Música e cinema são, na maioria das vezes, uma grande parceria. Ao mesmo tempo que a trilha sonora é parte essencial de um filme, ajudando-o a transmitir no espectador as sensações que deseja, é possível fazer obras que apoiem sua essência em números musicais, como em filmes como Chicago e o mais recente Caminhos da Floresta, assim como clássicos como Cantando na Chuva e Mary Poppins.

 

Há também filmes que falam sobre o universo musical, entrelaçando duas linguagens que se assemelham muito ao terem o objetivo de conduzir os nossos sentimentos e sensações. A música, entretanto, baseando-se apenas na audição, ganha doses extras de subjetividade e também de uma meticulosidade necessária, pois não há outros elementos (visuais, por exemplo) para auxiliá-la. Tecnicamente meticuloso e com o principal objetivo de adentrar no universo próprio de seus dois protagonistas, Whiplash – Em Busca da Perfeição acaba se parecendo com a própria música da qual trata; e, caso tivéssemos que defini-lo em uma única música, não sei precisamente qual seria, mas com certeza seria uma música de excelente qualidade.

 

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Em seu segundo trabalho como diretor e quarto como roteirista, Damien Chzelle transporta para as telonas a história de Andrew (Miles Teller), um talentoso aspirante à baterista que é descoberto por Fletcher (J.K. Simmons), responsável pela turma de música mais cobiçada do Conservatório Shaffer. Logo Andrew também passa a fazer parte da turma, e, dessa forma, do grupo de alunos que são levados até os seus limites por Fletcher, o qual faz isso em nome de torná-los grandes músicos. Como disse anteriormente, Whiplash é um filme que trata de música, mas trata ainda mais do conflito entre duas personagens de personalidade forte e de grandes ambições. Andrew foge totalmente do estereótipo do pobre-coitado que é humilhado pelo seu orientador, uma vez que como o próprio Fletcher alega em dado momento, o jovem é a própria encarnação do egocentrismo.

 

Conforme ele cresce no Conservatório e vai ganhando cada vez mais noção do quão é bom como baterista, seu ego também vai aumentando, chegando a ponto de ele rejeitar todos ao seu redor somente para se concentrar em ser o melhor no que faz. É importante notar que, ainda que mais controlado, Andrew vai pouco a pouco entrando na atmosfera destrutiva de seu orientador, o qual institui uma metodologia que ultrapassa todo e qualquer limite físico e emocional humano.

 

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Do outro lado, Fletcher é um grande dilema. Assim como Andrew, possui um fantástico dom para a música, mas também é dotado de uma personalidade avassaladora com todos que o rodeiam e para a qual ele parece ser imune, uma vez que a única vez que o técnico cai no choro é por uma razão alheia a seu próprio comportamento, ainda que mais tarde descubramos sua parcela de culpa neste ponto. A personagem de Simmons também desperta um grande questionamento em relação aos métodos que utiliza: totalmente sem limites, o técnico não hesita em humilhar e ofender seus alunos em público, mas também, em um convincente diálogo com Andrew, deixa bem claro que sua metodologia é uma forma de tentar fazer com que seus pupilos, motivados pelas situações a que são submetidos, busquem o melhor de si mesmos e possam se tornar grandes estrelas.

 

Mas até que ponto isso é válido? Por se tratar justamente de um duelo de gigantes, o conflito entre os dois gera momentos inesquecíveis na telona. À medida que cresce a percepção de Fletcher acerca do talento de Andrew, cresce também a vontade de Andrew de se mostrar bom para Fletcher, em um duelo em que um parece querer devorar o outro e tudo que este significa – apesar de sabermos que não é isso que está em jogo -, sem que nenhum dos dois deseje ceder (Andrew até cede em certo ponto, mas logo que pode volta ao entrave). Assim, é possível dizer que, embora haja um desgaste físico e emocional crescente (principalmente por parte do jovem), os dois saem ganhando musicalmente; Fletcher por ver ascender um grande talento em sua frente e Andrew por ultrapassar suas próprias barreiras.

 

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É curioso reparar também como ambos dissolvem praticamente todos os seus elos sociais ao longo do filme. Andrew, ainda fora da turma de Fletcher, se mostra um rapaz apegado a coisas simples como ir ao cinema com o pai (Paul Reiser) e até capaz de chamar a atenção da moça que costumava apenas observar de longe (Melissa Benoist, em uma pequena, mas bela participação). Conforme ele entra no mundo competitivo e violento das aulas de Fletcher, seus já poucos elos vão se dissolvendo, como mostra na cena em que, sedento por reconhecimento, ele torna um jantar de família extremamente desagradável. Fletcher também não dá o menor sinal de ter qualquer vida social, exceto pelo momento em que demonstra afeto por uma criança, a qual convida para estudar consigo no futuro, em que, passado todo o afeto do presente momento, ele possivelmente a tratará com a truculência com que trataria qualquer outro aluno seu. Nas atuações, a briga não é tão distante. Teller, da franquia Divergente, como diz sua própria indicação ao BAFTA, é uma verdadeira estrela em ascensão (curiosamente, como sua personagem).

 

Ele começa interpretando um Andrew de ainda poucas perspectivas e ambições e aos poucos vai engradecendo sua atuação a ponto de se tornar o Andrew capaz de desafiar um dos maiores expoentes da música no ambiente acadêmico. Ainda que depois seu ego ganhe praticamente vida própria, em momento algum torcemos contra o protagonista, tanto devido a empatia que Teller consegue transferir para sua personagem quanto ao excelente roteiro assinado pelo próprio diretor, que torna inquestionável o seu talento e que mostra que Fletcher não deve ser encarado como um vilão ou inimigo de Andrew, mas apenas como um desafio a qual o baterista deve se mostrar capaz de superar.

 

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Já Simmons oferece uma atuação soberba. Preso em sua carreira a pequenos papéis que não o permitiam expressar toda a sua capacidade de interpretação, como o pai de Juno no filme homônimo de Jason Reitman (que inclusive é o produtor de Whiplash) ou o chefe de Peter Parker na trilogia Homem-Aranha de Sam Raimi, o ator parece ter despontado de vez no papel de Fletcher, pelo qual já recebeu 30 indicações a prêmios e, dessas 30, já conseguiu a vitória em 20 até o presente momento. Simmons traz uma personagem extremamente dinâmica e firme em tudo que faz, ao mesmo tempo que, quando acreditamos já a conhecer completamente, é capaz de nos enganar e apresentar uma faceta totalmente diferente da qual já conhecíamos, surpreendendo cada vez mais com suas atitudes.

 

Vale destacar a maravilhosa cena final do filme, em que tanto Teller quanto Simmons dão o seu melhor e encerram a obra com chave de ouro. Ainda que com um excelente roteiro e fantásticas atuações, Whiplash tem boa parte de sua força na direção de Chazelle. Moderna e que aposta no uso de diversos recursos pouco usuais para dar agilidade ao filme, o diretor consegue fazer com que os 107 minutos de longa passem rapidamente pelos nossos olhos e que achemos pouco ainda. O filme também funciona em grande parte pela edição de Tom Cross, o qual opta por cortes rápidos para focar pequenos detalhes das cenas (principalmente as musicais), de forma assim a retratar de forma fiel o frenesi que se torna o mundo de Andrew após Fletcher entrar em sua vida, especialmente em momentos em que é submetido a uma grande tensão. Destaque também para a fotografia de Sharone Meir, que ajuda a nos transportar para o ambiente de competição e pressão que cerca os dois turbulentos protagonistas do longa.

 

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Por fim, acompanhar o sucesso de uma produção de baixo orçamento e de tamanha qualidade como Whiplash é de encher o coração de qualquer um que admire o cinema e que tenha acompanhado os blockbusters abocanhando pequenas produções em um cinema que tem se tornado mais e mais comercial. Como a música, o cinema aqui é tratado como uma experiência; uma experiência em que não é só um fator ou outro que dá certo, mas em que todos convergem para completar o incrível significado que possui este filme. Nossos parabéns a Chazelle e nossas expectativas de que muitos filmes como este possam pintar nas telonas nesse 2015 que mal começou e já nos traz ótimas surpresas.

 

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Trailer: