Se amadurecer é sofrer, então se pode dizer que O Sol é Para Todos é um livro sobre crescimento. Escrito na década de 60, o romance era, até o ano passado, filho único da escritora estadunidense Harper Lee. Recentemente, em meio a uma fumarenta cortina de dúvidas, foi anunciada a sequência dessa obra-prima – Go Set a Watchman, em português, “Vá, coloque um vigia” (nada poético). O Sol é Para Todos é um bom título, mas menor que o título original, To Kill a Mockingbird. Mockingbird é um tipo de ave inexistente no Brasil, mais comumente encontrada nos Estados Unidos. Uma espécie de pássaro inofensivo. Matar pássaros inofensivos é uma boa metáfora para uma sociedade inexplicavelmente covarde.

 

O livro é encarado por muitos, e é possivelmente, uma autobiografia de Lee, que viveu sua infância no interior estadunidense com um pai advogado e um irmão mais velho. É dito até que o personagem Dill, amigo das crianças, é ninguém menos que Truman Capote, um velho conhecido da escritora e famoso escritor de A Sangue Frio. Jean Louise Scout Finch é uma querida e pertinaz personagem e conquistará ligeiro o leitor. É sob os olhos dessa menininha de seis anos de idade que essa história será contada. Anos 30, Maycomb County, Alabama, um estilo de vida típico de interior estadunidense: ruralista e preconceituoso.

 

Na primeira parte do enredo, tem-se uma visão ampla da cidade e de alguns de seus moradores, além de se evidenciar bastante o cotidiano de Scout e Jem, seu irmão mais velho. Dill, um amiguinho dos irmãos, também será um personagem recorrente na narrativa. Figura de extremo enlevo é Boo Radley, um jovem vizinho dos Finch que nunca sai de casa. E como é costumeiro de cidades interioranas se desenvolverem folclores sobre tudo aquilo de que não se conhece, diversas são as estórias envolvendo a incógnita de Radley. As crianças se aproveitam desse suspense para fantasiarem e passarem seus dias na pacata cidade. Discutem os hábitos de Boo e desafiam uns aos outros a encostarem a mão na casa do rapaz, que julgam mal assombrada. Atticus Finch, pai de Scout e Jem, admoesta constantemente os filhos para que deixem o pobre vizinho em paz.

 

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Talvez o ápice da primeira parte desse dicotômico enredo é quando Jem acha, por vários dias, presentes num buraco de uma árvore na calçada de Boo Radley: medalhas, pequenas esculturas (aparentemente dele e da irmã), canivete, etc. Se antes a curiosidade do leitor a respeito de Boo era latente, agora será devastadora. A segunda parte do romance não é de maneira nenhuma menos importante que a primeira, e deixará a antiga curiosidade do leitor morna, quase esquecida pelo seu enlevo criativo e comovente. Atticus Finch é de um caráter impecável, inatingível, chega a ser até sedutor. E é esse homem, que tem como profissão a advocacia, que defenderá um negro acusado de estupro. No local e momento em questão, uma tarefa quase irrealizável. Apesar de muitas evidências mostrarem que Tom Robinson não cometeu tal crime, a cabeça de um negro deve rolar, isso é o que os moradores de Maycomb querem. Atticus, antes respeitado, passa a ser motivo de escárnio, e é claro, isso respinga em Scout e Jem.

 

O singular comportamento de Atticus em relação à atitude dos moradores surpreende o leitor. Repreende Scout por ela brigar na escola ao tentar defendê-lo. “Não se sinta ofendida quando alguém lhe disser uma expressão feia. Isso não deve atingi-la, apenas revela a pobreza de quem falou…”. A hombridade de Atticus é, de maneira nenhuma, cafona. Sua visão romanceada é encantadora e comovente. Ele é um herói, mas um perfeito humano, que sabe que tem passado e aprendeu com ele; chora por dentro para não preocupar os filhos, e mesmo com um medo contido, segue pelos caminhos que julga corretos (e que são). Diversas vezes questionado por Scout sobre o motivo de estar defendendo Robinson, Atticus é peremptório. “Scout, devido à natureza do seu trabalho, ao longo da sua vida um advogado tem sempre um caso que o afeta a nível pessoal. Penso que este é o meu. Com certeza vai ouvir algumas coisas desagradáveis na escola, mas me faça um grande favor: mantenha a cabeça levantada e os punhos em baixo. Não ligue pro que te digam e, sobretudo, não deixe que eles te irritem. Tenta, para variar, lutar com a cabeça… Verá que é uma boa solução, embora custe a aprender.”

 

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Na obra, a tristeza do povo negro é personificada em Tom Robinson, que mesmo trabalhador e bondoso, sente a discriminação em um tribunal injusto. Diversas são as passagens que poderão marejar os olhos do leitor, umas delas é o término do julgamento. “Alguém estava me cutucando, mas eu relutei em tirar os olhos do pessoal lá de baixo e do vulto solitário de Atticus que deixava o recinto. – Srta. Jean Louise? Olhei para o lado. Em volta de nós e no outro lado do balcão, os negros ficavam de pé. A voz do reverendo Sykes soou tão distante quanto a do juiz: – Srta. Jean Louise, levante-se. O seu pai está passando.

 

Harper Lee não precisa de delongas ao narrar o icônico Atticus. Ali, um homem perdedor sai do tribunal em que os negros que estão assistindo levantam para que ele passe. Gostar dessa obra não é uma questão de gosto. Não só por ser um clássico, ele realmente é muito bom. Não somente pela acuidade da escrita, não por ser atemporal, não pelo seu contexto histórico, não pelo gênero indecifrável, não pelo impacto, não pela imprevisibilidade, não pela influência. Sim pela sinceridade, sim por apesar de não ser ingênuo, ainda assim ter um senso de esperança em suas veias ideológicas. O Sol é Para Todos ou To Kill a Mockingbird é um traço em linha reta na vida de um leitor. A partir dele, você saberá o que precisa ser lido e o que pode ser esquecido.

 

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