Construir a imagem de uma figura pública é algo extremamente fácil, tanto que a grande mídia faz isso diariamente. A cada dia surgem novos artistas – atores, atrizes, modelos, cantores, apresentadores, diretores, e por aí vai – que são bombardeados por flashes e microfones sedentos por uma nota em colunas sensacionalistas de jornalecos de fofocas ou sites de entretenimento. Para conquistar um clique ou um centavo a mais, vale tudo. Vale tirar frases de seu contexto original, colocar em destaque fotos tiradas em momentos não muito apropriados, violar a privacidade do artista, fazer suposições maldosas, e muito mais.

 

Alguns não se importam nem um pouco com esse tipo de sensacionalismo e, muito pelo contrário, acabam aproveitando-o para prolongar os seus 15 minutos de fama. Não é à toa que, tempos atrás, virou piada na Internet o uso por uma grande rede de televisão brasileira o uso do termo “personalidade da mídia” como profissão para uma participante de reality show. Essas “personalidades da mídia” vivem de ter suas imagens construídas pelos veículos de comunicação e, normalmente, quando morre o interesse destes meios, morrem estas figuras também.

 

 

Já outros, os artistas de verdade, não veem a fama e a mídia como um meio, mas sim como uma consequência de seu talento e sucesso. Em um minuto se está gravando um disco em estúdio e, em outro, empresários de ouvido apurado já estão tocando as músicas em rádio e criando hits. Do pequeno sucesso inicial para o sucesso mundial, não basta muito. Logo se está enfrentando, a contragosto, os temíveis paparazzi e as indiscretas perguntas dos programas de TV. Mas como evitar? Deixar de fazer Arte? Deixar de fazer o que se ama em prol de evitar a mídia?

 

Estes artistas normalmente passam a vida tentando desconstruir a imagem que os veículos tentam construir deles, tudo em nome de um sensacionalismo barato. Quando morrem, suas obras sobrevivem e, com elas, o interesse por quem foi aquele artista de verdade. Oras, agora que não é mais possível continuar criando uma figura em torno daquela pessoa, por que não tentarmos descobrir quem foi aquele ser humano por trás das lentes das câmeras e de todas aquelas afirmações que, embora veementemente negadas, não foram suficientes para desconstruir todo o senso comum criado em cima daquele ídolo?

 

 

É aí que entram em cena os documentários biográficos. Nestes, pouco importa o que disseram os tabloides esse tempo todo, o que importa é o lado humano de cada artista. É a desconstrução da figura midiática e o nascimento do ser humano. Assim surgiram Cássia, Raul – O Início, o Fim, o Meio, Loki – Arnaldo Baptista, Simonal – Ninguém Sabe O Duro Que Dei, Amy e, mais recentemente, Cobain – Montage of Heck, biografia de Kurt Cobain, vocalista do Nirvana, dirigida pelo documentarista Brett Morgen.

 

Existem formas e formas de se conduzir um documentário. A mais tradicional delas é a que opta por focar em entrevistas de relacionados ao biografados e, a estas entrevistas, somar algumas imagens. Aqui, Brett Morgen opta pela maneira menos convencional de se construir um documentário, que é o que acaba sendo o seu diferencial em relação aos outros filmes do gênero e o que nos leva a realmente compreender a mente do artista. As entrevistas e imagens continuam presentes, mas inúmeras animações (tendo como base os desenhos de Kurt) e sequências são utilizadas para dar voz aos pensamentos e sentimentos do vocalista do Nirvana, contando ainda com o auxílio de áudios e imagens inéditos, frutos de um longo trabalho de pesquisa do diretor, que trabalhou com um material cedido pela família e acumulado ao longo de sete anos.

 

 

Desta forma, vamos acompanhando Kurt Cobain desde a sua infância como um bebê extremamente alegre e interativo até a sua fase adulta como pai, marido e vocalista de uma das maiores bandas de rock da história. A opção por contar de forma linear a trajetória do astro pode soar tradicional a princípio, mas se mostra uma medida sábia por permitir que acompanhemos a construção de sua mentalidade e possamos compreender, sem olhares preconceituosos e guiados pelo senso comum, suas mudanças comportamentais durante a vida. Assim, vamos entendendo desde sua transformação de uma criança interativa para um jovem retraído até de aspirante ao sucesso para uma grande estrela revoltada com as maldades estampadas diariamente nos jornais contra si próprio e contra sua esposa.

 

Aliás, despir-se de preconceitos e do senso comum é obrigatório para aqueles que desejem apreciar Montage of Heck e entender o documentário a fundo. Acompanhando a visão de mundo progressista de Cobain, o diretor também nos leva para um passeio pelo olhar que o cantor tinha da sociedade. Com a ajuda do filme A Um Passo do Abismo e de diversas opiniões deixadas por Kurt em seus diários e no decorrer de suas entrevistas, somos apresentados a uma figura repleta de humanidade e que entrava em contraste com um mundo que valorizava cada vez mais a superficialidade em detrimento da profundidade. Este conflito fica ainda mais claro com o início de seu relacionamento com Courtney Love, muito criticado tanto por fãs quanto pela imprensa como um todo, que entrou em uma massiva “campanha” contra o relacionamento dos dois; um relacionamento de altos e baixos entre figuras excêntricas em meio a muitos casamentos de aparência do meio artístico.

 

 

E já que tocamos no assunto… é quase impossível falar de Kurt Cobain sem falar de Courtney Love. Peça importante para a construção do filme (ela é uma das principais entrevistadas), Love conta com o esforço de Morgen para tentar desfazer sua péssima imagem pública de uma mulher irresponsável e que nunca levou muito a sério o seu relacionamento como esposa e mãe da filha de Kurt. Ainda que se esforce, talvez este seja o único ponto em que o diretor não consegue atingir pleno sucesso. Nos momentos em que somos apresentados à vida íntima do casal (em vídeos realmente íntimos, dos tipos que é pouco comum serem divulgados para o uso em documentários), Love sempre parece muito mais preocupada em rebater tudo que a mídia dizia sobre ela do que em retribuir o amor incondicional que Kurt – igualmente afetado pela imprensa, mas nem de longe pedante como Love ao rebater as acusações – sentia por ela e por sua filha, Frances.

 

No entanto, como o objetivo do diretor é adentrar a fundo a mente de Cobain e não a de Love, pode-se dizer que ele é muito bem sucedido como um todo, ainda mais ao lidar com um projeto que reúne tanto conteúdo e passa por fases tão distintas. A fim de dar uma unidade a este projeto e não deixar que se tornasse uma grande bagunça, Morgen opta por usar uma linguagem visual moderna e despojada, justamente para se aliar, como já dito anteriormente, a visão de mundo progressista de Cobain. Ao mesmo tempo, deve-se dar destaque ao trabalho de fotografia de Eric Edwards, Jim Whitaker e Nicole Hirsch Whitaker ao optar por transições – muitas vezes até bruscas – entre cores vibrantes e cores escuras, como que apontando para a mente em constante questionamento e transformação do biografado.

 

 

Olhando desta forma, pode parecer até difícil de resumir o filme como um todo. Mas não é. Em algumas de suas últimas cenas, Montage of Heck reproduz na íntegra as apresentações de All Apologies e Where Did You Sleep Last Night gravadas durante o MTV Acústico de 1994. No momento em que se assiste a estas cenas, pode-se parecer desnecessária a inserção das duas apresentações por completo, uma vez que o foco não é assistir a uma amostra do show do Nirvana, mas sim conhecer a fundo seu vocalista, Kurt Cobain. Entretanto, faça o experimento: ouça as duas músicas algum tempo depois de assistir ao filme. Como que por mágica, ambas conseguem transmitir toda uma atmosfera que, antes de se assistir ao documentário, parecia invisível a nós. Transmitir esse tipo de sensação, tão poderosa e ao mesmo tempo tão difícil de imprimir em uma obra, é algo que só os grandes filmes conseguem. Só os grandes filmes.

 

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Trailer: