A partir do século XIX principalmente, vários países do mundo começaram a abolir de suas respectivas legislações cláusulas que tornavam a escravidão – naquele tempo a roda que movia a economia de boa parte dos Estados – legal. Em 1833 na Inglaterra, em 1865 nos Estados Unidos, em 1888 no Brasil… Abolida a escravidão, tais países tiveram que lidar com um problema ainda maior e que, para muitos, se estende até hoje: como tirar da cabeça da população branca a ideia de que o negro não é um objeto ou um ser que merece ser subjugado? Como acabar com o apartheid racial considerado mais do que normal por aqueles que precisavam do negro para conseguir manter as suas fortunas? Passado mais de um século, vemos diariamente casos de racismo persistirem até nos países em que ainda chamamos de “primeiro mundo”.

 

O cinema, sempre ligado à sua função social, acompanhou a luta pelos direitos dos negros desde o seu princípio: foi desde clássicos como A Cor Púrpura e Faça a Coisa Certa até exemplares mais recentes como Histórias Cruzadas e Fruitvale Station. Um momento importante desta luta nos Estados Unidos foi o surgimento do líder Martin Luther King, que tem em Selma – Uma Luta pela Igualdade um trecho de sua vida narrado. Após já ter ganho forte reconhecimento por seu ativismo político e até um Nobel da Paz, King (David Oyelowo) passou a batalhar pelo direito pleno de voto dos negros, uma vez que, ainda que já constasse na legislação do país, muitos registradores ainda impunham entraves a tal processo. Para dar visibilidade a sua causa após o fracasso de um primeiro contato com o então Presidente Lyndon Johnson (Tom Wilkinson), o pastor e ativista escolhe a cidade de Selma como ponto de partida de uma marcha que acabaria por mobilizar milhares de norte-americanos e por marcar a conquista definitiva daquele que é um direito fundamental de qualquer cidadão.

 

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Mais importante do que como um retrato de Martin Luther King, é importante enxergar Selma como a crônica perfeita sobre o racismo e o quão absurdo é tal “sentimento”. Todos os norte-americanos já possuíam, por lei, o direito ao voto, bastava apenas que os registradores não impedissem os negros – através de questionamentos absurdos – de conseguirem os seus registros eleitorais. É curioso que a maior preocupação da sociedade da época fosse impedir os negros de votarem quando eram amparados por governadores racistas e incompetentes e por líderes nacionais que enviavam impiedosamente soldados para uma Guerra (a do Vietnã), a qual teve como único resultado as mortes em massa para ambos os lados. Quando, desarmados (!), estas pessoas resolvem caminhar (!!) por seus direitos, são repreendidas com extrema violência (!!!) pela polícia local.

 

Nesse ponto, vale dizer que a mesma história se repete até hoje com a desproporcionalidade de força das autoridades contra as minorias, como quando são movidas desapropriações de terra ou mesmo em casos raciais, quando visivelmente os negros são selecionados e tratados de uma forma muito mais opressora por aqueles que se dizem representantes da lei. O roteiro de Paul Webb se torna ainda mais interessante ao retratar a transferência do ódio dos racistas dos indivíduos para a própria causa, uma vez que, quando o Domingo Sangrento na Ponte Edmund Pettus ganha repercussão nacional e milhares de pessoas começam a vir para Selma e se mobilizar pela causa, manifestantes que se posicionavam contra a luta pelos direitos dos negros começam a agredir até mesmo os brancos que se uniam à luta em Selma. Este tipo de retrato funciona muito bem como uma forma de exemplificar o ódio irracional que move os preconceitos raciais e sociais, já que, após certo tempo, as agressões ao próximo se tornam tão automáticas e desprovidas de sentido que o próprio agressor acaba por perder a consciência de suas ações.

 

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A direção de Ava DuVernay é segura e extremamente firme, mas não é ousada o suficiente (exceto em alguns poucos momentos, onde são usados planos mais inspirados ou um slow-motion conveniente) para conseguir diferenciar o filme de outros do gênero e desvencilhar do espectador a sensação de que já vimos exatamente o mesmo longa muitas outras vezes. Tecnicamente, a fotografia de Bradford Young e a direção de arte de Kim Jennings também contribuem com essa sensação, exceto pelas ótimas cenas que se passam na Ponte Pettus e que mostram os conflitos que lá houveram, onde o filme ganha identidade ao desenvolver toda a ação sob uma espessa cortina de fumaça branca que nos permite enxergar apenas fragmentos do que acontece e onde é feito uso de seu melhor artifício: a violência.

 

O ponto mais positivo de Selma é justamente não suavizar as agressões a que os ativistas da causa negra eram submetidos pelo Estado norte-americano, aumentando ainda mais o nosso envolvimento com a trama que se desenvolve na tela e transferindo perfeitamente ao público o senso de injustiça que permeava a luta guiada por King, por exemplo. Embora interessante, a escolha por fazer um filme mais focado na luta pelo direito ao voto dos negros em si do que na própria figura de Martin Luther King acaba por universalizar demais a obra e contribui para fazê-la cair na generalização do gênero que mencionei anteriormente. Por outro lado, Selma mostra que grandes causas não são somente o poder de suas lideranças, mas também tem seu poder no conjunto de pequenas figuras que acreditam no que lutam e que dedicam suas vidas às suas ideologias (como o próprio King sumariza numa fala). Optando por não deixar todos os holofotes em cima de King, a obra valoriza também outro de seus grandes trunfos: o precioso elenco que tem em mãos.

 

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O perfeito MLK de Oyelowo, além da grande semelhança física (e mais um pequeno empurrãozinho da equipe de Maquiagem), reproduz com maestria os cacoetes do próprio líder, principalmente na forma como o pastor conduzia os seus discursos (da religião vem justamente a poderosa oratória que King tinha). O mais curioso, entretanto, é reparar na figura de Martin Luther King um homem que era a própria encarnação de uma pessoa que possuía ideologia e que lutava por ela – algo que ele tanto admirava, inclusive -, mas que ao mesmo tempo conseguia ser extremamente cuidadoso e que fugia do radicalismo de uma forma tão clara que foi muitas vezes amplamente criticado, como no clássico episódio em que ele bate em retirada da Ponte Pettus na segunda tentativa de conduzir a marcha de Selma até Montgomery.

 

Ao mesmo tempo, fica claro que o poder de King vinha de sua autenticidade, de seus brilhantes e grandiosos discursos públicos e do próprio povo que acreditava em suas palavras, uma vez que não possuía um dom de convencimento infalível, vide suas dificuldades em lidar com algumas figuras políticas e até mesmo com os problemas familiares. No elenco coadjuvante também moram grandes destaques, em especial o veterano Tom Wilkinson, que interpreta o ex-presidente Lyndon Johnson como uma genuína figura política, em que o surgimento e o desaparecimento de ideais estão unicamente condicionados ao apoio da população, à sua popularidade e à criação de um legado futuro no imaginário popular. Oprah Winfrey também está ótima no papel de Annie Lee Cooper, ainda que fazendo mais uma vez o único papel que interpretou em sua carreira até hoje. Outras participações de luxo, dessa vez bem menores, marcam presença ao longo do filme, como as de Tim Roth, Giovanni Ribisi e Cuba Gooding Jr. (provavelmente relembrando aqui a época em que participava de bons filmes). Curioso também é a participação do ícone do FBI, J. Edgar (já biografado no cinema por Clint Eastwood) na vida de MLK, dando um perfeito gancho para a diretora Ava DuVernay conduzir o seu filme com letreiros retirados dos próprios registros do FBI quando o órgão ainda rastreava passo a passo a vida do ativista político.

 

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A trilha sonora de Selma, que vai desde músicas gospel a clássicos como Masters of War de Bob Dylan, usada para dar grandiosidade às cenas da obra, não funciona. Talvez um uso maior da trilha sonora original (mesmo esta sendo um pouco piegas) ou de músicas mais contidas causasse um efeito melhor nos momentos do filme que já são grandiosos por si próprios, evitando-os de caírem no exagero dramático. A canção original composta por John Legend e pelo rapper Common (que aqui também atua) e indicada ao Oscar, acaba se saindo muito melhor, conseguindo transmitir a força da causa narrada no filme sem soar excessivamente melodramática.

 

Por fim, se Selma pode não ser um marco do cinema ou um filme inesquecível, pelo menos é uma obra que, assim como fez 12 Anos de Escravidão no ano passado (este de uma forma muito mais incisiva), serve para nos lembrar de que a luta pela igualdade racial é uma luta atemporal. Ainda que hoje os negros tenham todos os seus direitos reservados pela Constituição, isso não os previne (nem nunca os prevenirá) de ataques preconceituosos, uma vez que sempre haverá seres humanos que se julguem capazes de menosprezar outros seres humanos, mesmo estando todos nós subordinados à mesma natureza e à mesma condição. Se nos Estados Unidos da década de 60 os negros acompanhados de Martin Luther King lutaram para conquistarem o direito ao voto, hoje se deve marchar para que se pare o genocídio negro no Brasil; para que se acabe o racismo dentro e fora dos estádios de futebol; para que as pessoas não possam mais entoar gritos de “Somos racistas” com o peito cheio de orgulho no metrô de Paris; para que políticas afirmativas sejam bem aceitas e a juventude negra não fique submissa à pobreza em países que cresceram com a escravidão e que nunca levantaram sequer um dedo para tentar corrigir a desproporcionalidade de oportunidades entre seus cidadãos; e também para muitos outros casos que trazem à tona o Homem pré-histórico que está escondido na supostamente moderna sociedade contemporânea. Como diz a letra de Glory: “Selma é agora, para cada homem, mulher e criança”.

 

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Trailer: