Quando comecei a acompanhar Game of Thrones no não tão distante ano de 2011, confesso que não esperava muito da série. Não que não esperasse muito em termos de qualidade (até porque a HBO costuma manter um padrão muito alto de qualidade de todas as suas produções, de séries a filmes originais), mas em termos de repercussão esperava o mesmo de outras séries da emissora, como Mad Men e The Sopranos, em que o sucesso é relativizado frente a um público extremamente seleto e limitado, algo relacionado à própria linha do canal da TV fechada norte-americana.

 

De fato, minhas expectativas se concretizaram. Até a terceira temporada, pelo menos. Com gradativos aumentos de audiência e de popularidade, Game of Thrones pouco a pouco foi caindo na boca do povo. É verdade que a maior parte do seu sucesso – felizmente ou infelizmente – não vem da cuidadosa direção de arte, do afiado elenco ou do texto primoroso, mas sim da fuga do formulaico maniqueísmo que desde sempre abateu a televisão e o cinema mundial (e quanto maior a tentativa de produzir produtos populares, maior é a chance de cair nesse tipo de proposta). Mocinhos, vilões e seus devidos coadjuvantes. O final todos já sabem: morre o vilão, triunfa o mocinho. Em Game, entretanto, ao se abordar um mundo de humanos (e não-humanos) pecadores e com sede de poder, as qualidades e defeitos se tornam relativos e já não é mais possível fazer uma distinção de caráter tão radical entre as personalidades de cada um. Sem vilões e sem mocinhos, qualquer um pode morrer, qualquer um pode triunfar.

 

 

Essa opção pelo pouco convencional, vindo de qualquer outra emissora preocupada com os níveis de audiência, seria segurada pelo menos até a segunda temporada, quando o telespectador já está mais acostumado com o ritmo da trama e com sua estrutura narrativa. No entanto, em Game of Thrones, houve a preferência por deixar bem claro, já na primeira temporada, que os rumos que a série poderia seguir nem sempre seriam os esperados pelo público. Essa escolha, que poderia afugentar rapidamente um público ainda arisco, foi justamente a responsável pelo enorme número de fãs que a série foi conquistando ao longo de seus anos. Logicamente que isso seria impossível sem o talento dos roteiristas principais David Benioff e D.B. Weiss, os quais tiveram a difícil tarefa de manter simultaneamente todos os núcleos interessantes, uma vez que, com a queda de um personagem, outro igualmente fascinante deveria ocupar o seu lugar.

 

Dessa forma, em sua quarta temporada, a série baseada nos livros de George R.R. Martin já havia se tornado um fenômeno para os padrões da HBO. Sua audiência era a mais alta da história da emissora e já fazia com que a série batesse de frente com outras produções de emissoras de grandes audiências (vale lembrar que nos Estados Unidos, Game of Thrones é exibida nas noites de domingo, o horário mais disputado do país, onde, atualmente por exemplo, são exibidas séries como The Walking Dead e Homeland). Ao mesmo tempo, as personagens da série haviam se tornado conhecidas por todos, motivando até rodas de amigos a debaterem qual seria a próxima vítima dos carrascos Benioff, Weiss e, principalmente, Martin. Assim, neste ano, chegamos ao fim de sua quinta temporada, recheada de sucesso e, ao mesmo tempo, de polêmicas.

 

 

Essas polêmicas não são somente calcadas nas impiedosas mortes de personagens populares, já que a diferença dos livros para os episódios televisivos e a brutalidade das cenas também são causas de controvérsias. No primeiro caso, desde o princípio foi sabido que, até pela duração da série e pelo fato da saga ainda não ter sido concluída por Martin (o qual é produtor da série e ainda assina o roteiro de vários episódios), os roteiristas tomariam algumas liberdades em relação à obra original. Entretanto, as liberdades, que a princípio seriam pequenas e aos poucos foram se tornando grandes (a ponto de serem criados fatos decisivos para os rumos da série que não constavam nos livros), acabaram incomodando os fãs mais ferrenhos, principalmente nas temporadas mais recentes, quando, devido à proximidade da exibição dos últimos eventos narrados nos livros, a quantidade de fatos criados pelos roteiristas aumentou.

 

Esse tipo de prática, por questões óbvias, é extremamente comum e já é utilizado há décadas como recurso para adaptações de livros tanto para a televisão quanto para o cinema. É um tanto quanto lógico que, da mesma forma como é impossível adaptar todos os fatos de uma obra de 500 páginas em 120 minutos, é impossível adaptar somente os fatos que constam em uma série de livros – mesmo que extensos – para uma obra televisiva em que cada temporada soma ao todo praticamente 600 minutos. Nesses casos, entra em prática a capacidade dos roteiristas de selecionarem o que é importante para a trama e o que é acessório, assim como quais fatos podem ser acrescentados sem mudarem drasticamente o rumo da obra original e também sem tornarem a produção monótona. No caso de específico de Game of Thrones, só se torna um pouco preocupante o fato de, nesta última temporada, a série ter perdido um pouco de sua dinamicidade e agilidade características em razão de um excesso de cenas que, no fim, acabaram em nada contribuindo com o desenvolvimento das personagens ou dos fatos essenciais para a conclusão da temporada.

 

 

Quanto à polêmica brutalidade das cenas que mencionei anteriormente, é outro caminho inevitável que a série deve percorrer. Como muito bem salientado por George R.R. Martin em uma de suas recentes declarações, ao se tratar de um ambiente visivelmente medieval, é impossível não tratar de questões como a submissão feminina, a ocorrência de estupros, incestos, violentas táticas de guerra e torturas, dentre muitos outros elementos. Havia a opção por tratar tais temas de uma maneira mais subjetiva, os deixando mais implícitos e os abordando de uma forma menos gráfica, mas tal opção iria justamente na contramão do realismo a que a trama se propõe. Mais do que propõe, o realismo que a trama exige, uma vez que seu mote central é justamente a ambiciosa natureza humana, que faz com que os homens cometam insanidades em sua incessante busca pelo poder e pela dominação.

 

Esse tema também faz com que a série traga uma linguagem universal e atemporal, um dos principais motivos por se passar em um universo fictício e em uma época não revelada (ainda que, pelas características visuais e sociais, possamos presumir que seja na Idade Média). Logicamente que a presença de seres mágicos, como dragões e white walkers, impede que a série assuma um local e uma data e ao mesmo tempo seja realista, mas estes seres acabam servindo como meras peças para construir e mostrar as verdadeiras personalidades de cada um dos personagens que lutam pelo Trono de Ferro em uma interminável luta política que nos faz refletir sobre diversos momentos da História, inclusive sobre o atual momento político que o Brasil e outros países atravessam.

 

 

Totalmente baseada no desenvolvimento de suas personagens, é claro que Game nada seria se não fosse o seu elenco de primeira. Em grande parte desconhecidos do grande público, a escolha por atores provenientes de filmes independentes ou feitos exclusivamente para a televisão e de estreantes se justifica justamente pelo fato de se tentar criar a sensação de que estamos pisando em um território completamente desconhecido, em que não conhecemos ninguém e não fazemos a menor ideia do que cada um é capaz de fazer ou do que esconde por trás de suas atitudes públicas. É importante lembrar que a única figura amplamente conhecida que participou da série até o momento foi o ator Sean Bean, funcionando como chamariz para a série que acabara de estrear.

 

Passados cinco anos do início de sua exibição, atores como Peter Dinklage, Lena Headey e Emilia Clarke também já conquistaram seu lugar no universo da fama, grande parte em função da popularidade de suas personagens. No entanto, a qualidade dos roteiros é tamanha que temos vontade de conhecer e acompanhar a saga de cada uma das personagens, até mesmo daquelas que surgem em aparições extremamente rápidas, somente para ajudar a construir o caminho dos protagonistas. Em se tratando do elenco, vale destacar também o trabalho de Nikolaj Coster-Waldau (Jaime Lannister), Michelle Fairley (Catelyn Stark), Charles Dance (Tywin Lannister), Gwendoline Christie (Brienne), Conleth Hill (Lorde Varys) e muitos outros responsáveis por tornarem suas figuras inesquecíveis e suas atuações essenciais para o sucesso da série.

 

 

Como plano de fundo da disputa pelo controle de Westeros, tem o fantástico trabalho da direção de arte e de fotografia da série. O cuidado na criação de cenários e na inserção de detalhes nestes remonta a grandes clássicos do cinema, dando à produção o status de um grande épico. Como nas obras de David Lean ou na trilogia O Senhor dos Anéis de Peter Jackson, a ambientação pode ser considerada uma personagem em Game of Thrones, possuindo uma função vital para o desenvolvimento das ações. Como exemplo, pode-se citar todas as sequências que se passam no Norte e, mais especificamente, a Caminhada da Vergonha ocorrida no último episódio da quinta temporada, em que o ambiente funcionou praticamente como o grande condutor da opressão que o momento transparecia. Além da direção de arte e de fotografia, vale destacar a direção geral da produção, que consegue caminhar com grande equilíbrio entre o drama e a ação (dando verdadeiras aulas de como trabalhar ambos os gêneros).

 

Com tantas qualidades, cabe a nós, como público, desejar apenas que Game of Thrones consiga manter em suas próximas temporadas o alto nível de qualidade que apresentou até agora e termine como uma das maiores séries já produzidas na história da televisão norte-americana. Diferente de boa parte das produções da atualidade, aqui é possível criar um real vínculo com as personagens e com suas trajetórias, fazendo com que acompanhemos como que de perto tudo que elas passam, torcendo sempre para que tenham o destino merecido. É somente uma pena que, como amigos de longa data que se afastaram ou familiares que moram longe, possamos acompanhá-las uma vez por ano, deixando uma grande saudade toda vez que se encerra uma temporada. Agora, em junho deste ano, foi hora de darmos um “até logo” a todas estas personagens, ainda que mal possamos esperar para que abril de 2016 chegue logo e possamos revê-las novamente.
 
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