Há realizadores no cinema que são conhecimentos por especificas características tanto na direção quando na escolha dos temas. Assim temos caras como Paul Thomas Anderson e os conflitos entre pai/filho ou aprendiz/mestre, os protagonistas fracassados e melancólicos dos irmãos Coen, a violência estilizada de Tarantino e a máfia por Scorsese, além da racionalidade de Kubrick, Fincher e Nolan. Contudo, um recente fenômeno vem dominando Hollywood deste da última década: as adaptações em quadrinhos ou, de preferência, filmes para o público nerd (ao qual me incluo). Consigo me lembrar facilmente de diretores que estão se especializando neste já estabelecido gênero como Zack Snyder (Watchmen), Joss Whedon (Os Vingadores), Edgar Wright (Scott Pilgrim), Bryan Singer (franquia X-men), entre outros. Interessante notar que entre este grupo há um realizador que definitivamente ama levar os quadrinhos para a telona e com uma capacidade incrível de fazer isso, o responsável por isto é Matthew Vaughn.

 

Seu mais recente filme, Kingsman – Serviço Secreto, é mais uma prova que ele é um dos melhores para este tipo de trabalho. No entanto, Vaughn não escolhe qualquer história, ele é levado por aventuras que lhe permite trabalhar com muitas cenas de ação que contenham uma violência “artística” e muito, mais muito humor negro. Desta vez, levará toda sua insanidade para o clássico universo de James Bond, mas sem esquecer da nova geração.

 

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Trabalhando novamente com o escritor de quadrinhos Mark Millar (não é coincidência que este filme seja tão parecido com Kick-Ass – Quebrando Tudo) e com a colaboração de Jane Goldman no roteiro, o diretor mostra que sabe o que está fazendo logo no começo quando, ao som de Dire Straits, transforma blocos de pedra em créditos iniciais, cativando o público visualmente com aquela sensação de novidade que sempre impressiona as pessoas. O plot em si não tem muito segredo, pois é a velha história de origem, em que acompanharemos o jovem problemático se tornando um novo homem, neste caso, um letal agente secreto.

 

Para quem é fã do diretor, reconhecerá vários momentos característicos do mesmo vistos em outros filmes, como o bem humorado treinamento que lembra X-Men – Primeira Classe, jovens carismáticos ou não e a marca registrada do diretor que é o protagonista encarando o espelho, ou seja, o momento de refletir quem você é e o que você quer ser a partir daquele momento. O protagonista Gary ‘Eggsy’ Unwin (Taron Egerton) se assemelha ao Dave Lizewski de Kick-Ass, que apesar de seus problemas pessoais quer provar que pode ser o herói que todos esperam dele. Até ficar em segundo plano quando um personagem mais interessante está em cena eles são parecidos, e aqui ninguém supera o Harry Hart de Colin Firth.

 

KSS_JB_D25_02636 - Harry (Colin Firth), an impeccably suave spy, helps Eggsy (Taron Egerton) turn his life around by trying out for a position with Kingsman, a top-secret independent intelligence organization.

 

Enquanto Eggsy representa um agente moderno, jovem, descolado e impulsivo, Harry Hart é o modelo clássico  com direito à todos os gadgets que o gênero pede. O guarda-chuva já está na minha lista de desejos. Para quem pensa que Firth só serve para dramas indicados ao Oscar, em Kingsman ele incorpora um homem sábio, calculista e competente na arte de eliminar o inimigo, além de ser o perfeito retrato de um cavalheiro inglês. A sequência de ação na igreja vai deixar muita gente perplexa do que aquele personagem é capaz. Filmado em um plano-sequência que, depois na montagem, é intercalado com cenas paralelas, Vaughn enfia uma estaca na cara do politicamente correto e entrega uma das melhores sequências de sua carreira, deixando Hit-Girl orgulhosa. A conclusão da sequência com o vilão Valentine (Samuel L. Jackson) é a típica cena que o diretor gosta para brincar com os clichês dos filmes de ação.

 

O grande segredo para ter um grande herói, o roteiro precisa de um grande vilão e, neste caso, um excêntrico e cativante – não muito inteligente por causa do falível plano – antagonista interpretado por Jackson na sua mais plena loucura. Valentine é um Steve Jobs distorcido que adora fast-food e é sensível em presenciar mortes (irônico, não?). Seu plano para “salvar” o planeta é uma visão mais extremista do que retratado no livro Inferno de Dan Brown. Já que a humanidade cansa de dar exemplos de auto exterminação, Valentine só quer acelerar o processo e transformar o mundo em um verdadeiro campo de batalha.

 

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O elenco ainda conta com atores como Michael Caine, Mark Hamill (aquecendo para o novo Star Wars) e Mark Strong que, repetindo a parceria com o diretor, não é mais vilão nesta oportunidade. Entretanto, quem deve impressionar mais é a bela Sofia Boutella e suas pernas com lâminas, remetendo aos clássicos letais guarda-costas dos antagonistas.  Outro ponto interessante é como Kingsman brinca com as emoções do público, variando entre o humor e a tensão de uma maneira tão próxima. A última etapa do treinamento de Eggsy é a melhor prova disso.

 

No entanto, tem horas que esta variação não funciona como depois de uma cena crucial e chocante, logo em seguida vemos uma manchete escrita: “Brad Pitt comeu meu lanche”. Sim, neste caso o diretor quebra totalmente um cena dramática por uma gag visual. Vaughn também exagera na direção. Aqui percebemos o diretor sedento por experimentar diferentes ângulos de câmera, porém muitas vezes sem objetividade nenhuma, e ainda consegue criar uma certa confusão que a sequência não pede. Por exemplo, a câmera em primeira pessoa que funcionou tão bem na sequência de resgate de Hit-Girl em Kick-Ass, agora soa gratuito. Felizmente o diretor mais acerta do que erra, e além da já citada cena da igreja – que deve gerar desconforto em muitos religiosos –, o clímax mostra como o cinema tem o poder de transformar um momento agressivo em puro espetáculo visual. A música clássica nunca será a mesma.

 

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O visual sempre é uma marca importante nos filmes de Vaughn e, neste caso, não é diferente. Para representar perfeitamente o estilo glamoroso dos espiões ingleses, a fotografia George Richmond traz ambientes claros e brilhantes, deixando até as cenas violentas mais suaves. Uma luz propícia para o figurino de Arianne Phillips destacar-se a cada segundo, reforçando aquela nostalgia clássica dos antigos filmes de espionagem. Difícil sair do cinema sem querer usar um terno.

 

Kingsman – Serviço Secreto é mais uma escolha acertada de Matthew Vaughn com os quadrinhos. O filme consegue homenagear a franquia 007 com uma linguagem moderna que aposta bastante no visual do que no conteúdo, mas que ainda assim é superior a muitos blockbusters que investem milhões para não conseguir o mesmo efeito. O público nerd agradece o diretor por ler quadrinhos e não ter medo de ser fiel em suas adaptações. E o gênero pede mais filmes como este.

 

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Trailer: