O diretor e roteirista Neill Blomkamp surgiu em 2009, sob a tutela do consagrado Peter Jackson (O Senhor dos Anéis), com uma excelente surpresa para os fãs da ficção científica que foi Distrito 9. O filme definiu qual seria o estilo do cineasta para os próximos trabalhos que é a união do Sci-Fi com uma crítica principalmente quando se trata de problemas sociais. Neste segmento, Distrito 9 aborda o preconceito racial usando a maneira brilhante de ver o mundo de Franz Kafka.

 

Em seu segundo trabalho, Elysium, Blomkamp discute sobre as diferenças absurdas que existem na divisão de classes sociais, enquanto muitos vivem com praticamente nada, trabalhando para poucos que vivem como deuses no espaço. Contudo, já neste filme se pode perceber uma certa tendência do diretor em investir mais na ação do que na própria ideia em si, perdendo um pouco o que havia conquistado na estreia: ser um realizador que consegue fazer de um blockbuster ter “algo a mais” para reflexão pós-sessão.

 

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Infelizmente, essa tendência venceu em sua nova obra, Chappie, em que a boa ideia é desfocada em prol de muita correria e cenas de ação. Escrito por Blomkamp e Terri Tatchell, o roteiro foca na violência urbana e como ela pode influenciar no amadurecimento de uma pessoa, como o meio influencia quem você pode se tornar. Para demostrar esse desenvolvimento, há uma certa união dos dois últimos filmes em que temos um ser inumano sofrendo as consequências de ser “diferente” e também a relação de homem e máquina, pois se você está preocupado que as máquinas vão dominar o mundo um dia, é melhor se preocupar com quem controla elas atualmente.

 

A premissa da história é interessante quando somos apresentados à um cenário de plena violência nas ruas de Joanesburgo, África do Sul, em que a necessidade de policiais robôs são essenciais para diminuir a criminalidade e as perdas de força policial. Contudo, o criador do projeto robótico, Deon (Dev Patel), sonha em desenvolver uma máquina com sentimentos, enquanto seu colega de trabalho e ex-soldado Vincent Moore (Hugh Jackman) quer lançar seu próprio projeto que usará da violência extrema para combater os crimes. A oportunidade de realizar o sonho para Deon surge quando uma gangue (que tem como integrantes os rappers Ninja e Yolandi, o diretor adora investir em rostos desconhecidos) o rapta para construir uma arma para eles. No meio de tanta confusão entre a companhia gerenciada por Michelle Bradley (Sigourney Weaver) e os criminosos, ele cria Chappie (Sharlto Copley), um robô com possibilidade tornar-se humano.

 

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Contudo, Chappie não é um robô adulto e precisa ver tudo que uma pessoa aprende deste sua infância (mas de uma maneira muita mais rápida), e a grande questão apresentada é como crescer em um cenário rodeado de violência e maus exemplos? É neste ponto que o filme poderia crescer e torna-se único, porém a necessidade de criar vilões e urgência para todos os atos dos personagens, a história se torna frenética demais e não sobra tempo para desenvolver a relação de Chappie com os personagens ou até mesmo o público.

 

Sim, tem momentos de respiro quando acompanhamos o robô ser dividido entre ser um criminoso ou um artista, porém personagens desnecessários como o vilão Hippo (Brandon Auret) só ocupam espaço e não adicionam nada a história (podendo ter sido substituído por qualquer outra situação ou personagem). A única relação genuína que existe com Chappie é com sua “mãe” Yolandi, em que o robô demostra algum tipo de real sentimento por ela.

 

Deste modo, é de certa forma decepcionante ver bons momentos como a violência sofrida por Chappie naquele ambiente e seu amadurecimento até tornar-se um verdadeiro combatente – apesar de passar pela fase chata da adolescência – sendo prejudicada por sub tramas, principalmente dos vilões Hippo e Moore que estão ali simplesmente como justificada para as cenas de ação que, apesar de tudo, são excelentes. A batalha entre Chappie e um Metal Gear (que também funciona como referência ao Ed 209 de Robocop) é impactante na medida certa.

 

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Felizmente, Blomkamp não decepciona na direção com a já usual maneira de filmar com a câmara no ombro dando aquele ar quase documental para as cenas, aproximando o público para o caos. Os efeitos visuais da Weta Digital confirmam a qualidade da empresa que escorregou no último Hobbit que soou tão artificial. O ambiente empoeirado alá Mad Max com uma fotografia árida de Trent Opaloch colabora com o visual realista e, mesmo não inspirada, a eficiente trilha sonora de Hans Zimmer entrega o clima de urgência e perigo nas cenas.

 

Na parte técnica, o filme é competente. O design de Chappie é outro acerto. Ele consegue ser marcante visualmente (o adesivo de rejeitado é sensacional) e funcional, repare também como o robô vai mudando de peças (sempre da cor laranja) como uma alusão para a transformação que acontecerá no final quando o diretor brinca com a inversão de valores, em que não há mais distinção entre os limites de homem e máquina. Um suspiro de reflexão que Blomkamp pode fazer melhor.

 

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Chappie funciona como um bom entretenimento, mesmo com um roteiro que não privilegia muito os personagens, perdendo a carga de emoção que poderia ser maior no clímax, o filme fecha a trilogia social de Blomkamp com saldo positivo, antes de ele aventurar-se pelo universo de Alien. A maior dúvida será se ele irá conseguir unir novamente um belo visual, cenas empolgantes de ação e uma boa história em perfeita harmonia, ou se só vai mostrar Ellen Ripley destruindo milhares de aliens. Chegou a hora do diretor lutar contra as influências do meio hollywoodiano.

 

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Trailer: