Indicado a 8 Oscars, incluindo nas categorias de Filme, Ator, Roteiro e Trilha, O Jogo da Imitação se assemelha muito a outro premiado filme da temporada: A Teoria de Tudo. Ambos são cinebiografias de célebres ingleses que utilizaram todo o seu conhecimento (lá na teoria física, aqui na prática matemática) em prol da humanidade. Quando analisados de perto, O Jogo também apresenta sérios problemas de narrativa, mas felizmente consegue acertar mais do que A Teoria, conseguindo driblar seus problemas e construir uma história extremamente interessante e com um ritmo veloz e agradável ao público que o assiste.

 

O biografado aqui é Alan Turing, gênio da Matemática que teve uma virada em sua vida quando passou a trabalhar, durante a Segunda Guerra Mundial, para o governo britânico, ajudando a desvendar a máquina Enigma, usada pelos alemães para coordenar os seus ataques no conflito. Paralelamente, Turing tem que lidar com desconfianças em relação ao seu trabalho, suspeitas de ser um espião soviético e – principalmente – com a problemática de sua homossexualidade, considerada crime pelo Reino Unido na época.

 

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Ajudado pela direção extremamente convencional do norueguês Morten Tyldum (que não merecia de forma alguma a indicação ao Oscar), o roteiro de Graham Moore é estruturalmente simples e transborda clichês no seu primeiro ato, que vão desde o bullying sofrido por Turing às situações de contraponto do matemático com seus colegas, passando pelo clássico momento em que a inimizade vira amizade e todos se comprometem a ajudá-lo. Felizmente, conforme o filme vai se aproximando do seu clímax, o roteiro consegue captar a necessidade de abandonar as frases prontas e a leveza para ganhar intensidade, acompanhando brilhantemente o dinamismo da ação do próprio Turing, que corre contra o relógio a fim de fazer a sua máquina funcionar e ajudar ele e a sua equipe a decifrar a Enigma.

 

A partir deste momento, ganha destaque o dilema moral que as personagens enfrentam entre salvar seus soldados na guerra e transparecer aos alemães que decifraram sua máquina ou permitir algumas mortes a fim de salvar outras a longo prazo. O melhor ponto do roteiro de O Jogo da Imitação é, entretanto, o retrato fiel que ele constitui da sua época principalmente no que diz respeito às mulheres e homossexuais, pontos debatidos de forma extremamente certeira por Moore. A Joan Clarke de Keira Knightley se constitui como um exemplo da vida limitada das mulheres da primeira metade do século XX, as quais, ainda que geniais como Clarke, acabavam sendo submetidas a uma sociedade em que os homens eram os responsáveis por praticamente toda a atividade intelectual, como mostrado na cena em que ela participa da “prova de caça-palavras” proposta por Turing ou mesmo quando começa a trabalhar com a equipe do seu parceiro matemático. Posteriormente, quando seus feitos com a Enigma já são reconhecidos (ainda que de forma restrita), ela permanece sem poder ser autônoma, sendo obrigada a se casar para permanecer trabalhando para o Reino Unido.

 

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Quando trata da homossexualidade do protagonista, o filme de Tyldum é ainda mais duro e pontual. Ainda que a princípio pareça retratar o tema de forma panfletária e meramente acessória através de flashbacks que mostram cenas da juventude de Turing, quando o matemático descobre a sua sexualidade, felizmente esses flashbacks acabam convergindo em um momento crucial da vida do protagonista, quando ele sofre a condenação que praticamente encerra a sua carreira e sua vida. É neste momento o grande furor dramático da obra, que questiona veemente – através do sofrimento e da humilhação de Alan – a forma como o governo britânico tratava os homossexuais no século passado, considerando-os, além de criminosos, doentes.

 

O peso da temática no filme é tão grande que, no mês passado, quase 60 mil britânicos assinaram uma petição exigindo que a Família Real peça perdão oficial aos mais de 50 mil homossexuais condenados a lei homofóbica que também vitimou Turing. O elenco do filme é, por assim dizer, bastante carismático, ainda que ninguém ali entregue um dos melhores trabalhos de suas carreiras, exceto por Benedict Cumberbatch, grande destaque como intérprete do protagonista. Ainda que em alguns momentos seja atrapalhado pelos clichês do roteiro e acabe tornando sua personagem um pouco caricata (especialmente na representação da introspecção e egocentrismo do matemático, aspectos que são evidenciados com mais força no problemático primeiro ato de Jogo), Cumberbatch sabe dar o peso dramático certo ao seu Alan Turing, principalmente em grandes cenas, como a que encerra o filme ou na que, logo após decifrar a Enigma, ele tem que enfrentar a fúria dos seus parceiros, os quais são contra omitir a descoberta feita. É mérito do ator também que, apesar dos diversos defeitos do protagonista – quase todos derivados de sua capacidade de se achar autossuficiente em tudo –, acabemos simpatizando com sua figura, algo que acontece essencialmente após ele começar a desenvolver afetividade pelos colegas com quem trabalha.

 

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O elenco secundário do filme também é muito carismático e transmite grande empatia ao espectador, a começar pela sempre ótima Keira Knightley, que encerra 2014 como um grande ano para a sua carreira, após o também ótimo Mesmo Se Nada Der Certo. Com atuações simpáticas, também interpretam os parceiros de Turing: Matthew Goode, Allen Leech e Matthew Beard. Destes, se destacam Beard e Goode, uma vez que Leech possui um papel que, ainda que de certa importância, não possui grandes cenas, como os seus dois colegas de elenco. Já Charles Dance e Mark Strong, como “vilões” da trama, não apresentam nada muito diferente dos outros trabalhos que já realizaram, principalmente Dance, aqui em uma interpretação muito parecida com a de seu Tywin Lannister de Game Of Thrones.

 

Tecnicamente, o filme parece tão pouco inspirado quanto o trabalho de direção. O design de produção de Maria Djurkovic e o figurino de Sammy Sheldon são boas reconstituições de época, ainda que extremamente comuns e sem qualquer diferencial de outro filme que se passe no século passado. Já a trilha de Alexandre Desplat é competente (e por vezes até atribui ao filme uma profundidade que ele não tem), mas acaba ficando pequena quando comparada a outra trilha do compositor indicada ao Oscar deste ano, a de O Grande Hotel Budapeste.

 

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Assim, O Jogo da Imitação é uma biografia eficiente, ainda que pudesse ter sido encarada com um pouco mais de seriedade e afinco por um diretor de maiores ambições do que Morten Tyldum. No entanto, o mais importante do filme acaba sendo mesmo acompanhar a vida de um dos gênios mais influentes da Humanidade, que acabou se tornando um dos principais responsáveis pela futura invenção do computador e que ainda tem a sua incrível e ao mesmo tempo triste história de vida desconhecida por muitos. Ou talvez não. Talvez o mais importante do filme seja mesmo refletir sobre as injustiças; as injustiças que acontecem diariamente, as injustiças que tomamos conhecimento e também as que jamais saberemos, as injustiças que ocorrem com os grandes gênios, mas que também ocorrem com os cidadãos comuns que nos rodeiam. Afinal, o que foi Alan Turing – homem que ajudou a derrotar o nazismo e criar a informática, porém acabou sendo “assassinado” por uma humilhante lei que condenava a sua sexualidade –, senão um grande injustiçado?

 

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Trailer: