A palavra nostalgia, etimologicamente, é formada pelos termos gregos nostós, regresso a casa, e álgos, dor. Bem, não é necessário ser um profundo conhecedor das palavras para saber que toda saudade traz um punhado de dor junto dela. É esse o ponto crucial de Mr. Punch – a saudade e a dor da infância.

 

Essa história é narrada sob a perspectiva de um menino, que ao contrair uma doença vai se recuperar na casa dos avós.  Durante a estadia, o garoto descobre diversos segredos de família, como a depressão da avó causada pelas traições do avô e a doença mal explicada de seu tio-avô.

 

Em meio a tantos segredos obscuros, une-se à trama um bizarro teatro de fantoches chamado Punch e Judy. A HQ é tomada por flashes macabros, que entram em cena quando o personagem assiste à apresentação na praia. Mas o teatrinho não é simplesmente algo inventado por Gaiman. Trata-se de um clássico inglês encenado para as crianças desde o século XVII, onde Punch mata todos os personagens, inclusive seu bebê e sua esposa.

 

 

Punch, o fantoche, é assustador, e traz com suas diabruras um tipo de humor negro, que também faz com que o leitor ria. O teatro dos fantoches dá um trato ímpar ao livro, porém poderá deixar o leitor confuso caso não pare a leitura para procurar e então reconhecer a tradição de Punch e Judy.

 

Justamente por resgatar memórias, embora não das mais comuns, a história toda não traz grandes arrebatamentos ao leitor, que permanecerá na linearidade de um enredo triste. O que não comprometerá a leitura.

 

O tom melancólico e sombrio da graphic novel não é causado somente pela trama, mas também pela arte de David Mckean – que traz uma mistura de desenhos de traços duros permeados por cores pastéis ou escuras e colagens.

 

 

Será possível perceber ao longo dos acontecimentos que o garotinho que foi passar uma temporada na casa dos avós terá como bagagem de volta memórias perturbadoras, e um pequeno desfalque da infantil inocência inerente às crianças.

 

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