Uma das principais marcas da Marvel, o Quarteto Fantástico, já teve a honra (ou seria desonra?) de ser adaptada três vezes no cinema. A primeira nem conta muito, pois é assumida como um trash. Contudo, os dois últimos, produzidos pela Fox, a mesma responsável por ótimos filmes da franquia X-Men, foram verdadeiras decepções, resultando em dois exemplos de como não só realizar um filme de super-herói, mas de como não realizar nenhum filme.

 

Este ano, era a chance do estúdio redimir-se pelo fiasco. A expectativa para esta nova adaptação só melhorou após a contratação de um bom elenco e trailers promissores. Bom, a única certeza que tive ao terminar de assistir o novo Quarteto Fantástico foi que urgentemente os direitos autorais da franquia devem ser devolvidos para a Marvel que, mesmo não sendo sinônimo de altíssima qualidade, pelo menos teria a capacidade de tratar melhor esses quatro heróis que estão cansados de sofrer não nas mãos de vilões fortes, mas de fracos produtores.

 

O novo fracasso ficou a cargo do diretor Josh Trank (já deixou sua própria crítica ao filme em uma postagem no Twitter, mas que foi rapidamente deletado), do interessante Poder Sem Limites, com a colaboração de Jeremy Slater e Simon Kinberg no roteiro. A impressão é que os três escreveram um piloto de uma série sobre o super grupo. Assim, no primeiro episódio, eles apresentariam os personagens para o público e terminaria com um gancho para os próximos. O problema é que não é uma série – mesmo que, infelizmente, tenha grandes chances de continuações – e sim um filme que precisa funcionar por completo com um arco conciso e fechado. Desta maneira, este Quarteto só promete, promete, promete e quando finalmente engrena: o filme acaba.

 

 

Não muito diferente dos vários filmes de origem que povoam o cinema atualmente, o roteiro resolve focar mais especificamente no personagem Reed Richards (Miles Teller, para sempre o baterista de Whiplash – Em Busca da Perfeição), tendo os outros integrantes como simples coadjuvantes. O arco do primeiro ato vai deste a infância nerd de Richards até o momento que ele é descoberto por Dr. Franklin Storm (Reg E. Cathey). Chega a ser engraçado como Richards constrói um teletransporte e o apresenta na feira de ciências de sua escola, com a ajuda do amigo inexpressivo  – tanto como humano quanto como o Coisa – Ben Grimm (Jamie Bell), mas o único que mostra interesse pelo projeto é o doutor. Sério? Ninguém mais se impressionou com um teletransporte funcionando de verdade? É forçar muita a barra para fazer de Richards um gênio incompreendido.

 

Deste ponto em diante, tudo acontece muito rápido, afinal são só 100 minutos. A apresentação de personagens (lembrando que só Richards tem um background mais desenvolvido), a construção da amizade entre eles, o ciúme bobo que o futuro antagonista sente pelo mocinho só de ver ele rindo com sua amada, a própria transformação do vilão, e assim vai. No entanto, nem tudo são pedras no caminho. As explicações encontradas para as transformações de cada personagem são interessantes, deixando a parte de ficção científica com um leve destaque. Uma pena que ninguém se importou com este lado científico que poderia render um novo olhar para a obra.

 

 

Os conflitos foram os mais prejudicados pelo apressado roteiro. Conflitos interiores e exteriores. O filme vive de sombras. Uma sombra mostra problemas de relacionamento na família Storm, principalmente na relação de Johnny Storm (Michael B. Jordan) com o pai. Outra sombra flerta com mudanças de personalidade do Tocha Humana e do Coisa. Outra sombra revela um Sr. Fantástico perturbado por abandonar seus amigos. Contudo, todas essas sombras são iluminadas facilmente, pois o buraco do aprofundamento nelas é muito raso. Deste modo, inimizades e alianças são feitas e desfeitas em um passe de mágica ou em uma situação conveniente. Conveniência é a palavra chave aqui. Durante um ano que se passa na história (aquele ano que parece um dia, pois ninguém muda), o exército procurou Richards, mas só depois que o Dr. Storm precisa dele para reativar o projeto, é que lembram que estão com Sue Storm (Kate Mara) à disposição, uma especialista em encontrar padrões e que poderia ter sido de grande ajuda na busca. A falta de inteligência do exército reflete no roteiro.

 

Agora o grande problema deste Quarteto: a ação. Quando se assiste um filme de super-heróis como os Vingadores por exemplo, o mínimo que se espera é poder ver os heróis em ação em pontuais momentos da história até chegar no épico clímax. Nem a lição de casa mais clichê eles conseguiram fazer (e nem algo diferente que seria muito recompensador). O filme apenas fica atiçando o público durante toda a projeção com pequenas demonstrações do que eles são capazes, como aconteceu no esquecível último Godzilla, para só no último ato, eles saírem na pancadaria com o Dr. Doom (Toby Kebbell). Um salva para a equipe de design na criação visual do personagem, mas que não é o bastante para salvar um vilão novamente mal utilizado que só está na história como uma justificava para a, única, cena relevante de ação. O embate entre o Coisa e Sr. Fantástico é tão pífio que é melhor nem prolongar o comentário.

 

 

Enfim, o novo – pode anotar aí que não será o último – Quarteto Fantástico não consegue a tão sonhada redenção para a Fox diante aos fãs. Embora seja a melhor adaptação entre as quatro, mas graças a qualidade e a boa química do elenco, além de um humor afiado, o filme é apenas um breve suspiro de quão bom poderia ser. Enquanto o dia de uma digna adaptação não chega para este quarteto de heróis, o melhor a fazer é esperar o próximo capítulo da Marvel Studios.

 

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Trailer: