Antes de escrever sobre a nova animação da Pixar, é necessário relembrar o período sombrio que a empresa passou nos últimos anos, culminando em um 2014 sem nenhum lançamento inédito (deste 2006 a empresa lançou um filme por ano). Toy Story 3 fechou um ciclo e manteve o estúdio no auge com um futuro promissor pela frente. No entanto, o que ninguém esperava é que os próximos projetos deixassem a emoção em segundo plano para focar-se no puro entretenimento, seguindo a linha criativa de casas como a Disney DreamWorks.

 

Carros 2 foi uma desculpa para vender produtos, enquanto Valente enfrentou problemas nos bastidores prejudicando o resultado final. Universidade Monstros é divertido, porém funciona muito mais pela nostalgia do primeiro do que por si próprio. Era hora de uma pausa, e depois de um ano para repensar qual seria o próximo passo, é com satisfação que vou ao cinema para conferir o retorno da Pixar em contar histórias que marcam – e até mudam – vidas.

 Pete Docter, diretor de Monstros S.A., é o responsável por liderar a imensa equipe de criação nesta nova obra prima chamada Divertida Mente. Passei horas pensando em palavras que poderiam descrever a experiência que tive ao assistir o filme. Mesmo que eu fosse capaz de escrever a melhor das críticas, descrevendo cada rico detalhe e analisando a poderosa mensagem contida, não seria o bastante para transmitir tudo o que senti. Uma animação que propõe muito mais do que apenas vê-la, e sim senti-la.

 

O roteiro mostra como as emoções de uma garota, Riley (Kaitlyn Dias), se comportam dentro da mente dela. Joy/Alegria (Amy Poehler) está sempre determinada em fazer de tudo para o bem-estar de Riley, deste modo, ela coordena e impõe sua vontade aos outros sentimentos, deixando claro qual a função de cada um na “sala de controle” que é a mente da menina. Anger/Raiva (Lewis Black), Fear/Medoi (Bill Hader) e Disgust/Nojo (Mindy Kaling) são bem vistos por Joy por ajuda-la a manter o equilíbrio e criar memórias que constroem a personalidade de Riley. Um trabalho perfeito se não fosse por um indesejável sentimento: Sadness/Tristeza (Phyllis Smith).
 Joy não consegue entender o porquê de existir Sadness que só aparece nos momentos de sofrimento. Contudo, após uma confusão que acaba pondo as duas para trabalharem juntas, elas precisam repensar os seus próprios conceitos de existência para poderem ajudar Riley a superar uma difícil mudança. Assim o roteiro se desenvolve na questão deste sentimento que é geralmente evitado, mas é tão necessário quanto qualquer outro, tão importante para o nosso amadurecimento. Mas como uma emoção que traz sofrimento pode ser importante? Aliás, as pessoas não passam suas vidas em busca da felicidade? Muitas vezes, em busca deste pote de ouro, até se submetem viver mentiras para que possam sentir uma falsa satisfação de sucesso. Interessante notar que se este plot não estivesse em mãos ambiciosas, Sadness se tornaria a vilã, Joy a grande heroína e os outros seriam apenas coadjuvantes engraçadinhos, enquanto Riley viveria altas confusões por causa de seus sentimentos atrapalhados. Felizmente está nas mãos da Pixar, a velha e renovada Pixar, que sabe exatamente do que está falando, pisando com gosto nos livros de auto-ajuda.
 Voltando a história, quando Anger, Fear e Disgust ficam sozinhos e tentam substituir Joy, mesmo com as melhores das intenções, se veem incapazes de trazer algum conforto para a garota, já que são melhores quando um complementa o outro. Não ficaria surpreso que o público – interessante notar que na minha sessão só tinha adultos – compartilhasse da atitude de Joy em isolar Sadness para que não “afetasse” Riley. No entanto, a verdade é que sem a tristeza não tem como saber o que é ser feliz, não tem como descobrir o quão forte você pode ser. Nas tempestades também podemos colher ótimos frutos. Em uma das cenas mais emocionantes que a Pixar já fez em sua brilhante filmografia, esta mensagem fica clara como uma lágrima de alegria.Seria um pecado não falar da trilha sonora de Michael Giacchino que é digna de prêmios. Se não bastasse ter dado o toque de misericórdia nos primeiros minutos de UP – Altas Aventuras (outro filme de Docter), agora o maestro foi capaz de manter-me em um estado de pura entrega emotiva durante toda a projeção. A produção de design não fica atrás. Criadora de um mundo cativante e carregado de uma absurda genialidade, passando por vários estágios da mente, entrega cenários incríveis como o Departamento Abstrato que deixaria Picasso orgulhoso. Até a criação das emoções é de um excelente trabalho minucioso que consegue entregar uma identidade visual forte para cada personagem, marca registrada da empresa. A luz que brilha em Joy e o fogo de Anger são exemplos de como os personagens são realmente importantes para que a história funcione.
 Divertida Mente é a síntese do que significa a Pixar, um estúdio que consegue divertir crianças e emocionar adultos. Uma reflexão sobre nossas emoções, sobre a importância do autoconhecimento em nossas vidas. Nada melhor do que após um momento de crise, saia algo que transmita perfeitamente o caos que o estúdio passou e foi superado com maestria. As minhas emoções agradecem por esta bela e inesquecível memória.Obs: O curta Lava que antecede o filme é de uma poesia musical que só o amor pode entender.

 

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Trailer: