Se não bastasse ter na carreira um dos marcos da ficção científica e do cinema que é Matrix, os irmãos Wachowski sempre foram realizadores que ousam nos projetos, se tornando verdadeiros vanguardistas da sétima arte. Muitas vezes injustiçados e recebendo várias críticas negativas pelos trabalhos – o meu único desapontamento foi com O Destino de Júpiter –, eles continuam firmes com seus ideais e, agora na TV, são responsáveis por mais uma obra prima que em sua primeira temporada já se tornou uma das melhores produções feitas para esta mídia. Sense8 não é apenas um simples entretenimento, é uma aula sobre respeitar e compreender o próximo. É uma ode à empatia.

 

Uma produção inédita da Netflix, que já conta em seu serviço de streaming outras séries imperdíveis como House Of Cards, Orange Is The New Black e Daredevil, traz toda a inventividade dos Wachowski em sua melhor forma com a diferença que agora têm mais tempo para mostrarem o quão bom contadores de história eles são. Além deles, Sense8 ainda tem outros diretores conhecidos como James McTeigue (V de Vingança) e Tom Tykwer (Perfume – A História de Um Assassino).

 

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A série desenvolve melhor a ideia apresentada no filme A Viagem, também dos Wachowski. A ideia que há uma ligação – temporal ou emocional neste caso – entre os seres humanos, e que nossas ações são importantes para a vida do outro. Deste modo, o roteiro (também creditado à J. Michael Straczynski) conta a história de oito pessoas totalmente diferentes, deste culturas até personalidades, que são conectadas por uma estranha força que os unem em uma só vida. A expressão “se coloque no lugar do próximo” nunca fez tanto sentido. Com esta união, eles começam a compartilhar os medos, angústias, dúvidas, alegrias, raiva e outros sentimentos profundos da psique humana, deixando de lado todas as diferenças que os fazem tão díspares e, desta maneira, acabam compreendendo melhor a si mesmos.

 

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A história se passa em oito diferentes países, e com esta geografia imensa deve ser elogiado o trabalho da Netflix que realmente investiu em locações reais em países como Rússia e Coréia do Sul, por exemplo. A diversidade da série – que é retratada em uma excelente produção de design – só fortalece a mensagem de que apesar destas pessoas serem de lugares tão distantes, os sentimentos continuam próximos.  Oito vidas orientadas pelo misterioso Jonas Maliki (Naveen Andrews, sim, o Sayid da série Lost) que com este poder precisam lidar com um novo perigo. Embora os oito personagens necessitam aprender a usar esta conexão para se tornarem mais fortes, eles ainda têm que lidar com seus próprios problemas, o que torna ainda mais apaixonante e humana a história de cada um.

 

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O que não falta nesta primeira temporada de Sense8 são momentos memoráveis. Momentos que não teriam a mesma força se não fosse a dinâmica brilhante da edição tanto na pós-produção quanto nas gravações coreografadas que continham cenas com mais de um personagem, e a todo instante, eles tinham que trocar de posição para deixar a ação fluente. Algumas sequências merecem aplausos como quando o personagem de Aml Ameen,  Capheus, em uma situação de vida e morte é auxiliado, sem nenhuma consciência disso, pela coreana Sun Bak (Doona Bae) que ao mesmo tempo que luta em um rinque em Seoul, enfrenta bandidos no Quênia na pele do africano. Nesta parte, já pode ser conferida a inspirada direção para cenas de ação que rege toda a produção. Continuando, a sequência da música What’s Up? da banda 4 Non Blondes, que virou sucesso na internet, é simplesmente emocionante. Sem falar da “orgia” que rola entre alguns deles em um dos momentos mais picantes da série, resultando em um final no mínimo cômico.

 

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A série também é livre de preconceitos e embora os personagens homossexuais enfrentam os julgamentos da sociedade, a história não foca na sexualidade deles em si, mas no que os torna humanos, mostrando que não são nenhum bicho de sete cabeças como, infelizmente, muitos pensam. Com esta visão, a série é essencial para abrir a cabeça de quem ainda guarda este preconceito retrógrado, e se coloque, nem que seja por um breve instante, no lugar daquela pessoa que o sofre. Sense8 consegue empolgar na ação (a “voadora” de Van Damme é de uma pura genialidade), emocionar com o sofrimento e superação de seus personagens e abrir uma reflexão sobre empatia. E assim ver como precisamos dos outros tanto quanto eles precisam de nós.

 

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Trailer: