O cinema tem o potencial de proporcionar inesquecíveis experiências ao público. É claro que tudo depende de querer comprar a ideia. Infelizmente, a busca do conforto em não querer ser surpreendido durante uma obra e simplesmente se deixar levar pelo entretenimento barato é muito grande, resultando em altas bilheterias para blockbusters sem conteúdo. Contudo, ainda há espaço para realizadores continuarem seus trabalhos que desafiem as pessoas e, assim, deem vida a filmes que possam se tornar atemporais.

 

O sucesso de Birdman no Oscar é a promessa de um futuro melhor para o cinema Hollywoodiano. Stanley Kubrick é um dos principais exemplos de diretores que não estava interessado em apenas entreter o público, e sim lhes proporcionar uma nova experiência audiovisual.  Por isso que 2001 – Uma Odisseia no Espaço não é um filme para ser apenas “assistido” e sim analisado, discutido e “sentido”. Um dos principais temas de 2001 é a evolução do ser humano, assim, Kubrick (como outros realizadores) contribuiu para que o público, após comprasse o desafio de analisar a obra, saísse um pouco mais evoluído daquela sessão, mostrando o poder da sétima arte.

 

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Outro – e cultuado – diretor que compartilha desta linha de trabalho é Paul Thomas Anderson. Um artista que mesmo com sua preferência em certa temática não se prende ao um só gênero. A grande espera dos fãs por um filme é justificada por geralmente não decepciona-los, e sim provoca-los emoções que não encontrariam em uma produção comercial. Em Magnólia, por exemplo, quando no clímax do terceiro ato, quando a resolução de todos os personagens parece tomar um certo rumo, de repente, começa uma chuva de sapos. Era só o que o público precisava para ver aquela história de outro jeito. Ou no final de Sangue Negro quando vemos o ápice do autodestrutivo Daniel Plainview. Uma verdadeira aula de como concluir um arco de um personagem.

 

Então, é com este pensamento que se deve encarar o seu recente trabalho, Vício Inerente, que, superficialmente,  pode parecer apenas uma história de amor nada convencional que envolve conspirações, crimes, humor, paranoia e uma boa dose de nonsense. Felizmente, o filme é isso com várias camadas de interpretações que assisti-lo só uma vez não é o bastante. Baseado no livro e adaptado pelo próprio Thomas Pynchon, o roteiro mostra a investigação de um detetive, após receber um pedido de ajuda da ex-namorada. Se em Boogie Nights o diretor soou como Tarantino, desta vez a comparação é com os irmãos Coen, mais especificamente com o clássico O Grande Lebowski.

 

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Difícil não comparar os dois filmes já que ambos contam com protagonistas com estilo de vida alternativo e por causa de um acontecimento – que no início não parece nada demais – entram em uma bola de neve de situações cada vez mais bizarras. A diferença é que o Larry Sportello de Joaquin Phoenix – mais conhecido como Doc (quase “Dude” heim?) – busca as informações mesmo nunca tendo o domínio da situação, enquanto Jeff Bridges só queria seu tapete de volta. Os personagens excêntricos e cativantes são outra qualidade de Vício Inerente.

 

Independente da duração em cena, o elenco consegue destacar-se. Algo que soa até repetitivo, pois o diretor é excelente na direção de atores, só lembrar os duelos de Phoenix e Philip Seymour Hoffman no tenso O Mestre. Assim, poderia escrever parágrafos para cada personagem como a principal obsessão de Doc, Shasta (Katherine Waterston e sua voz sexy), o sensacional policial Bigfoot de Josh Brolin (e as suas bananas) e o sempre surpreso Coy Harlingen (Owen Wilson), além de outras grandes participações como a de Benicio Del Toro e Reese Witherspoon. Cada um contribui com o seu talento para dar vida a este incrível universo na Los Angeles dos anos 70.

 

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No entanto, quem é o verdadeiro dono do filme é o Doc de Phoenix que vive em plena transe provocada pelas drogas, enquanto tenta solucionar vários mistérios que se acumulam na investigação. Um caso mais complexo que o outro, ou pelo menos que ele acha que é, em um roteiro que privilegia a paranoia de seu protagonista. Sendo assim, o trabalho de atuação de Phoenix é meticuloso com o seu olhar ao mesmo tempo paranoico e perdido, o sorriso bobo, o andar desleixado, a fala arrastada (como a maioria dos personagens) e a competência de transmitir com pequenos gestos suas frustrações, mesmo que quando se assusta não faz questão de minimizar.

 

Nesta divertida complexidade paranoica, Anderson não quer apenas que você acompanhe Doc, mas que você sinta e viaje com ele por todos os acontecimentos. Com a ajuda da editora  Leslie Jones, o diretor cria um ritmo narrativo que acompanha a sensação de alucinação que o protagonista vive, misturando fantasia com realidade. É como se “curtisse” aquela “viagem” juntamente com Doc e compartilhasse de sua transe durante o filme, enquanto você está sendo viciado pela história. Uma história com 150 minutos que você não vê passar o tempo mesmo com a sensação que tudo está indo devagar, pois você é envolvido pela química entre o elenco, diálogos afiados e pela curiosidade crescente do que irá acontecer na próxima cena. Ou seja, uma história viciante.

 

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Se não bastasse o belo trabalho de Anderson em pensar cada cena com sua paixão por detalhes (os bem-vindos planos-sequências) e simbolismos (como uma representação da Santa Ceia com pizza) e do elenco, fora a edição citada anteriormente, a equipe de arte não fica atrás, principalmente o figurino de Mark Bridges que cria peças marcantes e os cenários de David Crank que são icônicos. A fotografia de Robert Elswit entrega a falsa sensação de ser um filme feito nos anos 70 com um filtro que envelhece a película, além do uso constante de sombras como se algo estivesse sempre escondido. Sendo a cereja do bolo, a trilha sonora indispensável de Jonny Greenwood que poderia ser a Awesome Mix Vol. 1 de Starlord de Guardiões da Galáxia se a fita fosse gravada nos anos 70.

 

Vício Inerente é como o amor de Doc por Shasta: pode parecer confuso, não ter nenhum rumo e mesmo assim não consegue ignora-lo. É uma droga – no bom sentido – que te vicia e te faz querer assistir outra vez só para sentir esta experiência novamente, e com certeza você verá um novo filme a cada revisão. Agora, o meu maior crime é desejar que Paul Thomas Anderson continue distribuindo produtos como esse no mercado.

 

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Trailer: