AliceCom os avanços da indústria farmacêutica e uma quantidade cada vez maior de best-sellers que tratam do assunto, é inegável que, por ano, inúmeros filmes sobre doenças como o câncer sejam lançados. No entanto, o Alzheimer, uma das mais patologias mais devastadoras da atualidade, ainda é pouco retratado na telona, o que deve mudar com o lançamento de Para Sempre Alice, o qual, além de tocar no assunto, o faz de maneira séria e comprometida, sem pieguices.

 

Na trama, Alice (Julianne Moore) é uma brilhante professora universitária que começa a ter desde simples lapsos de memória até grandes esquecimentos, o que faz com que procure um neurologista, o qual a diagnostica com um tipo genético de Alzheimer. Conforme o tempo passa, a doença vai se agravando e Alice tem de lidar não apenas com ela, mas também com a dor de ver toda a sua capacidade intelectual ser substituída por suas crises de memória que chegam a impossibilitar o reconhecimento de sua própria filha.

 

O grande destaque do filme é a inquestionável qualidade da atuação de Julianne Moore, indicada a Melhor Atriz no Globo de Ouro e forte candidata ao Oscar por retratar de uma maneira dura e sensível a triste transformação a que sua personagem é submetida pela doença com a qual é obrigada a conviver. Kristen Stewart também está ótima como a filha Lydia, apresentado grande química contracenando com Julianne, o que não acontece com Alec Baldwin, que parece sempre estar na iminência de se revelar o canalha que interpretou em Blue Jasmine.

 

O roteiro do filme também sofre alguns tropeços, como ao não explorar inúmeras possibilidades narrativas (como a questão do tipo genético de Alzheimer que Alice transmite para uma de suas filhas, questão tratada de forma rápida e superficial), mas possui o grande mérito de construir uma trama séria, que busca realmente mostrar o drama da doença e não apenas fazer seus espectadores chorarem.

 

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Juiz Os filmes de tribunal se tornaram praticamente um subgênero de Hollywood; um subgênero quase irresistível, aliás. Desde a retratação de grandes casos até pequenas causas, é sempre de prender o nosso olhar acompanhar como os maiores advogados e juízes da telona tem a capacidade de defender ou acusar até os casos mais improváveis.

 

O Juiz, estrelado por Robert Duvall e Robert Downey Jr. nos papeis de pai e filho, ao contrário da maioria dos filmes do tipo, não tem seu foco sobre a causa de que trata, mas sim sobre as circunstâncias em que ela acontece. No filme, o juiz Joseph Palmer (Duvall) e o advogado Hank Palmer (Downey Jr.) possuem um péssimo relacionamento, o que deve mudar quando o juiz é acusado de assassinato e o único que se mostra capaz de defendê-lo é o próprio filho.

 

O caso se torna mais complicado pelo fato de Hank descobrir que seu pai é vítima de uma doença que impede que ele se lembre se realmente cometeu o crime ou não. Ainda que tratando de uma história central extremamente interessante e impondo um dos melhores dilemas morais de filmes de tribunal através do crime cometido pelo Juiz Palmer, o roteiro assinado por Nick Schenck e Bill Dubuque tenta impor ao filme alívios cômicos que não combinam com a atmosfera séria do julgamento que está para ocorrer e das tênues relações familiares, além de propor subtramas totalmente aleatórias e que em nada contribuem para o desenvolvimento da trama principal (o relacionamento de Hank com a personagem de Vera Farmiga? A suposta filha dos dois?).

 

No entanto, o incansável Duvall parece roubar todas as atenções para si ao apresentar um juiz que faz com que não saibamos se o odiamos ou o adoramos, ao passo que Downey Jr. também apresenta uma atuação firme e segura nos momentos mais dramáticos, ainda que o roteiro tente impor várias vezes que o ator faça em seu Hank (mais) uma releitura do herói Tony Stark.

 

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Ceu A maioria das animações comerciais, principalmente as tidas como animações blockbusters, busca sempre representar o ponto de vista norte-americano do mundo, o que acaba muito por prejudicar a educação cultural das crianças que acompanham o cinema infantil.

 

Em Festa no Céu, ainda que seja produzido pela Fox com um orçamento razoável, a direção do mexicano Jorge R. Gutierrez e a produção de Guillermo del Toro faz com a que a visão apresentada seja muito diferente da que estamos acostumados a ver, nos transportando para o mundo latino, mais especialmente para o universo do México.

 

A animação tem como plano de fundo o Dia dos Mortos, quando duas entidades metafísicas, La Muerte e Xibalba, resolvem apostar – observando o mundo dos vivos, claro – quem conquistará o coração da pequena Maria, disputada por Manolo e Joaquin, de personalidades totalmente diferentes. A aposta dos dois faz com que acompanhemos então o desenvolvimento do triângulo amoroso com o passar dos anos. Apenas apresentar a cultura mexicana em um filme tecnicamente comercial já é um trunfo do roteiro do próprio Gutierrez e de Douglas Langdale, uma vez que o tema trata de questões normalmente muito complicadas para lidar com crianças, como por exemplo a morte.

 

Estigmatizada como algo a ser lamentado pela cultura ocidental de massa, em Festa no Céu a morte tem significado festivo e é visto como o início de uma nova etapa e a possibilidade de reencontrar pessoas amadas que já se foram. Além disso, a trama apresenta diversas surpresas que ajudam a dinamizar a forma como a história ser contada, apesar de perder um pouquinho de seu ritmo no final. Dessa forma, a animação mostra que não é só de longas sequências de ação que deve ser feito o cinema infantil, uma vez que questões complicadas – como a morte, o papel da mulher na sociedade e um leve apelo a favor do vegetarianismo e contra as touradas, todos aqui presentes – também pode ser abordadas e interessar e muito a criançada.

 

04-otimo


Box A produtora Laika Entertainment ficou conhecida no mundo cinematográfico pelas animações ParaNorman, Coraline e o Mundo Secreto e A Noiva Cadáver, as quais apresentam o mesmo padrão: muito bem roteirizadas, ficaram marcadas pelo clima sombrio de seus roteiros.

 

No caso de Os Boxtrolls, pela primeira vez a produtora aposta em um desenho que não usa da obscuridade à la Tim Burton como enfoque principal, mas que também não deixa de lado a originalidade e criatividade de seus filmes anteriores. Na animação, a pequena Winnie mora em uma cidade onde a principal preocupação das autoridades – incluindo seu pai, autoridade máxima – é com queijos e com a matança de boxtrolls, pequenos seres acusados de serem sequestradores e comedores de criancinhas. Quando, no entanto, ela faz amizade com Ovo, um menino que aparentemente teria sido uma vítima dos boxtrolls, descobre que a versão que todos conhecem sobre os seres não está correta e que ela deve vir à tona a tempo dos boxtrolls não serem todos exterminados.

 

Utilizando de um humor afiado e extremamente eficiente principalmente através dos dois protagonistas, o filme merece parabéns por seu ótimo roteiro assinado por Irena Brignull e Adam Pava, que não depende de sequências de ação para se manter e sim da criatividade que usa da primeira a última cena. Além disso, são muito bem-vindas as críticas à ganância, ambição e ineficiência da aristocracia e também àqueles que fingem ser o que não são, ambas aqui tratadas com muita transparência e objetividade. Vida longa a Laika!

 

04-otimo


Ida Como disse quando escrevi sobre 12 Anos de Escravidão, uma das principais funções do cinema é tocar em assuntos delicados, forçando uma reflexão e revisão de conceito sobre eles. No entanto, quando se tem esse objetivo, é necessário atentar não somente para a mensagem que está sendo transmitida, mas também através da linguagem usada para transmiti-la. Ida, favorito ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, é o exemplo mais claro disso.

 

Na trama, Anna (Agata Trzebuchowska) é uma jovem freira que abandona sua vida no convento ao descobrir através de sua tia Wanda (Agata Kulesza) que é judia. A partir daí, as duas iniciam uma viagem pela Polônia para descobrir o segredo por trás da morte dos pais de Anna, possivelmente relacionada ao Holocausto. Ida tem dois pontos fortíssimos: o tema e seus aspectos técnicos.

 

O filme foge da batalha “alemães X judeus” nos campos de guerra e de concentração, optando por tratar das consequências futuras para aqueles que perderam seus familiares na Segunda Guerra e, junto a eles, parte da sua história, de seu passado. O preto-e-branco da fotografia de Ryszard Lenczewski e Lukasz Zal ajuda a aprofundar a tristeza e ao mesmo tempo a força intrínseca não só às duas protagonistas, mas também a uma Polônia que ainda não havia curado todas as cicatrizes do conflito ocorrido menos de duas décadas antes.

 

É apenas de se lamentar que o roteiro assinado pelo próprio diretor Pawel Pawlikowski (junto a Rebecca Lenkiewicz) acabe se perdendo, principalmente conforme se aproxima do final, na forma da mensagem e se esquecendo da mensagem em si que está transmitindo, resultando em uma obra irregular e que perde muito de seu ritmo em diversos momentos, o que é uma pena para aquela que podia ser uma das melhores retratações do Holocausto no cinema contemporâneo.

 

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Tange Curiosamente, uma produção que disputa com Ida o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro tem muito em comum com ela: também trata de uma guerra, mas opta por um ponto de vista mais humanista e intimista. Aqui, o cenário, o conflito e a data mudam, mas a obra também acompanha o ponto de vista dos seres humanos acerca da desumanidade que os cerca.

 

Na produção de Estônia, Ivo (Lembit Ulfsak) é um senhor que está muito preocupado com a sua plantação de tangerinas conforme a Guerra da Abcásia se aproxima. No entanto, de forma inesperada, dois grupos de inimigos se cruzam frente a sua casa e apenas dois indivíduos sobrevivem, estando os dois em lados opostos da Guerra. Ivo então abriga os dois em sua casa para ajudá-los a se recuperar, ainda que imaginando o problema que terá quando os dois recuperarem a consciência e se encararem frente a frente.

 

Tendo tido pouca atenção nos festivais e nas grandes premiações, Tangerines é uma maravilhosa surpresa. O genial roteiro de Zaza Urushadze critica de forma sutil, sensível e bela a tentativa das guerras de imporem aos sentimentos humanos motivações ideológicas como objetivos de vida, todas muito mal sucedidas, por sinal. Por meio de Ivo e dos dois soldados, o filme mostra que guerra nenhuma é capaz de tirar o lado humano do homem, até porque somos seres dotados de compaixão e que só conseguem viver nos relacionando socialmente. Com momentos surpreendentes e um final comovente, essa obra pode ser considerada verdadeiramente uma lição de vida.

 

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