Thomson inconscientemente criou um novo gênero que só pode ser descrito como super-realismo. Sangue foi jorrado nos atores e plateia, literalmente. Sangue de verdade. Sangue que tem feito falta aos teatros dos Estados Unidos”. A fala acima é dita pela ex-mulher do ex-astro do cinema Riggan Thomson já nos momentos finais de Birdman. É curioso que o “super-realismo” inventado por Thomson (e noticiado pelos jornais de Nova York) seja também o gênero que melhor define um filme em que o protagonista é um antigo intérprete de um super-herói de sucesso e que vive com a voz deste herói, um enorme homem-pássaro, em sua cabeça, atormentando-o e funcionando como uma forma deturpada de sua consciência.

 

No entanto, o realismo do mais novo filme de Alejandro González Iñárritu não reside somente nos conflitos internos de Thomson, mas sim de todas as personagens encantadoras que a obra nos apresenta ao longo de suas duas horas e do universo que rodeia essas pessoas. Aqui todos os estereótipos são abandonados e passamos a acompanhar um grupo de teatro em que cada membro possui suas peculiaridades, seus próprios questionamentos e uma sedenta vontade de deixar sua marca no mundo.

 

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Mesmo tratando do teatro em quase toda sua totalidade, o cinema aqui também nutre boa parte do foco, uma vez que é o ponto de partida para o auge da carreira do protagonista interpretado por Michael Keaton. E mais uma vez uma fala do filme parece resumir os sentimentos daqueles que acompanham diariamente o mundo cinematográfico e, mais precisamente, Hollywood: “É disso que estou falando. Armas pesadas, tanques, mísseis. Olhe para eles, para os olhos deles… Eles estão brilhando. Eles amam sangue, amam ação. Nada dessa conversa depressiva e filosófica”. Ouvimos a fala acima da boca do próprio Homem-Pássaro enquanto ele tenta convencer seu intérprete a retornar para a trilogia milionária que rendeu milhões de dólares na década de 90 e deu fama a Thomson.

 

O mais triste é constatar que o que diz o fictício personagem da franquia não passa de mais uma lamentável realidade do mundo do cinema, a qual tem se agravado cada vez mais. Vemos os blockbusters de ação invadirem as salas de cinema, mutilando estreias de filmes independentes ou até de produções menores de outros gêneros e de grande qualidade. Esses blockbusters levam milhões de pessoas ao cinema e são verdadeiras máquinas de fazer dinheiro, que no fundo é o que realmente importa para os grandes estúdios e distribuidoras. Mas e o “sangue de verdade”? Como fica a qualidade do cinema em detrimento dos números de bilheteria? Felizmente, de tempos em tempos, parecemos nos deparar com uma obra de incontestável qualidade e que valoriza o cinema de verdade, além de proporcionar um verdadeiro surto criativo ao seu público, como acontece quando assistimos Birdman.

 

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No filme, Thomson tenta emplacar uma peça de teatro na Broadway quase duas décadas depois de ter encerrado a trilogia Birdman e, com ela, o próprio sucesso de sua carreira. No entanto, quando um dos principais atores do elenco sofre um acidente durante o ensaio, tudo que vinha dando certo para o ator parece entrar em colapso. Os problemas ao lidar com os outros atores e com a filha vão aumentando cada vez mais, assim como a incômoda voz que parece querer levar o já conturbado artista para um caminho ainda pior. O roteiro do próprio Iñárritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris e Armando Bo é uma divertida brincadeira metalinguística. Com um humor leve e ao mesmo tempo extremamente afiado, o filme brinca com os bastidores da sétima arte ao apresentar um ator que já fez grande sucesso e que enxerga no teatro a salvação para sua carreira, ainda que continue sendo perturbado pelos fantasmas de quando era um ator de êxito no cinema.

 

Ao mesmo tempo, somos apresentados a personagens sem qualquer expectativa de sucesso e que, diferentemente de Thomson, acreditam que a conturbada adaptação conduzida pelo ex-astro de ação será a alavancada de suas carreiras. Dessa forma, não rimos exatamente das piadas proporcionadas pelo elenco, mas sim da natureza trágica a que todos são submetidos e da forma com que eles lidam com ela. E é curioso reparar como até a personagem aparentemente mais sucedida consigo mesma, o Mike de Edward Norton, parece desmoronar com facilidade ao menor sinal de que não possui o sucesso que acredita possuir.

 

Emma Stone as “Sam” and Edward Norton as “Mike” in BIRDMAN. Photo by Alison Rosa. Copyright © 2014 Twentieth Century Fox.

 

Sobra tempo para brincar também com a vida da Arte em tempos em que há uma massificação da mídia. Se nos dourados anos 90 da trilogia Birdman o máximo que se precisava era entreter o público que comprava os ingressos para o filme, hoje em dia Thomson tem que enfrentar também a rápida capacidade de disseminação de informações nas redes sociais, a qual pode tanto trazer os holofotes para determinada pessoa quanto denegrir sua própria imagem através de uma maior facilidade de acesso a críticas, por exemplo. E como todo ator que busca retornar ao estrelato, é impossível ignorar tal situação e o protagonista acaba experimentando ambas as possibilidades, completando ainda mais a experiência agridoce que marca a sua vida. A inserção de todos estes elementos cada vez mais presentes no mundo contemporâneo torna o filme ainda mais realista, ainda que do tipo de realismo que muitas vezes acaba se escondendo por trás de excelentes alegorias, como na cena em que Thomson, iludido com a possibilidade de fazer o sucesso de outrora, consegue voar como o próprio Birdman.

 

O trabalho de Iñárritu na direção também é – de longe – o melhor de sua carreira. Com uma filmografia bastante irregular, composta tanto por filmes de qualidade inquestionável (como Amores Brutos e 21 Gramas) quanto por outros que já causaram opiniões das mais diversas (Babel e Biutiful, ainda que eu goste dos dois), o diretor mostra aqui que não tem medo nenhum de inovar e apostar na linguagem cinematográfica. A filmagem de mais da metade do filme em plano-sequência ajuda a nos fazer sentir como se estivéssemos realmente assistindo aos bastidores de uma peça de teatro, com o adendo de toda a pressão, emoção e nervosismo dos dias que antecedem a estreia e que aqui invadem as personagens, que ainda tem como agravante o estado de caos que a peça de Thomson parece estar sempre prestes a entrar. Entretanto, como a direção de um filme nunca é capaz de levá-lo nas costas sozinha, Iñárritu conta aqui com um elenco de primeira, que vai desde atores que não estão mais no ápice do seu sucesso, como Keaton e Norton, até revelações dos últimos tempos, como Emma Stone.

 

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O caso de Keaton, entretanto, é especial. Como já foi amplamente divulgado, o ator que já interpretou Batman nas telonas tem muito a ver com o protagonista Riggan Thomson. Keaton, que vinha do sucesso de Tim Burton, Os Fantasmas Se Divertem, acabou conseguindo o papel de Bruce Wayne nos dois primeiros filmes dos quatro que viriam, assinados pelo próprio Burton. O sucesso foi estrondoso, os dois Batman arrecadaram juntos mais de 400 milhões de dólares nos Estados Unidos, Burton inaugurou a abordagem sombria dos super-heróis no cinema e o ator viveu o grande momento de sua carreira. No entanto, com o Batman 3 de Burton descartado pela Warner e o diretor substituído por Joel Schumacher, Keaton acabou também sendo trocado por Val Kilmer no papel de Wayne.

 

Nos anos que se seguiriam, o ex-intérprete de Batman só conseguiria papéis pequenos no cinema, só conseguindo se reerguer com o próprio convite para Birdman, pelo qual está indicado ao Oscar e já foi vencedor do Globo de Ouro. Assim, Keaton consegue encarnar Thomson com muita facilidade. É inclusive surpreendente que a personagem fuja de todo e qualquer estereótipo sobre atores que já fizeram grande sucesso, na maioria das vezes tratados como sujeitos arrogantes, desprezíveis e que vivem tendo ataques de estrelismo nos bastidores. Riggan Thomson não é nada disso. Com um lado extremamente sensível e cuidadoso, Thomson tem como único objetivo conseguir emplacar sua peça de teatro como um sucesso coletivo, sem em momento algum passar por cima das pessoas com quem está trabalhando. Além disso, o ator não se mostra ganancioso (ao contrário da personagem de Zach Galifiankis) ou despreocupado com sua família, sendo que é extremamente perceptível o seu sentimento de culpa e o arrependimento por ter afastado de si a esposa e por ter sido ausente com a filha.

 

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Por mais que Keaton mereça muitos elogios por seu Thomson, Edward Norton é o responsável pela melhor atuação e também pela melhor personagem do filme, apresentado talvez o melhor trabalho de sua carreira. O seu Mike é tudo que se esperaria de Thomson em um primeiro momento: um clássico ator-estrela lotado de sarcasmo que acha que Hollywood gira ao seu redor e que todos devem admirá-lo. Ao mesmo tempo, porém, é impossível detestá-lo. Em um diálogo com a Sam, interpretada por Stone, ele revela o que já era de se suspeitar: sua chatice é apenas uma forma de conquistar a atenção de pessoas que provavelmente sequer se importariam com o seu grande talento. Além disso, vale destacar que, por mais que pareça imiscível com o restante do elenco da peça, é inegável a química que apresenta com todos com quem um dia realmente se envolve, como o próprio Thomson, Sam e – vá lá – até mesmo a Lesley de Naomi Watts.

 

As restantes participações do elenco secundário também não fazem feio, uma vez que são todas extremamente seguras, sem exagero por nenhuma parte. Naomi Watts está excelente como a contraditória Leslie, a qual é ao mesmo tempo melancólica e despojada, desacreditada e esperançosa; Galifianakis interpreta perfeitamente o produtor que aceita financiar até o projeto mais desacreditado somente na esperança de conseguir algum dinheiro; e há a sempre bem-vinda presença de Lindsay Duncan, a qual aqui interpreta a carrancuda crítica de teatro disposta a destruir o trabalho de Thomson. Apenas achei Emma Stone em uma intepretação aquém do que costuma apresentar, estando muito contida como a complicada, mas cúmplice filha do protagonista. Além disso, a insossa Sylvia de Amy Ryan parece perdida em um mundo de personagens extremamente interessantes e cheios de personalidade. Ainda que seja importante para demarcar o relacionamento de Thomson com a família, a presença de sua personagem em cena não era necessária, podendo ter sido apenas mencionada por Sam em um dos inúmeros diálogos que ela tem com a personagem de Michael Keaton.

 

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Enquanto o elenco da obra dirigida, escrita e atuada por Thomson desfilam pelo palco da Broadway, vale destacar o trabalho de fotografia do vencedor do Oscar por Gravidade, Emmanuel Lubezki. Suas luzes realçam a sensação de estarmos realmente dentro de um teatro, ao mesmo tempo que ilustram os holofotes que todas as personagens de Birdman invejam. A bateria da trilha de Antonio Sanchez também vem completar a ideia do “rufar-de-tambores” a que se resume a vida daqueles que buscam alcançar a fama ou, pelo menos, retomá-la. Deve-se reparar também na forma como alguns percussionistas são inseridos em diversos momentos do filme tocando a trilha, demonstrando o extremo cuidado da direção de Iñárritu no sentido de construir uma obra em que todos os elementos convirjam para construir o mesmo espetáculo no qual recai o foco da trama.

 

E o que mais dizer de Birdman se não um verdadeiro espetáculo? Todo o sucesso e reconhecimento do filme vêm justamente do prazer de ver o cinema se renovando, ousando e buscando novos caminhos para interpretar a si mesmo. A autorreflexão que muitas vezes mencionamos faltar a algum cineasta quando este começa a errar frequentemente acontece minuto a minuto neste filme indicado a 9 Oscars, só que em relação ao cinema como um todo e àqueles que dele participam. Há aqui um questionamento sobre os rumos da sétima arte, sobre o desejo de reconhecimento presente em cada um de nós, sobre a nostalgia, sobre a pressão a que nós mesmos nos submetemos e sobre quem realmente somos e o que realmente almejamos.

 

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No entanto, Birdman em si não precisa de autorreflexão nenhuma, pois é uma obra completa; é cinema para se apreciar no presente e se recordar no futuro. É, além de tudo, cinema que transmite os nossos anseios. Falando nisso, fica aqui o nosso desejo por mais sangue de verdade, sangue que tem feito falta às salas de cinema do mundo todo.

 

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Trailer: