No dia seguinte ninguém morreu”. Assim, seco. Porque nas narrativas fantásticas de Saramago, o que acontece, geralmente de forma trágica, é posto assim, sem agruras. Já os discursos e pensamentos das personagens são partes que o escritor gosta de tratar com mais demora. A peculiaridade da escrita do escritor português é um tanto conhecida, entretanto o leitor mais desavisado poderá sofrer um pouco com a leitura – que precisará de investimento.

 

Dissecar um livro como As Intermitências da Morte é um ato quase de ingenuidade, porque qualquer estrutura complexamente elaborada para análise dessa narrativa de apenas duzentas e poucas páginas deixaria muitos caminhos sem trilhar. O que será feito aqui consideraremos apenas um despretensioso compêndio de comentários.

 

A morte, sim, com m minúsculo, como nos lembrará a personagem homônima, decide então parar com seu serviço – que nada mais é do que findar com a vida dos humanos. Apenas humanos, porque plantas e animais são parte de outro departamento. Curiosamente, a suspensão dos serviços será especificamente em um único país (inominado e fictício). A imortalidade é entendida como um presente pela população, mas algum tempo depois o “não morrer” passa a ser um grande problema. Os punhados de gente moribunda ocupando os hospitais aumentam gradativamente, e as funerárias perdem totalmente suas funções. Além de a crise instalar-se também em seguradoras, casas de pensões, etc.

 

A relação entre igreja, governo, intelectuais, imprensa e demais departamentos da sociedade é muito interessante nessa primeira parte da narrativa. A acidez dessas relações é uma forte crítica social, e o leitor soltará gargalhadas mesmo em meio a essa tragédia. Isso porque Saramago trata muito bem de banalizar as ações humanas. A fala cínica diante da crise dentro da igreja prova o sarcasmo da narrativa. “Sem morte, ouça-me bem, senhor primeiro-ministro, sem morte não há ressurreição, e sem ressureição não há igreja. (…) A igreja, senhor primeiro-ministro, habituou-se de tal maneira às respostas eternas que não posso imaginá-la a dar outras, Ainda que a realidade as contradiga. (…) À igreja nunca se lhe pediu que explicasse fosse o que fosse, a nossa outra especialidade, além de balística, tem sido neutralizar, pela fé, o espírito curioso”.

 

Diante da desordem, como é típico, instala-se a criminalidade, representada pela “Máphia”, uma facção que se encarrega, diante de um gordo pagamento, de levar os moribundos até outro país, onde a morte ainda segue seu fluxo normal. Imagine a confusão moral que as pessoas passam a enfrentar: deixar que os moribundos continuem nessa situação ou pagar para que a máphia os leve para o outro lado da fronteira e finde com esse sofrimento. Inevitavelmente, a população consegue perceber nesse ambiente caótico que a morte, se não boa, é pelo menos natural.

 

Sete meses é o tempo total de férias da velha tânatos. Quando volta aos seus serviços, entretanto, a personagem decide que o fluxo normal será mudado. Os humanos receberão um envelope violeta como um aviso prévio sobre suas próprias mortes. E como é devido, a morte vem a público através de uma carta, avisando sobre seu novo procedimento de trabalho.

 

É nesse momento que acontece uma clara divisão na história. Anteriormente, nenhum personagem tinha destaque. Somente quando a morte enfrenta um problema de não conseguir enviar uma dessas cartas para um violoncelista, é que essas duas personagens emergirão na trama. Essa dicotomia poderá incomodar alguns leitores, o que talvez seja um erro, pois de um enredo que traz a cessão da morte de seres humanos, não se pode esperar muita convenção.

 

Gênio como é, Saramago traz, não longe de seu Nobel, mais uma história para complexa reflexão das imbecilidades humanas. É fácil admitir que qualquer obra dele precisa de bastante empenho interpretativo, intelectual. Sobre isso, basta seguir o conselho do próprio autor, dado em uma entrevista ao programa brasileiro Roda Viva de que sempre temos que ler algo que está acima da nossa compreensão.

 

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