O mundo pós-apocalíptico sempre foi uma das principais marcas, e protagonistas, de Mad Max. Assim, a história é deixada em segundo plano, sendo apenas necessária para um empurrão básico que irá motivar os personagens para o conflito. Este mundo, que divide o protagonismo com o ex-policial Max Rockatansky (interpretado por Mel Gibson na trilogia clássica), é extremamente empoeirado, steampunk e insano. Características que mais importam para o criador George Miller que estabeleceu o visual na época do que era o meu favorito da franquia, Mad Max – A Caçada Continua (nem gosto de lembrar do terceiro), mas que agora perdeu a posição para o brilhantemente louco Mad Max – Estrada da Fúria.  O filme não se propõe em nenhum momento ser um reboot, remake ou continuação dos antecessores, e sim mais um conto individual deste universo. Escrito por Miller, junto com a dupla Brendan McCarthy e Nick Lathouris, o roteiro entrega uma breve contextualização nos primeiros minutos daquele cenário dominado por areia com uma população miserável sedenta por água e governada por criminosos, pois o resto da explicação que você precisa para entender melhor a mitologia presente está transpirando em cada detalhe do design de produção e nas faces lunáticas dos personagens. Nada mais precisa ser dito quando se ouve o som do motor.

 

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Miller, para triunfar o seu retorno na franquia, tem uma sacada genial de como justificar uma nova aventura de Max, agora na pele de Tom Hardy. Ele pegou o clímax dos antigos filmes, que tem como grande ápice uma última perseguição de veículos, e desenvolveu isso durante o decorrer da história. Então somos jogados em uma longa e prazerosa perseguição na famosa Estrada da Fúria, envolvendo tudo o que a loucura tem direito e muita, mas muita, poeira. A pisada no acelerador é quando Imperator Furiosa (Charlize Theron) decide fugir de Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne retornando ao antagonismo após ser o primeiro vilão da série em 1979), levando consigo o particular harém dele. Assim, para escapar, Furiosa precisa enfrentar o grande exército de Joe, além de outros obstáculos que irá encontrar pelo deserto. Mantendo a tradição, Max acaba na situação, contra a própria vontade, pelas mais impensáveis circunstâncias, pois não é desejo de ninguém ser amarrado com uma corrente na frente do carro, ainda por cima tendo o sangue drenado. O responsável por leva-lo nesta aventura é o “War Boy” Nux, interpretado pelo irreconhecível Nicholas Hoult (o Fera de X-Men – Dias de Um Futuro Esquecido), que traz um lado inédito para franquia: a questão da religião. Uma adição que só melhora a mitologia daquele universo.

 

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Sobre o Max de Hardy, gostei bastante da escolha do ator na época da contratação, e minha satisfação passou longe de ser frustrada com uma interpretação que manteve a identidade do personagem antigo, ainda com uma dose a mais de perturbação e praticamente monossílabo. É o clássico herói sem nome, mas que, neste caso, sem um passado claro, é definido por suas futuras atitudes. Max funciona como um guia condutor daquela história que é protagonizada por Furiosa, a dona do conflito principal e prova de que uma mulher é completamente capaz de responder por si mesma (diferente de certos “sucessos” por aí). Theron, com a cabeça raspada e um braço mecânico, incorpora uma das melhores heroínas já vistas no cinema, uma prova que pode sim ter uma protagonista feminina em filmes de ação intensamente violentos. Ellen Ripley vê o seu legado ser respeitado.

 

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O filme também poderia ser apresentado como “O Grande Espetáculo da Estrada da Fúria”. Miller é conhecido como um diretor que não abre mão de efeitos práticos em prol do impacto que a realidade pode proporcionar, e mesmo sabendo usar o CGI para deixar as cenas com outro nível de grandeza – como a sequência na tempestade de areia –, ele usa o mínimo possível deste meio para investir no cinema feito a moda antiga e, desta maneira, conferir as perseguições, explosões, ataques vindo por todos os lados, torna a experiência cinematográfica mais excitante. Uma dedicação merecida de aplausos em propor uma qualidade memorável ao público que parece perdida na maioria dos blockbusters. Contudo, é claro que essas boas intenções poderiam ser sabotadas se estivessem em mãos erradas, e Miller sabe muito bem como usar a câmera para transpor o público para dentro do filme. As cenas de ação acontecem em um ritmo alucinante (são poucos os momentos para recuperar o fôlego), e o diretor consegue posicionar a câmera de um forma que se possa ver tudo que está acontecendo, sem perder nenhum movimento, além de usar técnicas narrativas que funcionam perfeitamente naquele mundo, como a aceleração dos frames, por exemplo. O plano que mostra Max balançando em um pêndulo enquanto um caminhão está explodindo, é apenas uma pequena amostra do completo domínio que Miller tem sobre a obra, e uma aula de direção para os diretores atuais de ação que não conseguem segurar um plano por mais de três segundos, fatiando sequências em momentos incompreensíveis. Não é Joss Whedon?

 

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Outra parte técnica que impressiona é o design de produção comandada por Colin Gibson, responsável por criar os mais insanos e criativos carros que personificam a loucura violenta presente nas facções, criando uma identidade visual única. Os veículos são um show a parte: alguns são protegidos com vários ferros pontiagudos, outros que contem pêndulos para ataque por cima – aliás, um show a parte a sequência de ação que contem eles –, carros de percussão com tambores e um guitarrista que cospe fogo através da guitarra, entre outros visualmente imaginativos. Além do figurino por Jenny Beavan que dispensa comentários, mas que ao ver a armadura de Immortan Joe entenderá a qualidade do trabalho. Tudo envolto por uma trilha sonora explosiva Junkie XL (que remete bastante a Hans Zimmer) e uma fotografia que tanto nas cores quentes quanto nas cores frias encanta pela vivacidade das cenas. O trabalho de John Seale rende vários planos que podem facilmente virar quadros em uma exposição de arte, já que a arte deste filme é digna de premiações. Mad Max – Estrada da Fúria é o melhor retorno possível da série. Um filme que sabe conversar com o novo público e mantem o cânone para o fãs antigos. É o Cinema em alta velocidade visual, empoeirado e que torna todos os dias adoráveis para assistir essa insana e furiosa aventura.

 

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Trailer: