2014 foi o ano da Bíblia ser transportada para a telona na mão de grandes diretores. Depois do desastrado Noé de Darren Aronofsky, foi a vez de Ridley Scott filmar sua versão da história de Moisés com seu Êxodo – Deus e Reis, que chegou aos cinemas brasileiros no final de dezembro. Scott, o qual se consagrou na ficção científica, também ficou muito conhecido por seus épicos, como 1492 – A Conquista Do Paraíso e Gladiador, ainda que suas tentativas relativamente recentes no gênero, com Cruzada e Robin Hood, tenham sido um tanto quanto mal sucedidas. Nessa mais nova superprodução, o diretor finalmente tem a chance tanto de recuperar seus antigos fãs quanto de conquistar novos. Chance essa, ainda que não sendo totalmente aproveitada, mostra que aos poucos Ridley está recuperando seu antigo fôlego.

 

Adaptado da passagem bíblica, Êxodo começa com Moisés (Christian Bale), ainda vivendo com Ramsés (Joel Edgerton) e a família real egípcia, sem saber que era hebreu, povo que, naquele momento, vivia como escravo nas terras do Faraó que Moisés concebia como um pai. Ao descobrir a verdade e provocar a fúria de Ramsés, Moisés inicia uma jornada para libertar o seu povo da terrível dominação a que eram submetidos nas mãos daqueles que por muito tempo ele considerou sua família.

 

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O roteiro assinado por Adam Cooper, Bill Collage, Jeffrey Caine e Steven Zaillan (vale destacar aqui a estranha necessidade de precisar de 4 roteiristas para escrever um roteiro adaptado) traz uma visão muito diferente das que costumamos acompanhar nas adaptações bíblicas: aqui não têm-se somente a visão metafísica de Moisés sendo guiado por Deus para a libertação de seu povo, mas têm-se também uma visão racional, em que Moisés seria um líder nato, ainda que muitas vezes suas decisões tenham sido condenadas pela ousadia ou pelas suspeitas de sua própria insanidade. Dessa forma, temos uma explicação bastante crível para as pragas que assolam o Egito e até para a suposta “abertura” do Mar Vermelho, representada aqui de maneira pouco usual em uma cena belíssima.

 

O ponto de vista bíblico do filme também não fica atrás, surpreendo com a representação cruel (mas, vale ressaltar, ao pé da letra) do trecho do Antigo Testamento. Se para muitos o Deus de Noé foi considerado um terrível tirano, o de Êxodo é sem dúvida muito pior. Representado por meio de uma criança de voz austera e totalmente ciente do poder das pragas que lança sob o povo egípcio, Deus esbanja autoridade e arbitrariedade, ainda que em nome da justiça pelo povo hebreu (algo que chega a ser questionado por Moisés em dado momento do longa). É impossível deixar de reparar também na excelência das cenas que marcam o encontro de Moisés com seu guia espiritual (principalmente a primeira), assim como todas as sequências das pragas, guiadas pela sempre ótima mão de Ridley Scott para cenas grandiosas.

 

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Além disso, há uma pequena criticidade presente em certos pontos do roteiro, principalmente no que diz respeito à dominação e escravização dos hebreus e, posteriormente, às terras das quais eles se apropriarão. Esse tipo de crítica também é muito pouco comum em filmes do gênero, especialmente quando são objetivas como as feitas aqui, ainda que breves e extremamente pontuais.

 

Entretanto, o roteiro certeiro de Êxodo ainda não é o seu melhor, o qual está todo concentrado na atuação de Christian Bale como o protagonista do filme. Que Bale é um excelente ator e que seleciona muito bem os seus papéis todos sabemos, mas, em meio a inúmeras atuações e escalações equivocadas, o astro se torna facilmente o centro das atenções e uma estrela ainda maior do que sua personagem já propunha. Seu Moisés desde o começo já apresenta tendências para a liderança, mesmo quando ainda subordinado à megalomania da família real egípcia (embora pareça alheio a ela e possuidor de um senso de justiça que seus membros desconhecem). Mais tarde, quando já se reconhece como um hebreu, se torna um misto de compaixão e fúria, sem jamais pender para nenhum dos dois lados, o que fortalece ainda mais a poderosa atuação de Bale.

 

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Curiosamente, se uma atuação pode ser considerada o melhor do épico bíblico, a direção de elenco pode ser considerada também o seu pior, pois é onde Scott comete seus maiores erros, os quais são também inaceitáveis para aquele que já foi considerado um dos maiores diretores de Hollywood. Aqui há dois lados: os erros de escalação e os erros na direção de atuação. O que justifica a escolha do cada vez pior e mais caricato John Torturro como o Faraó Seti? E por que escalar a grande Sigourney Weaver para aparecer em um número ínfimo de cenas com um número ainda mais insignificante de falas? E se falei em caricatura na atuação de Torturro, neste filme elas estão aos montes, tudo devido à tentativa desastrosa de inserção de comicidade em algumas personagens, como o Vice-Rei egípcio (que pode ser classificado em apenas uma palavra: exagero).

 

Além disso, é impossível deixar de mencionar o Ramsés de Joel Edgerton, que encontra muita dificuldade em encontrar o tom exato de sua personagem, oscilando entre a seriedade e a excentricidade que contagia quase todo o elenco de Êxodo. Dessa forma, Edgerton acaba sendo engolido por Bale em praticamente todas as cenas em que os dois contracenam, o que é uma pena, visto que deste o início o filme se propõe a dar um enfoque na briga e na diferença entre os dois irmãos, o que não acaba acontecendo justamente devido à falta de profundidade em Ramsés.

 

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Com Edgerton deslocado, a única atuação que consegue fazer alguma frente à de Bale é a de Ben Kingsley, que aqui – e lá vem mais um problema – aparece desperdiçado em um papel que a princípio sugere que terá algum destaque, mas que depois quase some no restante do longa. Kingsley interpreta Nun, uma importante voz em meio aos hebreus e é justamente o escravo que revela a Moisés quem ele realmente é, assim permitindo que se inicie a saga para a libertação do povo hebraico. Com tantos erros, é justo realçar algo que Scott acerta e muito: no visual, como era de se esperar.

 

Desde a primeira cena, Êxodo inicia um espetáculo e deslumbre visual que só termina com os créditos finais, marcado tanto pela riqueza de detalhes do design de produção de Arthur Max, que reproduz com perfeição o Egito Antigo, até a destacada maquiagem e caracterização das personagens, assinada por Janty Yates. Além disso, Ridley presenteia o público com incríveis sequências tanto de batalhas quanto de momentos clássicos, como o das pragas que assolam o Egito, nas quais o diretor tenta a todo custo dar uma dose extra de realismo, seja através da violência ou de incitar o nojo no público, sendo muito bem sucedido.

 

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Assim, pode-se dizer que o mais novo trabalho do diretor de Alien – O Oitavo Passageiro e Blade Runner é quase tão extremo quanto a sua própria carreira: acerta muito em alguns pontos (narrando de forma exemplar a trama e trazendo toques de criatividade e inovação a passagens já consideradas ultrapassadas por muitos) e erra muito em outros (parece não haver preocupação nenhuma com o elenco, resultando em um desastre quase total – cóf cóf Bale – nesse aspecto).

 

No entanto, uma boa notícia: comparado a suas últimas produções e até com as produções mais recentes do gênero (e aqui incluo Noé), Ridley Scott parece estar começando a recuperar sua humildade e aprender com os erros afim de voltar a ser o visionário de outrora. E afinal, quem não gostaria de ver o diretor de alguns dos maiores clássicos do cinema de volta à boa forma?

 

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Trailer: