Grey Se Christian Grey (Jamie Dornan) fosse retratado como um homem abusivo, controlador e psicótico que, ao perceber uma carência e fragilidade da protagonista interpretada por Dakota Johnson, a história de Cinquenta Tons de Cinza poderia ser uma ótima oportunidade de estudo de personagem. Um recomendado exemplo disso é o filme Possuídos de William Friedkin.

 

Contudo, é assustador que a produção do filme ignore quem é Christian Grey em prol de fazer um romance convencional com uma abordagem “diferente”, “moderna”, porém algo que este filme passa longe é de ser contemporâneo. O roteiro em si não convence quando é apresentada a personagem Anastasia Steele, uma mulher que, apesar de parecer reclusa, tem uma amiga que está disposta a ouvir seus problemas, um pretendente, uma família que a ama, cursa literatura, e, mesmo sem nenhum trauma, se apaixona pelo primeiro milionário que acabou de conhecer em poucos minutos. No entanto, o maior absurdo é o relacionamento entre ela e Grey.

 

A moça aceita passivamente o comportamento abusivo dele que chega ao cúmulo de propor um ridículo contrato para a relação, a tornando uma propriedade de papel assinado. Sim, em certas cenas há uma relutância por parte dela, mas ela ainda acredita que o amor poderá muda-lo, enquanto aproveita os presentes caros e passeios de planador. Além do sexo mais sem graça que já assisti no cinema.

 

Sobre a fantasia sexual de Grey – o grande atrativo que ouvi tanto falar sobre o livro – seria o de menos, se a iniciativa partisse de ambos os lados, porém o filme não sabe diferenciar o que é prazer do abuso sexual, e trata o comportamento agressivo de Grey como se fosse um problema de relacionamento que precisa ser superado. Um filme que não dá nenhuma justificativa para a mulher ser dependente do homem, e se orgulha de seu galã. Em tempos de Frozen e Jogos Vorazes, esse ponto de vista está totalmente fora do tom.

 

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Hacker Michael Mann é um renomado diretor, um dos precursores do cinema digital, e sabe como ninguém filmar a noite. Os filmes policiais sempre ganharam com sua visão. Responsável por longas como Ali, O Informante e Fogo Contra Fogo, o diretor mostra um interesse por histórias que envolvam personagens na linha tênue entre o certo e o errado.

 

Agora, em seu novo filme, Hacker, decide aventurar-se no mundo do cyber crime com o Chris “Thor” Hemsworth. Embora há pontos interesses como a discussão da ética virtual e dos perigos que a internet propõe, o filme peca no ritmo que por retratar um mundo tão ágil conectado na rede   (impressionante como o wi-fi funciona independente do lugar), parece caminhar em conexão discada.

 

O roteiro de Morgan Davis Foehl também não ajuda, com algumas situações surreais como, por exemplo, uma grande companhia de segurança contrata um ex-criminoso para cuidar de sigilosas informações. Sem falar dos personagens que estão ali apenas para diálogos expositivos. Contudo, nem só de falhas vive o filme, e Mann não decepciona nas cenas de ação, relembrando os bons e velhos tempos da carreira e que torço poder ver um dia outra vez.

 

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Jupiter

Deste que lançaram o clássico Matrix, os diretores Wachowski veem dividindo opiniões acerca de seus trabalhos e, recentemente, tenho lido muito mais críticas negativas do que positivas. Apesar de não aprovar as continuações de Neo, aprovo filmes como Speed Racer e A Viagem, eles são defensáveis por propor uma experiência nova ao público sem medo de ser mal compreendido.

 

Entretanto, uma tendência que vem marcando bastante os trabalhos dos irmãos e parece ser a única justificada para ter feito O Destino de Júpiter, é a de criar um visual único, de pirar nos efeitos visuais, mas neste caso, esqueceram que precisam também de uma história para que tudo funcione.  O roteiro não se sustenta com uma protagonista frágil e influenciável que sempre precisa ser resgatada por um herói que passa o maior tempo patinando e atirando, em cenas de ação que se assemelham a jogos de videogame, e dos repetitivos.

 

O vilão, interpretado pelo ganhador do Oscar Eddie Redmayne, tem a presença justificada para falar baixinho e dar explosões de raiva sem nenhum motivo. É com pesar ver um filme com um conceito interessante sobre os seres humanos que não passam de gado para colheita não ser melhor desenvolvido. Se for pensar na lógica do sistema apresentada no filme, se a Terra fosse uma fazenda, porque o fazendeiro deixaria seu gado livre o bastante e sem nenhum controle para ter perdas com guerras, muito stress e ainda criarem armas para se defenderem? Não tem lógica. Os Wachowski tinham uma excelente ideia em mãos e não souberam o que fazer com ela.

 

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WWD

O gênero de terror/horror apresenta uma escassez de filmes que conseguem mostrar algo diferente ou, pelo menos, eficiente para envolver o público e garantir um medo que só o cinema pode proporcionar. É claro que os tempos agora são outros, e está cada vez mais difícil assustar um público acostumado com a violência acessível nas mídias.

 

Então, a saída para trazer alguma novidade ao gênero pode estar na comédia.  Adotando o estilo falso documentário como no excepcional Zelig de Woody Allen (e em The Office, por que não?), What We Do in the Shadows, dos diretores Jemaine Clemen e Taika Waititi, é uma bela pérola do horror recheado de humor negro e irônico.

 

O filme satiriza a vida noturna de criaturas como vampiros, lobisomens, e até zombies, mostrando que eles tem muito mais do que fazer além de ficar matando pessoas, e acompanhar a relação de vários vampiros que compartilham uma casa com tarefas destinadas e problemas de convivência é sensacional. Os efeitos visuais são convincentes o bastante para chocar um público mais sensível. Não vai faltar sangue para mostrar que o cinema da Nova Zelândia existe e é promissor.

 

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Selvagens

Logo nos primeiros minutos de Relatos Selvagens, novo filme do diretor/roteirista Damián Szifrón, o filme prende a atenção com uma história no mínimo insana e fascinante pela elaboração. Uma pequena amostra do que será apresentado dali para frente.

 

Dividido em seis histórias, algumas, com certeza, irão se destacar mais do que as outras, Szifrón relata situações com o pior do ser humano, mostrando o verdadeiro animal que pode surgir dentro de nós. Os plots funcionam no esquema de “toda a ação tem uma reação”, com atitudes de personagens em situações que poderiam acontecer (ou já aconteceram) no cotidiano, sendo levados as últimas consequências.  Sim, tem o fato de como são histórias curtas, o tempo para desenvolver os personagens é bem prejudicado, como na última história, por exemplo.

 

A sequência do casamento poderia ter outra força se conhecêssemos melhor aquele casal e não fossemos atirados logo no clímax. Pensando bem, é um filme de clímaxes embasados por breves apresentações que fazem a reflexão de como os seres humanos podem ser cruéis quando se entregam à sua selvajaria.

 

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