A escrita fácil, imitação da fala rústica da protagonista Celie, pode enganar o leitor quanto à profundidade de A Cor Púrpura. Mesmo brutalmente dolorosa, a história diversas vezes nos faz emergir para um cenário confortável e caseiro, proporcionado por Celie. O soco no estômago é dado logo na primeira página, quando a garota de apenas catorze anos, em um das várias cartas para Deus, narra como o próprio pai a estuprou pela primeira vez. Ela engravida duas vezes e tem seus bebês tirados a força pelo pai, sua mãe falece e, além de tudo isso, ainda passa a se preocupar com a irmã mais nova, para quem o pai começa a olhar.

 

Toda a obra de Alice Walker não inclui somente romance, também é constituída por poesia e não ficção. E em meio a tantos escritos, uma de suas principais inspirações é a mulher negra. “A mulher negra é um dos maiores heróis americanos… Ela tem sido oprimida além do que é reconhecido. Seu homem tem, atualmente, encorajado esta repressão e insistido nela”, diz Walker. O machismo e o racismo, mazelas que assolam todas as personagens de A Cor Púrpura, são os pontos nos quais a autora usará sua ácida crítica.

 

Após achar que a garota já não tem mais serventia para nada, o pai de Celie acaba arranjando um casamento para a menina, que frequentemente abusada pelo marido, acaba tornando-se escrava de um lar que não lhe pertence, incluindo vários enteados malcriados.  A única personagem por quem a protagonista sente amor e que é recíproco, é de sua irmã mais nova, Nettie. Em uma das tentativas de abuso do pai, a caçula foge de casa e acaba se instalando na casa da irmã. Inicialmente, o marido não se opõe, mas após ser rejeitado pela mocinha em várias investidas, a expulsa de casa. Celie orienta Nettie para que procure a esposa do reverendo, mulher que suspeita ter adotado seus dois filhos.

 

Após a partida da irmã, Celie sente-se cada vez mais afundada na lamacenta tristeza de seus dias. Espera por cartas que não vêm e em alguns momentos de devaneio, pensa nos maus tratos que sofre do marido. A comparação entre seu marido e seu pai torna-se inevitável e, com isso, ela vê no futuro apenas uma continuação de um passado bastante conhecido, e a inércia a faz acreditar que não poderia mudar de vida.

 

Harpo, seu enteado mais velho, decide se casar com uma moça das redondezas, mesmo a contragosto do pai. A mocinha, Sofia, mesmo de origem pobre e negra, tem uma coragem invejada por Celie. Justamente pela astúcia da mulher que Harpo começa a encontrar problemas em seu casamento. Ao reclamar para a madrasta que Sofia não o obedece, ingenuamente ela o aconselha a bater na esposa. Harpo, na tentativa de agressão a Sofia, acaba apanhando, e toda a confusão faz Celie se arrepender muito do conselho mal dado. Em uma das passagens de mais valor da trama, Sofia confronta Celie: “Toda a minha vida eu tive que brigar. Eu tive que brigar cum meu pai. Tive que brigar cum meus irmãos. Tive que brigar cum meus primo e meu tio. Uma minina num ta sigura numa família de home. Mas eu nunca pensei que ia ter que brigar na minha própria casa. Ela respirou fundo. Eu gosto do Harpo, ela diz. Deus sabe como eu gosto. Mas eu mataria ele antes de deixar ele me bater. Agora, se você quer um inteado morto, então é só você continuar dando para ele o conselho que você deu. Ela botou as mão no quadril. Eu custumava caçar animal selvagem cum arco e flecha, ela diz.

 

É nesse ponto que talvez Celie passe a ter mais consciência sobre a sua situação. A guinada final para busca de sua emancipação é a chegada da independente Docie Avery a cidade. Apesar de manter um caso com Afonso, marido de Celie, é na esposa do homem que Docie despertará uma paixão imprevisível. Celie, que nunca sentiu atração por homem, acaba descobrindo sua sexualidade com a experiente Docie. Daí por diante Celie conseguirá finalmente tornar-se protagonista de sua vida, mesmo com os difíceis percalços que uma mulher negra deve enfrentar para a emancipação.

 

A narrativa, composta toda em formato de cartas, é totalmente bem-sucedida quando mostra em diversos tons o que o racismo e o machismo podem fazer com a vida da mulher. Mesmo em tons mais claros, quase que imperceptíveis, Walker faz seu trabalho não só de romancista, mas de socióloga para nossa sociedade, e nos tons mais escuros, nesses, o choro do leitor é provavelmente inevitável.

 

A Cor Púrpura, escrito há décadas, pode conter uma realidade distinta para muitos, principalmente para aqueles que são brancos, ricos, homens e heterossexuais. A verdade da não ficção cruel para os que não estão inseridos nesses grupos é confirmada em dados de pesquisas realizadas todos os dias. Mesmo assim ainda ouvimos que o machismo melhorou, que não passamos por ele há anos. Contraponho modestamente: nenhum homem deixa de sair de casa a noite e sozinho por medo de ser estuprado.

 

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Obs: A Cor Púrpura também foi adaptada para o cinema por Steven Spielberg, estrelando no premiado filme a atriz Whoopi Goldberg.