontrar um substituto a altura para Craig. Daniel Craig.


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