Em 1986, David Lynch era um diretor com fortes tendências surrealistas que havia estreado com sucesso em Hollywood anos antes com Eraserhead e posteriormente repetido o mesmo êxito com o, hoje, clássico O Homem-Elefante, estrelado por Anthony Hopkins. Uma mancha, porém, constava em sua recente carreira: a adaptação do considerado “inadaptável” livro Duna, em 1984. Tendo sido rejeitado o projeto da adaptação proposta por Alejandro Jodorowsky (por ser um filme “difícil” e caro demais para ser filmado e que provavelmente não teria uma boa recepção do grande público), Lynch – com tendências cinematográficas parecidas com as do chileno – foi convidado para dirigir uma nova adaptação do sci-fi, ainda que soubesse que não poderia deixar suas fortes marcas autorais no filme e que não teria direito à edição final. O resultado: um enorme fracasso.

 

Dois anos depois, a saída que o diretor encontrou para sua carreira foi investir em um projeto completamente oposto ao anterior, ainda que diante de uma imprevisível recepção da obra. Lynch escalou o ícone Dennis Hooper para o papel de vilão em seu filme, a então famosa modelo Isabela Rossellini para interpretar uma protagonista dúbia e Laura Dern e Kyle MacLachlan para o casal de mocinhos, em uma parceria da dupla com o diretor que se repetiria outras vezes. Ao fantástico elenco, juntou-se um roteiro dos mais intrigantes já escritos e uma trilha sonora inesquecível. A julgar pela opinião crítica da época, que chegou a acusar seu filme de abusar de Rossellini, David jamais poderia imaginar que ao longo de várias décadas, sua obra encontraria uma enorme legião de admiradores e que também influenciaria dezenas de outras que surgiriam mais tarde. Nascia o clássico Veludo Azul.

 

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Na trama, cujo roteiro foi assinado – como de praxe – pelo próprio diretor, Jeffrey (MacLachlan) é um jovem que retorna à sua pequena cidade natal para visitar o pai, mas que acaba se deparando com um indício de um possível crime no local. Então ele, junto à filha do delegado, Sandy (Dern), inicia uma verdadeira aventura para descobrir o mistério que pode estar envolvendo a região, sem imaginar que isso pode o levar a desenvolver um estranho relacionamento com uma bela cantora (Rossellini) e pelo doentio homem (Hooper) que possui obsessão por essa. Lynch guia seu filme de uma forma extremamente dual, fazendo frente à própria dualidade do roteiro.

 

Quando acompanhamos Jeffrey e Sandy arquitetando seus planos ou até mesmo na iminência de efetuá-los, o filme é fortemente marcado por uma fotografia extremamente viva e por um tom que beira o juvenil em diversos momentos, justamente para ilustrar o amor que circunda os dois e a necessidade de Sandy de criar um conto de fadas em cima de sua própria história com Jeffrey, como que vivendo uma aventura extremamente íntima que só pode ser vivida pela pessoa por quem é apaixonada. Paralelamente ao amor pueril da personagem de Dern, há o espírito desbravador do protagonista que, como se estivesse participando de um “blockbuster de verão” dos anos 80, parece não ter a menor ideia da história em que está se envolvendo e dos riscos que corre.

 

"Blue Velvet," by David Lynch, with Kyle MacLachlan, Isabella Rosselini, and Laura Dern. no credit

 

No entanto, quando acompanha o relacionamento que Jeffrey desenvolve com a cantora Dorothy ou o relacionamento de Dorothy com o vilão Frank Booth, Veludo Azul é envolvido por uma atmosfera sombria e extremamente adulta, que envolve os momentos sexuais e violentos que acabaram estereotipando a obra. Apesar de parecer uma parte totalmente desconexa do romântico lado do filme que mencionei no parágrafo anterior, o “lado B” e o “lado A” da película se conectam justamente por ambos se tratarem de metáforas do amor; das diversas formas do amor. Do amor (a princípio) platônico de Sandy por Jeffrey, do amor carnal de Dorothy por Jeffrey, do amor afetivo de Dorothy por seu filho e, finalmente, do amor doentio e da adoração que Frank nutre por Dorothy.

 

Apesar de contar com a presença sempre dócil e carismática de Dern e da entrega total de Rossellini (a inexpressiva atuação de MacLachlan não entra na equação que tornou Veludo um clássico), quem rouba toda a cena do filme é, claro, Hooper. Considerado um dos maiores vilões da história da telona, Frank Booth é construído como uma verdadeira caricatura pelo idealizador de Easy Rider, pois é exatamente uma caricatura que o exagero de seu papel pede. Logo, é impossível não concentrarmos totalmente nossa atenção no elegante homem com pose de gangster que lacrimeja ao ouvir Blue Velvet ou In Dreams (ambas as músicas essenciais para a construção do roteiro e da atmosfera onírica que faz parte de toda a filmografia de Lynch) ou que encarna uma personagem humilhante ao ter momentos de intimidade com a mulher pela qual é aficionado.

 

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A verdade é que, amado por uns e odiado por outros, é inegável o espaço que Veludo Azul e o próprio diretor David Lynch conquistaram na história do cinema. Explicar porque um filme contraditório a ponto de poder ser considerado simplório e extremamente complexo ao mesmo tempo fez para conquistar tamanha afeição de cinéfilos do mundo todo ainda é muito difícil (mesmo quase 30 anos depois), mas talvez o segredo do sucesso da obra esteja exatamente na capacidade de nos teletransportar com uma grande facilidade para um lugar que o ser humano jamais poderá conquistar ou dominar: o mundo dos sonhos. O mundo em que todas as barreiras da realidade são superadas e em que se pode passar pelos maiores amores e pelos piores pesadelos sem precisar se preocupar no que ainda se tem para viver, como fazem Jeffrey, Sandy, Dorothy e – por que não? – até mesmo Frank Booth. Tudo claro, cercado pelo amor, sentimento sem o qual não conseguimos sequer viajar por nossos sonhos ou pelo mundo do cinema. E cinema, amor e sonhos são coisas de que David Lynch entende muito bem.

 

Trailer: