Antes muito recorrentes nas sessões de cinema, os filmes de guerra, que tiveram uma sobrevida no final dos anos 90, parecem ensaiar uma volta às telonas, agora não apenas abordando o que acontece nos campos de batalha, mas principalmente os bastidores destes. Em O Grande Hotel Budapeste de Wes Anderson, o período Entre Guerras é o plano de fundo para a excêntrica história de um hotel; O Jogo da Imitação, vencedor do Festival de Toronto, narra a genialidade de Alan Turing na Inteligência Britânica durante a Segunda Guerra Mundial, a qual também é retratada no excelente Corações de Ferro, em que um tanque norte-americano atravessa a Alemanha para caçar os soldados do país; no polonês Ida, forte candidato ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, a Segunda Guerra também é o motivo para o encontro de uma freira com sua tia, em que as duas buscam desenterrar o passado da família, manchado pela guerra; não pode-se esquecer, claro, do maravilhoso Tangerines, em que a Guerra da Abecásia serviu como elo para a amizade entre dois inimigos.

 

No entanto, o gênero não é unânime. Se O Resgate do Soldado Ryan e Além da Linha Vermelha foram consagrados pela humanização e pelos dilemas morais que conseguem inserir em meio a batalhas sangrentas, Cavalo de Guerra e Falcão Negro em Perigo foram filmes em que a linha narrativa dividiu opiniões. Dessa forma, a escolha de Angelina Jolie ao filmar o seu Invencível pode se considerar, de uma certa forma, até inteligente. Ainda que pudesse investir todo o seu foco na luta e nos abusos sofridos pelo protagonista após seu avião cair no Oceano Pacífico e ser resgatado pelos japoneses, a diretora opta por construir um “filme de superação” e manter a Guerra como um plano de fundo para o drama principal, como a maioria dos filmes que mencionei anteriormente. Essa decisão, extremamente comercial, torna o filme mais acessível ao público, mas também muito mais vulnerável a se tornar um dramalhão lotado de pieguices.

 

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E foi cercado de dúvidas que estreou o segundo longa da atriz na direção, o qual adapta a história real de Louis Zamperini, atleta olímpico que teve a sua carreira interrompida pela Segunda Guerra Mundial, quando, como soldado, viu o avião no qual estava cair no Oceano Pacífico e o deixar à deriva por 47 dias junto a dois companheiros de luta. No final deste período, ele e o colega sobrevivente (aqui interpretado pelo ótimo Domhnall Gleeson, de Questão de Tempo) são resgatados pelos japoneses, pertencentes ao Eixo combatido pelos Aliados, dos quais faziam parte os norte-americanos. Um dos maiores receios que tinha em relação a Invencível era justamente o de Jolie pesar a mão na emoção e construir um filme com pouca densidade ou intensidade, pesando para o drama gratuito.

 

Para minha surpresa, a diretora consegue ser moderada, na maior parte do tempo, no uso de técnicas narrativas para ajudar a construir o drama e até mesmo de truques conhecidos de filmes do tipo, como a trilha sonora excessivamente dramática que guia a obra toda ou o uso recorrente do slow-motion. No entanto, conforme o filme se aproxima do seu final, todos os clichês são extrapolados: a trilha vem com força toda, há sequências grandiosas, justiça, salvação, confraternização, reencontro… É impossível deixar de notar, neste ponto da trama, o quão plastificado e exagerado é tudo que aparece na tela, causando um distanciamento imediato da história que acompanhamos por pouco mais de duas horas, além da falta de densidade e intensidade que mencionei no início do parágrafo. Vale destacar também os créditos finais, que parecem querer escancarar todos esses problemas aqui apontados.

 

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Além disso, é infelizmente muito difícil se envolver com a trama e até mesmo com o seu protagonista, o que é algo até conflituoso se pensarmos que se trata de uma história extremamente interessante. É até agradável de se acompanhar a ação do filme, mas é como se a acompanhássemos por tabela, sem realmente termos criado algum tipo de envolvimento com Zamperini e sua saga de sobrevivência ou até mesmo do seu conflito com o vilão Watanabe (Takamasa Ishihara), ao contrário do que acontece em grandes filmes como Nascido para Matar e Whiplash. Entretanto, colocar todos os problemas do filme na conta de Jolie é covardia, uma vez que aqui contamos com um problemático roteiro – pasmem – dos irmãos Coen, vencedores do Oscar duas vezes e por dois clássicos do cinema contemporâneo, Fargo e Onde Os Fracos Não Tem Vez, além de terem sido indicados por outros 3 ótimos filmes, Bravura Indômita, Um Homem Sério e Ei Irmão, Cadê Você?.

 

Aqui os irmãos parecem ter abandonado todo o talento e originalidade em casa e apresentam um roteiro lotado de frases prontas e de efeito, as quais entram em prática principalmente no primeiro e no último ato do filme. Claro que há bons momentos, quando, por exemplo, o protagonista está à deriva e dialoga sobre as pequenas coisas da vida com seus companheiros. É lamentável que um momento como esse, em que finalmente percebemos os Coen como roteiristas, seja raro no filme e que na maior parte do tempo tenhamos que ficar ouvindo frases que sabemos que jamais teriam saído da boca das personagens na vida real e que só estão ali para carregar ainda mais o filme emocionalmente.

 

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O protagonista Jack O’Connell faz o possível na interpretação do atleta Louis Zamperini, dando o seu melhor, mas mais uma vez prejudicado pelo fraco roteiro e direção a qual está submetido. É perceptível através de O’Connell, principalmente por meio da sequência inicial e de quando a ação se passa no Oceano, que Zamperini era um amigo leal e também um combatente resistente, que usava a descontração como arma, mas que também sabia ser extremamente duro e persistente. Essa sua outra faceta fica mais clara quando ele é aprisionado pelos japoneses, mas ainda sim se mantém fiel ao seu país até o último minuto, ainda que passe por momentos de descontrole emocional e fúria, como na ótima cena em que esbraveja na sua “cela”.

 

No entanto, sua atuação só não é ainda maior pela falta de situações e falas melhores para sua personagem, que tiram a força desta e mostram que, realmente, Jack carrega praticamente o filme nas costas. Se há muitos elogios a serem feitos para O’Connell, o mesmo não se pode dizer para Takamasa, conhecido como Miyavi e intérprete do vilão Watanabe. Sua atuação é a mais caricata do filme e uma das mais exageradas do gênero em muito tempo. Não é possível nem sequer ter raiva de sua personagem, pois não é possível levá-la a sério, uma vez que Miyavi constrói um vilão que se assemelha muito aos de desenhos animados, os quais buscam dominar o mundo e passam toda a projeção fazendo caras e bocas para demonstrar o quanto são maus. Como na maioria das cenas Miyavi contracena com O’Connell, fica ainda mais notável o abismo entre as atuações dos dois. É curioso que, em dado momento, Watanabe se ausenta do longa, mas logo depois retorna, sendo recebido com um olhar de desagrado de Zamperini. Contudo, maior ainda é o nosso desagrado com o retorno do vilão, pois sabemos que teremos que aguentar sua péssima atuação por mais tempo.

 

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Invencível, entretanto, é tecnicamente muito bem produzido, ainda que use pouco os bons recursos que tem em mão. Por exemplo, há um ótimo trabalho de Roger Deakins na fotografia do longa, mas esse aspecto só ganha destaque nas cenas que antecedem a captura de Zamperini pelos japoneses, ainda que sem muitos takes inspirados da diretora Angelina Jolie, a qual poderia ter aproveitado muito mais o belo trabalho de Deakins. O mesmo se pode dizer do perfeito trabalho de edição e mixagem de som, porém que também só é praticamente usado com destaque na sequência inicial e no momento da queda do avião dos soldados norte-americanos. A música Miracles, composta pela banda Coldplay para o filme, também é muito boa, ainda que faça parte do pacote de Invencível para impulsionar o espectador para a história de superação (e para a mensagem religiosa proposta nos créditos). O único aspecto técnico que até destoa dos outros pela falta de qualidade é a edição de William Goldenberg e Tim Squyres, que usa em vários momentos o método de transição para as passagens de cena, algo pouco comum em blockbusters e que costuma funcionar somente para filmes de ritmo mais lento, caso contrário quebra toda a dinamicidade da obra, como acontece aqui.

 

Muito problemático, mas com o auxílio de alguns poucos bons momentos e da ótima atuação de O’Connell, Invencível se torna um filme assistível desde que estejamos cientes de todos os seus erros e prontos para perdoá-los em nome da boa história que ali está sendo contada. É muita pretensão de Jolie querer, já com este filme, conseguir sua indicação ao Oscar, uma vez que os maiores erros do filme ainda acontecem devido à forma errônea e exagerada que ela o guia. Ao mesmo tempo, sua direção não é uma catástrofe total e, com uma boa autocrítica e com a diretora abrindo mão de recursos baratos para comover o seu público, pode vir a realizar grandes trabalhos no futuro, como os que citei no início da crítica. Ela precisará também ler com mais atenção os roteiros que dirige a fim de evitar clichês como o deste seu segundo longa. Neste ponto, contudo, é importante dizer: irmãos Coen, nós perdoamos vocês.

 

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Trailer: