Nos últimos anos, a ficção científica vem dado bons frutos, cada um com uma particular mensagem como tema principal. Lunar foca no existencialismo, Gravidade no renascimento e Interestelar no amor. Contudo, nenhum desses excelentes filmes, digamos de passagem, levaram a sério a parte científica do gênero como Perdido em Marte. Um longa que além de celebrar o valor da ciência, trata sobre a solidariedade humana e, junto com Tomorrowland, comprova a importância do conhecimento em nossas vidas. Principalmente quando se tem a missão de sobreviver em um lugar com as probabilidades mínimas de vida. Após um período conturbado como diretor, chegando no ápice com o fraco Prometheus, Ridley Scott vem de encontro com sua melhor forma, apresentando mais um ótimo trabalho em sequência depois do já interessante Êxodos – Deuses e Reis. Desta vez, com uma história adaptada por Drew Goddard (que dos recentes trabalhos recomendo a série Demolidor da Netflix) do livro de Andy Weir, Scott tem sob controle seus excessos e entrega um dos filmes mais divertidos e interessantes do ano.

 

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O conflito principal do roteiro nasce quando o astronauta Mark Watney (Matt Damon), no meio de uma saída de emergência de Marte, é deixado para trás por sua equipe e a melhor previsão de sobreviver neste desolado planeta é de apenas um mês. Para não esperar a morte certa, o botânico resolve usar a ciência para manter-se vivo até que uma equipe de resgate chegue, nem que isso dure anos para acontecer. É nesta parte que a ficção ganha definitivamente o status de científica, mostrando as maneiras possíveis de aplicá-la para, por exemplo, plantar batatas e criar água em um lugar que não há condições para isso.

 

Para envolver o público na empreitada de Mark, Goddard usa de uma forma orgânica os diálogos expositivos, mostrando o astronauta sempre gravando suas ideias e conquistas em relatórios, também sendo uma saída do personagem para não cair na loucura provocada pela solidão. Entretanto, é o carisma e o talento de Damon que ajudam na relação do protagonista com o público e assim torçamos para que ele consiga sair desta situação. Como não torcer para alguém que sempre se mostra disposto e otimista – e bem humorado – diante o desafio? E quando este forte personagem se entrega em momentos de fraqueza, não há como não sentir uma certa empatia.

 

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Felizmente o filme não se baseia apenas em Mark e se mantem equilibrado fora de Marte com um elenco pra lá de gabaritado tanto no núcleo da NASA quanto na equipe de astronauta. Nesta parte, a união das pessoas em ajudar o próximo ganha importância ao mostrar personagens dispostos a resgatá-lo, sem precisar de nenhum antagonista para colocar dificuldades nisso, pois as divergências do planeta e a burocracia política são o bastante para deixar tudo mais difícil.

 

Neste timaço que Scott se acostumou a trabalhar, vale destacar a diversificada equipe  liderada pela competente  Jessica Chastain e os personagens da NASA interpretados por Chiwetel Ejiofor e Jeff Daniels. Interessante como se tem, desta vez, personagens sóbrios e inteligentes de suas ações, bem diferente de alguns que gostam de brincar com cobrinhas alienígenas. Outro ponto que me chamou a atenção foi a opção do roteiro em não individualizar os EUA como salvador do dia, trazendo outras nacionalidades para ajudar no resgate. O deslize mais evidente do roteiro é a do personagem de Donald Glover (da já saudosa Community) que faz o típico gênio esquisito que chega com a solução certa na hora certa. O alívio é que os clichês do filme mais ajudam do que atrapalham o andamento da história.

 

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Apesar do drama vivido pelo protagonista e que se eleva no tenso e belíssimo terceiro ato, Perdido em Marte é também muito divertido. As piadas envolvendo o projeto “sobreviver” de Mark e da NASA ajudam aliviar um clima que poderia ser bem dramático. Mas nada se compara a trilha sonora de Harry Gregson-Williams que sabe os momentos certos de inserir sons não-diegéticos, principalmente quando investe nos sucessos dos anos 80. Starman de David Bowie caiu como uma luva em uma sequência, sem falar da sacada genial da música dos créditos finais que deixarei em segredo para não estragar a mesma surpresa que tive.

 

Aproveitando ao máximo o espaço deixado por Scott com seus planos abertos para retratar a isolação do protagonista, ao mesmo tempo que fecha o plano para criar claustrofobia, o diretor de fotografia Dariusz Wolski impressiona em transmitir não só a hostilidade do planeta vermelho, mas também a beleza de poder admirar aquele deserto todos os dias. Elogiar o trabalho da produção de design comandada por Arthur Max seria chover no molhado, já que ultimamente o gênero vem proporcionando excelentes resultados neste departamento e, neste caso, não foi diferente.

 

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Perdido em Marte é com certeza um dos relevantes lançamentos do ano, conseguindo entreter como um blockbuster e celebrar o melhor do ser humano, algo não muito popular nos filmes atualmente. Além de criar novas e boas perspectivas para os próximos projetos de Ridley Scott. Só espero que essa viagem à Marte o ensinou alguma coisa para suas futuras empreitadas ao espaço.

 

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