Com tantos filmes que abordam o nosso cotidiano, é sempre divertido e interessante quando surgem obras que fogem um pouco da realidade que estamos acostumados, como aquelas que retratam o mundo daqueles cujas mentes não vivem na mesma sintonia que as nossas. A loucura sempre rendeu grandes obras cinematográficas, como Um Estranho No Ninho e Cisne Negro, mas é muito subestimada pelo cinema nacional, só tendo sido tratada com enfoque no ótimo Bicho de Sete Cabeças. Agora, mais de uma década depois, Carolina Jabor volta ao tema com Boa Sorte.

 

Aqui, João (João Pedro Zappa) é um jovem que está vivendo sua primeira experiência em uma clínica psiquiátrica, mas que já não se conectava com sua realidade há muito tempo. Viciado em remédios e com um comportamento muito distante do “comum” para sua família e amigos, ele só começa a viver a felicidade ao se apaixonar por Judite (Deborah Secco) na clínica, uma soropositiva que parece ser a única a compreendê-lo e aceita-lo como ele é.

 

A falta de carisma de Zappa como protagonista e a insuportável personagem Felipe de Pablo Sanábio faz com que tenhamos uma grande dificuldade inicial de embarcarmos no filme, o qual só começa a mostrar a que veio ao desenvolver a relação de João e Judite, a qual é interpretada de forma brilhante por Deborah Secco. É inclusive curioso que, com um roteiro (assinado por Jorge e Pedro Furtado) com situações tão criativas e inusitadas, os momentos que funcionem melhor sejam os que usam clichês românticos e saídas fáceis (mascarados pela ideia da loucura), justamente por serem esses os que mais valorizam o trabalho de Deborah. O ingresso, então, passa a valer principalmente por ela, mas também pelos ótimos momentos que a direção certeira de Carolina Jabor proporciona, como aquele em que o trio formado por João, Judite e Felipe dançam pela clínica, mostrando o fantástico domínio de câmera que a diretora possui.

 

Ah! O ingresso vale mais ainda pela presença de Fernanda Montenegro como a avó de Judite. Mesmo participando de poucas cenas, a atriz consegue encarnar – como esperado – com perfeição o tom agridoce trazido por Furtado e Jabor e que já funcionou muito bem em filmes como Meu Tio Matou um Cara e Saneamento Básico – O Filme. Talvez um cuidado maior com a escolha de elenco e com a preciosidade do tema pudessem fazer de Boa Sorte um grande momento do cinema nacional.

 

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Com a vastidão do mundo e as diferenças existentes entre cada continente e, dentro destes, entre cada país, estado e cidade, é natural que cada cinema do mundo tenha sua própria característica. O cinema norte-americano marcado pela cultura de massa, o europeu pelas inflexões filosóficas e o estudo dos seres humanos, o indiano pelas manifestações culturais regionais, e por aí vai. Já o cinema latino-americano, tendo como base a sua exploração histórica pelos países “desenvolvidos”, tem como forte marca os seus dramas e a crítica político-social, qualidades extremamente positivas que até hoje ainda se fazem muito presentes no cinema brasileiro, ainda que nem sempre aproveitadas como deveriam, como mostra Casa Grande.

 

O longa acompanha Jean (Thales Cavalcanti), jovem de classe média carioca que, ao mesmo tempo em que tem de lidar com os dilemas clássicos da adolescência, tem de lidar também com uma crise familiar, desencadeada a partir do momento que seu pai começa a falir e fazer com que ele, sua mãe e irmã se acostumem a um novo padrão de vida. Paralelamente a isso, Jean se apaixona por Luiza (Bruna Amaya), vinda de uma realidade totalmente diferente a sua e que contribui para aumentar ainda mais o seu conflito interior.

 

Partindo de uma ideia que, ainda que já muito trabalhada na Arte, está sempre em vigor na sociedade (a luta de classes), o roteiro assinado pelo próprio diretor Fellipe Barbosa peca pelo excesso de didatismo em quase todos os assuntos de teor político ou social que trabalha. Com diálogos que buscam reproduzir a principal argumentação dos dois lados da moeda de cada temática, como as cotas sociais, muitas vezes Casa Grande soa mais como uma aula de sociologia de um Telecurso ou como o capítulo de uma novela global do que como um filme em si. Além disso, a exploração de temas ligados diretamente ao Brasil do início da década de 2010, como a aprovação do sistema de cotas pelo STF ou a queda de Eike Batista, dão ao filme uma temporalidade extremamente grande, fazendo com que, muito possivelmente, ele esteja datado já daqui a alguns anos, sendo que a desigualdade social é um tema que preza justamente – e infelizmente – pela atemporalidade na sociedade latino-americana.

 

Por outro lado, Barbosa acerta ao trabalhar os conflitos juvenis do protagonista, incluindo aí sua relação com uma imensidão de pessoas de diferentes comportamentos, que vão desde sua namorada à empregada de sua família, passando pelos seus colegas de colégio. Quanto ao elenco, ainda que com atuações sempre mantendo uma regularidade – exceto pelos amigos do pai de Thales, extremamente superficiais e caricatos -, quem rouba a cena é Marcello Novaes (o único que consegue tornar o didático roteiro um pouco mais aceitável), como um pai de família de personalidade dúbia, sempre dividido entre a preocupação com a família e com valores e a mecanização que o mercado exige para que se obtenha “sucesso” financeiro. Vale destacar também a direção, extremamente inspirada em alguns momentos, como no belíssimo plano da mansão de Thales que abre o filme, nos dando a sensação de que a obra que veremos é muito maior do que, ao terminarmos de assistir, percebemos que realmente é.

 

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Definitivamente, o humor brasileiro é muito melhor na Internet do que na Televisão e no Cinema. Enquanto na TV ainda somos obrigados a engolir programas com um humor pra lá de batido e sem graça, como Zorra Total e A Praça É Nossa, e no Cinema somos apresentados a uma enxurrada de produções da Globo Filmes, repetindo sempre as mesmas piadas e estereótipos, na Internet há a opção por canais de comédia que fazem um humor inteligente e sempre em sintonia com a sociedade, como o Porta dos Fundos e o Parafernalha.  Com o Tá no Ar e modificações no Zorra, o humor televisivo começou a dar sinais de recuperação. Agora, com Entre Abelhas, a sagacidade do “humor YouTube” parece estar começando a ser aos poucos transportada também para a telona. Aos poucos.

 

No filme de Ian SBF, criador do Porta dos Fundos, Fábio Porchat, também uma das estrelas do canal, interpreta Bruno, um editor que, em meio a conturbada separação, começa a perder a capacidade de enxergar as pessoas, literalmente. Ele vai entrando cada vez mais em pânico ao perceber que não consegue controlar tal fato, o qual vai fazendo com que perca totalmente sua capacidade de dialogar com o mundo ao seu redor.

 

Tendo como base uma ideia inteligente e sabendo aproveitá-la sempre com situações criativas e por vezes até surpreendentes, o roteiro de Porchat e SBF se dá muito bem, ainda que pudesse ser melhor explorado com uma duração um pouco maior do filme (que não chega nem aos 90 minutos). O elenco é recheado de humoristas, como o próprio Porchat (que demora a encontrar o tom de seu protagonista, mas que, quando encontra, funciona muito bem – o mesmo valendo para a trilha sonora de Gabriel Chwojnik), Marcos Veras (em uma personagem extremamente destoante e desnecessária), Luis Lobianco (ótimo) e Silvio Matos (o qual participa apenas de uma ponta, mas que é um dos melhores momentos da obra), mas quem arranca mais risadas é justamente a veterana Irene Ravache, que faz questão de nos lembrar o porquê de ser uma das maiores atrizes brasileiras.

 

Talvez Entre Abelhas se desenvolva sem muita energia e rápido demais para uma ideia que talvez exigisse um pouco mais de tempo, mas quem sabe se trate de um recomeço para as comédias nacionais.

 

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Stephen Daldry, diretor de Billy Elliot, As Horas, O Leitor, Tão Forte e Tão Perto e 3 vezes indicado ao Oscar, assina a direção de Trash. Já Richard Curtis, roteirista de Quatro Casamentos e um Funeral, Um Lugar Chamado Notting Hill, Simplesmente Amor, Questão de Tempo e indicado a um Oscar e dois Globos de Ouro, assina o seu roteiro. No elenco, nomes como Wagner Moura, Selton Mello, Rooney Mara e o veterano Martin Sheen. Logo, com dois cineastas tão talentosos por trás do filme e um elenco invejável, é de se esperar que o resultado venha a ser dos melhores possíveis, não é? Não neste caso. O resultado final de Trash é tão desastroso que é até difícil de entender como a obra pôde dar errado com tantos elementos convergindo para que desse certo.

 

Na trama, que é uma mistura de Indiana Jones, Conta Comigo, Cidade de Deus e Tropa de Elite, três amigos que moram em uma favela descobrem uma carteira cheia de dinheiro que, sem que eles saibam, esconde uma história que envolve muita gente poderosa, de políticos a Polícia Federal. Assim, eles passam a ser perseguidos por um corrupto e inescrupuloso policial que está atrás desta carteira, podendo somente contar com si próprios e com o padre e a professora que os ajudam em sua comunidade.

 

Com um roteiro que, como já disse, é um remendo de muitos outros filmes já vistos, é difícil que Trash se sustente. Além disso, o deslumbramento do roteirista e do diretor com a realidade brasileira faz com que o filme acabe se tornando extremamente afetado. Pobreza, corrupção, violência, dentre muitos outros temas que fazem parte do cotidiano daqueles que vivem à margem da sociedade, são todos abordados de forma extremamente grosseira, sempre acompanhados por frases e músicas clichês. É impossível também não ficar minimamente incomodado com a confusão da obra ao não se decidir se quer ser um filme crítico ou uma simples aventura juvenil, o que acaba fazendo com que não haja qualquer unidade em seu produto final. Cenas constrangedoras – como a gravação feita pelas 3 crianças protagonistas ou o momento em que um dos segredos do filme é revelado, próximo a seu fim – também só nos ajudam a lamentar que um filme com um elenco de primeira (totalmente subutilizado, sem exceções) e uma excelente equipe técnica tenha obtido um resultado tão desastroso.

 

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Como mencionei ao escrever sobre Entre Abelhas, o humor na televisão brasileira é algo muito complicado. Muitas vezes fácil e batido demais, custa a inovar para tentar arrancar risadas de seu público. Mesmo assim, ao longo de tantos anos de produção televisiva, é possível citar algumas produções que deram certo: as sitcoms de Miguel FalabellaSai de Baixo, Toma Lá Dá Cá – e de Fernanda Young e Alexandre MachadoOs Normais, Os Aspones – e a já clássica A Grande Família.Todos esses formatos tinham algo em comum: um texto ágil e divertido, mas que dificilmente funcionaria se não fosse guiado por um elenco com um timing cômico tão bom. Sorria, Você Está Sendo Filmado – O Filme, não por acaso uma produção da Globo Filmes, é um filme com um tom muito forte de televisão. Por sorte, ele consegue absorver o melhor dela, e repete, de forma até eficaz, a fórmula que fez com que todas estas produções que citei dessem certo.

 

O filme, praticamente um remake de Morte de um Homem Nos Balcãs, começa a partir do momento em que um autor de séries de humor se suicida em seu apartamento, deixando a webcam ligada. A partir deste momento, acompanhamos através da webcam os eventos que se seguem, marcados principalmente por reações inusitadas de todos que adentram o apartamento.

 

Apesar de ter claramente a intenção de demonstrar a perda da capacidade da sociedade de se comover, chocar ou se solidarizar com a tragédia na atualidade (algo muito bem retratado no ótimo O Abutre), o filme na maior parte do tempo acaba se desviando deste objetivo para se tornar uma simples comédia de situação em longa-metragem, talvez buscando uma fórmula mais fácil e garantida de conquistar risadas dos espectadores. Como já disse, a sorte de Sorria é que ainda sim é possível ter um bom resultado, pois é simplesmente impossível não rir com atuações tão inspiradas por parte de todo o elenco, especialmente do trio Otávio AugustoSusana VieiraLázaro Ramos.Próximo a seu final, a obra retoma sua intenção inicial com muita eficiência, mostrando que, se quisesse, conseguiria ser uma comédia ainda mais engraçada e ao mesmo tempo leal com seus propósitos.

 

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Mesmo sendo um país de grande diversidade – em vários sentidos da palavra – é curioso que o Brasil ainda seja um país lotado de preconceito. E se a nossa MPB e o nosso rock ainda encontram dificuldades de emplacar com força nas rádios e movimentar multidões, qual era a chance de uma artista transgressora, que vivia com outra mulher e mostrava sem qualquer pudor os seios no palco em seus shows de rock emplacar na década de 90? Quase nula, se essa artista não fosse Cássia Eller. Cássia não apenas emplacou, como se tornou um dos maiores ícones da nossa música. O fenômeno Cássia Eller é, então, justamente o objeto de estudo do documentarista Paulo Henrique Fontenelle nesta ótima obra.

 

Se focando bastante na vida pessoal da cantora, vamos aos poucos entendendo o porquê de Cássia ter sido tão bem aceita pela população brasileira. Impecável como musicista, ela também conseguia ser um ser humano invejável, sem em nenhum momento de sua carreira ter se perdido, como muitos artistas, em intermináveis egocentrismos decorrentes do sucesso. Ainda que tivesse tido pequenos percalços, ela em nenhum momento deixou de ser uma excelente mãe e namorada, além de ter cultivado amigos por onde passava, seja por admiração por sua música (o grande motor que fazia com que superasse sua gigante timidez e se tornasse um furacão nos palcos) ou por seu lado humano.

 

O melhor de Cássia Eller é que, ao contrário dos documentários comuns, ele não acaba com a morte da biografada. Fontenelle acompanha ainda a batalha de Maria Eugênia, namorada de Cássia, pela guarda do filho Chicão, em um dos momentos mais emocionantes do filme. Fugindo do lugar-comum, o documentário ainda não se limita a biografar a cantora, mas também usa de fatos desconhecidos do grande público para fazer críticas como, por exemplo, a forma como os veículos de comunicação, ao mesmo tempo que são capazes de destruir um artista através de invasões de privacidade e manchetes sensacionalistas, são capazes de influir positivamente em decisões judiciais.

 

O mais incrível é como em 2015, 14 anos após sua morte, Cássia Eller ainda brilha com a força de uma estrela que está apenas iniciando sua trajetória. E como Cássia, brilha esse belo documentário de Paulo Henrique Fontenelle.

 

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