Na segunda metade dos anos 90, falava-se em muita coisa. Falava-se em um país cuja democracia parecia finalmente consolidada após décadas de turbulências políticas; falava-se em uma moeda estável, ainda que contando com alguns tropeços econômicos eventuais; falava-se em um país que aparentava um futuro próspero, tanto econômico quanto social (pela primeira vez em muito tempo, pequenos passos eram dados a caminho da superação das desigualdades sociais). Falava-se também em uma Retomada do cinema brasileiro, o qual, limitado à pornochanchada durante o Regime Militar e extremamente prejudicado durante o Governo Collor, começava a chamar novamente o público para as telonas e ganhava a crítica internacional.

 

Hoje, em 2015, é possível analisar o panorama do final da década de 90 com um olhar bem mais seguro. A nossa democracia, felizmente, foi consolidada nos termos teóricos, assim como a nossa economia, que – crises à parte – nunca mais passou nem perto dos desastrosos planos econômicos que atormentaram a população principalmente nos anos 80. A estabilização econômica, unida a uma preocupação social que surgiria de forma extremamente pungente posteriormente, permitiu grandes avanços no sentido de conter a marginalização de classes e setores sociais que ocorria historicamente no Brasil. O cinema, por sua vez, ainda que também não tenha beirado a figuração que ocupou na Arte nacional da década de 60 a 1992, após grandes sucessos como Cidade de Deus e Tropa de Elite, pareceu encontrar seu território com comédias românticas rasas financiadas por grandes distribuidoras, responsáveis por massacrar mensalmente os excelentes dramas de baixo-orçamento que tentam adentrar o “mercado cinematográfico” mês a mês.

 

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Que Horas Ela Volta?, o filme-fenômeno dirigido por Anna Muylaert, funciona como uma síntese de todas essas transformações que o nosso país tem passado nos últimos 20 anos. Sua trama se propõe a analisar, através do panorama social, a distinção das visões de mundo de pessoas que se acostumaram ao Brasil puramente elitista e segregacionista e daquelas que observaram e participaram das mudanças que permitiram que milhares de brasileiros saíssem da pobreza e da miséria, assim como adentrassem territórios antes ocupados apenas de forma seletiva pelos portadores de renda, como – por mais absurdo que seja – as universidades. Ao mesmo tempo, o seu sucesso (até o dia 18/09, o filme ocupava o quarto lugar nas bilheterias brasileiras, ganhando de blockbusters como Missão: Impossível – Nação Secreta e Ted 2, além de ter conquistado cinemas do mundo todo e ser apontado como um dos prováveis indicados – e forte concorrente – a Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2016) parece demonstrar aquilo que a Retomada provou, mas que os grandes estúdios ajudaram a esquecer: o público não deve ser nunca subestimado.

 

A maior prova disso é que, escondidos atrás de filmes de humor barato com nomes globais e enormes campanhas de marketing, os dramas nacionais independentes nunca nem tiveram a chance de figurar entre o top 10 das bilheterias nos últimos anos. Entretanto, quando uma pequena (só em termos de custo) obra que se dispõe a debater a desigualdade social começa a ganhar os holofotes por suas qualidades como obra e não como produto capitalista, este público, acostumado às comédias rasas empurradas goela-abaixo toda semana nos grandes complexos cinematográficos, rapidamente resolve dar ao drama uma chance. Da chance à aprovação, o sucesso de Que Horas Ela Volta?.

 

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O filme em si conta a história da empregada doméstica Val (Regina Casé), a qual trabalha há anos para a família de classe média alta de Bárbara (Karine Teles), morando inclusive na mesma casa que seus patrões. Distanciada por muitos quilômetros da filha Jéssica (Camila Márdila), da qual teve que se separar para ir em busca de oportunidades de emprego em São Paulo, ela não acompanhou de perto sua educação e seu crescimento, mas vê uma chance de reaproximação quando a filha vem para a capital cosmopolita brasileira a fim de prestar vestibular. Entretanto, as visões de Val e Jéssica são diametricamente opostas no que diz a respeito à forma como a empregada deve se comportar em relação a seus patrões, o que acaba ocasionando inúmeros conflitos entre as duas e respingando até na estrutura familiar de Bárbara.

 

O roteiro e a direção de Ana dialogam perfeitamente à medida que ambos não pretendem ser complexos em sua linguagem, mas sim encarregam a própria subjetividade das personagens e das situações que protagonizam de dar esta complexidade ao filme. Praticamente tudo que se presencia nas quase duas horas de projeção é lotado de simbologias, as quais podem ser compreendidas tanto pela parcela do público que está assistindo à obra com atenção para pescar cada detalhe quanto pela que compreende tais simbologias ao se reconhecer nos papéis e nas situações a que o filme nos submete.

 

Still ' The Second Mother ' - ' Que Horas Ela Volta '

 

O reconhecimento da população nas personagens e até mesmo em ambientes e objetos é um dos grandes trunfos da obra, por sinal. Tanto através do núcleo familiar de Bárbara quanto do ciclo social que envolve Val e Jéssica, vamos identificando nas figuras os mais diversos setores da sociedade brasileira. Bárbara é a típica mulher que não age de forma desigual com as outras classes sociais por maldade, mas sim porque foi educada em um sistema quase estamental de classes em que ela, como representante da classe dominante, não deve nunca deixar de exercer o seu poder sobre os outros, ainda que isso implique em momentos de compaixão feitos por tabela, apenas para deixar sua consciência limpa e manter um falso clima de harmonia por meio da alienação; Val, exatamente do outro lado, foi educada pelo mesmo sistema quase estamental de classes, mas, por sua vez, ela, como representante da classe oprimida, deve servir de forma inquestionável àqueles que, por obrigação, proporcionam o seu sustento e reconhecer os momentos de compaixão destes como sinais de afeto e gratidão (ainda que isto não corresponda à realidade).

 

Val e Bárbara vão vivendo então esta ordem inquestionável com certa harmonia até que chega Jéssica, que vem justamente com a função de expor as contradições do sistema a que as duas estão submetidas. Tendo vivido distante da realidade dos grandes centros e também da realidade de ainda maior desigualdade social da época em que Val foi criada, Jéssica cresceu em um país em que os de menor renda se acostumaram não à subserviência, mas sim em um país que implementou gradativas leis e projetos para fins de inclusão social. A isso, soma-se o fato de Jéssica ter tido como tutor um professor de História, o que provavelmente ajudou ainda mais a florescer sua natureza questionadora e nada conformista.

 

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Como coadjuvantes, mas não menos importantes, existem Fabinho e Carlos, filho e marido de Bárbara, respectivamente. Fabinho revela-se uma figura contrastante, revelando ao mesmo tempo um afastamento da mãe por ter conhecimento de que ela nunca será capaz de se comportar da forma humana e afetuosa de Val, mas também tendo a mesma visão limitada de Bárbara (de forma um pouco mais atenuada, porém), o que faz com que ele observe Jéssica como se fossem de mundos diferentes, se surpreendendo quando, por exemplo, a menina diz que almeja uma vaga de Arquitetura na USP ou quando insinua que não é virgem. Já Carlos simboliza aquele que foi educado pelo pensamento burguês, mas que não absorveu as ideias deste para si, tendo sido inclusive uma vítima do mesmo, o que acabou resultando tanto em frustração profissional quanto pessoal. É a inveja da postura crítica e lotada de atitude de Jéssica (ausente em todos aqueles com quem sempre conviveu) que faz com que ele, inclusive, se atraia (e por que não dizer que se apaixone?) por ela.

 

Com tanta responsabilidade em suas costas por meio da construção de personagens tão amplos e complexos em sua essência, é de esperar muito do elenco. E pode se esperar mesmo, porque ele cumpre todas as expectativas a que está submetido. Regina Casé opta por uma atuação construída toda em cima de detalhes gestuais e de pequenos gestos, como olhares e sorrisos, o que diferencia sua Val da caricatura completa com que as empregadas domésticas são representadas usualmente pelo cinema e pela televisão. Preocupação parecida tem Karine Teles, em uma atuação repleta de cuidado para humanizar a sua personagem e não transformá-la em uma megera folhetinesca. Já Camila Márdila brilha como uma grande revelação, fazendo a construção de uma Jéssica poderosa ao mesmo tempo que com a ingenuidade que se é de esperar de uma jovem em momentos de grande sensibilidade, como quando tem de confrontar a sua vida amorosa.

 

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Lourenço Maturelli, como Carlos, também se destaca naquela que é uma das personagens mais difíceis do filme, aparentando inexpressividade ao início, mas conseguindo levar o público para seu lado pouco a pouco. Michel Joelsas, que já havia trabalhado com o texto de Muylaert ao protagonizar O Ano Em Que Meus País Saíram de Férias e que aqui interpreta Fabinho, também faz uma ótima representação do típico adolescente de classe média de cidades como São Paulo, mostrando todo seu potencial em cenas como a da sua reação no pós-vestibular. Ainda que em papéis bem menores (praticamente participações especiais em alguns casos), vale destacar o trabalho de Helena Albergaria, Luís Miranda e Luci Pereira, tendo a primeira aparecido em produções nacionais recentes, como Quando eu Era Vivo e Trabalhar Cansa, e os dois últimos sendo normalmente encontrados em papéis cômicos na televisão.

 

A cuidadosa direção de arte de Marquinho Pedroso e fotografia de Bárbara Alvarez são essenciais na construção imagética do filme, seja pela mera ambientação ou pela relação da ambientação com as personagens, uma vez que os cenários aqui funcionam praticamente como uma personagem que tem vida própria e que sem a qual a trama não poderia ser completamente contada. A trilha de Fábio Trummer também merece destaque, acompanhando com equilíbrio os momentos cômicos e dramáticos do filme, sem nunca exagerar e sendo capaz de emocionar várias vezes. A música Essa Trouxa Não É Sua, composta pelo mesmo, se encaixa perfeitamente com a temática e o tom do filme, ficando então a dica para aqueles que não quiserem assistir o filme até o encerramento dos créditos finais darem uma pesquisada pelo tema na internet depois.

 

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Dessa forma, é possível dizer que Que Horas Ela Volta? resgata da melhor forma as maiores características do cinema latino americano: a reflexão e a crítica social. Aqui, a idealizadora Anna Muylaert funciona como Jéssica, expondo ao público, composto tanto por inúmeras “Val” quanto por inúmeras “Bárbara”, as desigualdades sociais e as contradições de um sistema que muitas vezes vamos aceitando sem qualquer tipo de questionamento, sem pesar as consequências que esse tipo de postura acaba tendo para a sociedade como um todo. Melhor ainda é constatar o crescente sucesso do filme, apontando para que cada vez mais pessoas o estão assistindo e fazendo com que torçamos para que cada um destes espectadores acabe se tornando também um questionador desta ordem em que vivemos. Na música Essa Trouxa Não É Sua, que mencionei há pouco, a alusão é clara ao fato de Val ter abdicado da criação da própria filha, de sua dignidade e de suas individualidades para se dedicar à vida de seus patrões, mas é possível ainda traçar outro paralelo: caso a “trouxa” que tratemos seja a causa da desigualdade social, o macrocosmo da obra, essa trouxa é nossa sim e dela nunca devemos deixar de cuidar, o que, neste caso, significa confrontar, questionar e lutar pela mudança.

 

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Trailer: