Apesar de uma filmografia curta como diretor (apenas 4 longas), Frank Darabont pode ser considerado um dos grandes do cinema contemporâneo, visto que todas suas obras foram grandes sucessos de público (em termos de recepção e não exatamente de números de bilheteria) e de crítica, principalmente quando olhamos para Um Sonho de Liberdade e À Espera de um Milagre, justamente seus primeiros e melhores filmes. Talvez o humanismo recorrente em sua carreira, mesmo nos mais improváveis temas, tenha sido o motivo para sua presença como principal produtor da série The Walking Dead quando, em outubro de 2010, ela estreava na AMC lotada de expectativas.

 

Na série que conta a história de um mundo dominado por zumbis e em que a boa convivência entre seres humanos restantes é a única chave para a sobrevivência, não havia melhor pessoa que Darabont para estar dando as cartas. Dessa forma, a primeira temporada de The Walking Dead acabou sendo das melhores produções já exibidas pela televisão em muito tempo, se tornando uma referência na forma de conduzir suas personagens de forma a deixar o público simplesmente vidrado no que acontece na tela. O terror causado pela presença dos zumbis acabou dividindo as atenções com um terror ainda maior, aquele causado pela iminência de conflitos entre pessoas em um mundo que por si só já era suficientemente conflituoso.

 

WD13

 

Dali surgiram cenas clássicas (como atravessar no meio de uma multidão de zumbis sem ser atacado?) e personagens inesquecíveis. O embate entre Rick (Andrew Lincoln) e Shane (Jon Bernhtal) por Lori (Sarah Wayne Callies), as enormes discrepâncias entre os irmãos Dixon, a opressão de Carol (Melissa McBride) pelo marido, por exemplo, foram todas situações que enriqueciam cada episódio da produção que se passava.

 

Na primeira metade da segunda temporada, as personagens interessantes continuavam, mas o roteiro parecia simplesmente não se desenvolver. Já em sua segunda metade, mais grandes momentos surgiram junto à sensação de estar novamente assistindo a uma série de altíssima qualidade. Entretanto, da terceira temporada em diante, The Walking Dead entrou em um decréscimo de qualidade tão drástico e repentino que é até difícil de enumerar os motivos que podem ter levado a série a se distanciar tanto, em termos de qualidade, do que apresentou em seus primeiros momentos. Teria a saída de Darabont da produção sido tão prejudicial assim? Ou seria simplesmente a onda de popularidade da série que levou os roteiristas a reduzirem a complexidade do trabalho que vinham desenvolvendo com tanta destreza?

 

WD6

 

Provavelmente uma mistura dos dois fatores (e até de mais alguns). Sem Darabont, a série perdeu o humanismo que a caracterizou em seu princípio. Com o vilão Governador (David Morrissey) – o qual foi o responsável ainda por segurar as pontas de Walking durante um tempo -, ainda sobraram alguns momentos para se discutir a relação entre os seres humanos na terceira e até em parte da quarta temporada. Entretanto, nos momentos restantes, tudo o que se podia ver eram as personagens em situações banais (logicamente que aqui uso o termo banal dentro do contexto de um apocalipse zumbi) e muito distantes dos conflitos que haviam apresentado até então. Até mesmo seus confrontos com zumbis perderam a criatividade de outrora, tornando-se sequências extremamente comuns que podiam ser muito bem apresentadas em qualquer outro filme ou série do gênero.

 

Em decisões totalmente irracionais, as boas personagens que restavam na trama, sempre rendendo bons momentos com suas fortes personalidades, foram simplesmente deixando aos poucos o casting da série. (Atenção para spoilers a diante) Dale (Jeffrey DeMunn), Andrea (Laurie Holden), Shane e o próprio Governador foram algumas das melhores figuras que acabaram desaparecendo justamente no auge do seus conflitos. Em séries como Game Of Thrones, algo parecido também acontece, uma vez que personagens populares costumam não ir muito longe na trama. Entretanto, a grande diferença entre as duas séries é que Game consegue desenvolver muito bem todos os seus núcleos e todas as suas personagens, fazendo com que a ausência de uma seja facilmente suprida pela presença de outras grandes personagens da produção. Em The Walking Dead, ao contrário, nos restou uma galeria de personagens insossos e sem qualquer personalidade.

 

Lori Grimes (Sarah Wayne Callies), Carol (Melissa Suzanne McBride), Beth Greene (Emily Kinney), Maggie Greene (Lauren Cohan), Carl Grimes (Chandler Riggs) and Hershel Greene (Scott Wilson) - The Walking Dead - Season 3, Episode 1 - Photo Credit: Gene Page/AMC

 

Carl (Chandler Riggs), que a princípio se apresentou como um grande vilão mirim, foi aos poucos empalidecendo e se tornando um simples garoto bobo que não é mais capaz de fazer mal a uma mosca sequer. Michonne (Danai Gurira), que no início encantou como um tipo durona que deixava todos os homens da série comendo poeira, já deu o que tinha que dar com seu monossilabismo e sua função como salvadora da pátria. Rick já sofreu tantas oscilações de personalidade ao longo das cinco temporadas que fica até difícil defini-lo de uma única maneira. Carol também passou por grandes oscilações de personalidade, mas atualmente é a única personagem capaz de ainda fazer com que continuemos assistindo a série da AMC.

 

Por outro lado, personagens que desde o começo não apresentaram muito potencial continuam na ativa, como Glenn (Steven Yeun), talvez o mais irritante de todo o elenco. Daryl (Norman Reedus), personagem muito querido pelos espectadores de The Walking Dead, para mim é muito subestimado pelos roteiristas, sendo eternamente renegado ao papel de coadjuvante durão, monossilábico e salvador da pátria, assim como Michonne. A estes, soma-se a enorme galeria de personagens que a série desnecessariamente ganha todo ano, as quais servem apenas para cumprir cota, porque nunca mostram a que vieram (sendo que estão cada vez sendo interpretadas por intérpretes piores, vide a vergonhosa atuação de Seth Gilliam como Padre Gabriel).

 

WD12

 

Se as personagens não ajudam, as situações propostas pelo roteiro ajudam menos ainda. Ou melhor, as repetições de situações propostas pelo roteiro. Quantas vezes já não vimos Rick e seu grupo chegar a um amável conjunto habitacional habitado por pessoas aparentemente dóceis, mas que depois descobre-se que escondem terríveis segredos? Quantas vezes já não o vimos deixar esses conjuntos em situações extremamente desagradáveis e violentas para depois vagar sem rumo por certo tempo e então chegar a um outro lugar do tipo? Quantas vezes já não vimos Carol (ou Daryl) se separar do grupo, participar de alguma história paralela e depois retornar a este? Desde a terceira temporada são repetições constantes, sendo que ocasiões totalmente novas nunca são desenvolvidas, mantendo sempre a sensação da série andar em círculos.

 

Trocando por miúdos, a impressão que se tem é a de que pode-se tranquilamente deixar de acompanhar a série por várias temporadas que quando retornarmos não teremos perdido nada. Obviamente que, ao longo das três últimas temporadas, houve bons momentos. A subtrama do hospital e da endemia dos porcos na quarta temporada foram momentos extremamente originais em que a série aparentava ter se recuperado e tomado seus rumos novamente, porém acabaram sendo conflitos resolvidos de maneira muito rápida, como que para The Walking Dead voltar logo aos seus clichês de sempre; como se a cota de criatividade dos roteiristas por temporada tivesse se esgotado.

 

WD1

 

Mas, como há sempre uma luz no fim do túnel, a quinta temporada se encerrou com um dos melhores episódios dentro de muito tempo. Com uma duração maior do que o normal, foi tão bom que pareceu até mais curto. Frenético, teve mais acontecimentos do que as três últimas temporadas inteiras, além de ter sido um estudo de personagens como há tempo não se via na série. Sequências tanto de ação quanto de drama bem dirigidas, bem atuadas e todas inseridas dentro de uma lógica única do episódio, Conquer soou como o suspiro de renovação que a série está precisando. Por ora, o que nos resta é esperar que assim The Walking Dead prossiga, sem, como de costume, se perder nos clichês que si própria criou. E ah, antes que eu me esqueça! Uma coisa é inegável: a abertura continua ótima.

 

Trailer: