Em 10 de dezembro de 2014, Dia Internacional dos Direitos Humanos, a Presidente da República apresentou o relatório final da Comissão Nacional da Verdade, responsável por investigar os abusos cometidos no regime militar que vigorou no Brasil de 1964 a 1985. Iniciado em 2012, quando da própria criação da Comissão, o relatório contabilizou um número de 434 vítimas e 377 responsáveis pelo abuso, embora estime-se que o número possa ser muito maior e atingir inclusive a casa dos milhares. Infelizmente não é possível obter os números reais da violenta ditadura que ocorreu em solo nacional, uma vez que a memória deste período se encontra mais enterrada do que nunca e poucos demonstram ter disposição para desenterrar tal memória, mesmo que estejam cientes do enorme favor que fariam a História do Brasil e, principalmente, às famílias dos que tiveram seu sangue derramado enquanto lutavam pela democracia.

 

Gatti

 

Essa falta de memória e o desinteresse histórico talvez sejam os maiores problemas do povo brasileiro. Eu não vivi a ditadura, não tive nenhum parente assassinado pelos militares e tampouco conheço alguém extremamente próximo que tenha. Entretanto, isso não impede que eu me compadeça com os muitos que, para além de terem tido seus entes assassinados, não tiveram a chance de enterrá-los ou de sequer saber como foram suas mortes. Enquanto pesquisava para o documentário que dirigi junto ao grande amigo Vinícius Levorato no ano passado, O Que Trago do Chumbo, me deparei com a listagem oficial das vítimas do regime (ainda com os números antigos) e com as explicações oficiais dadas tanto para a causa mortis quanto para o desaparecimento dos civis. Para minha indignação, as descrições eram extremamente vagas, isso quando não pífias, sem contar os casos dos que foram dados como desaparecidos, mas que já tiveram testemunhas narrando suas terríveis mortes na mídia posteriormente (como o caso do próprio Stuart Angel, filho da estilista Zuzu Angel).

 

M írcia

 

Talvez o fato de 2014 ter sido o ano dos 50 anos do início da Ditadura foi algo que acabou despertando muitos brasileiros para o tema e para a mesma indignação que mencionei no parágrafo anterior. Além do relatório da Comissão da Verdade, o ano passado foi marcado por inúmeras matérias jornalísticas e análises do período, o qual foi também tema de debate e discussão por grandes instituições. Por exemplo, a UNICAMP, em sua Sexta Olimpíada Nacional de História do Brasil, exigiu que os participantes elaborassem uma matéria com algum conhecido que sofreu com a censura militar.

 

10362428_791628040870183_1348924579_n2E foi justamente nesta Olimpíada que eu e mais 3 amigos – Vinícius, Caroline Salve e Anne Carolina – resolvemos entrevistar 6 de nossos professores que atravessaram o 64-85 e tiveram grandes experiências, para que assim pudéssemos ser ajudados na tarefa que tínhamos pela frente. Para nossa surpresa, as entrevistas foram tão estupendas e ricas em seus relatos do Regime que não podiam ser somente parte de uma Olimpíada de História. Foi aí que surgiu a ideia de realizar um documentário que reunisse as seis entrevistas e que pudesse criar um panorama da Ditadura do ponto de vista daqueles que participaram dela e que, mesmo estando muito longe dos holofotes, cultivaram histórias até melhores das que estamos costumados a ouvir. Mais curioso ainda foi que, por mais que os pontos de vista de nossos professores divergissem em vários momentos (e isso, é claro, porque cada ser humano tem a sua maneira própria de ver o mundo), todos convergiam ao narrar a terrível perda de liberdade de expressão das décadas de autoritarismo e o grave atendado a democracia que nosso país sofreu. Nascia O Que Trago do Chumbo.

 

Pinheiro

 

Concluído o documentário, pudemos finalmente exibi-lo no Teatro Municipal de nossa cidade, Barra Bonita, para um público de aproximadamente 200 pessoas, as quais, além de acompanharem as entrevistas dos nossos professores Ronaldo Gatti, José Pinheiro, Maurício Quagliato, Márcia Peregini, Carlos Hayashi e Paulo Pizzigatti e imagens raras de arquivo que ilustraram o nosso relato do Regime Militar, presenciaram um debate com o professor da USP Mário Sérgio de Moraes, o qual estava lançando o seu livro 50 Anos Construindo a Democracia. O professor Mário Sérgio, complementando o nosso filme, deu uma verdadeira aula sobre o legado do Regime e contou sobre como a ditadura afetou a sua vida, tendo sido seu irmão o responsável pelo julgamento do caso Vladimir Herzog, jornalista que se tornou um símbolo da resistência e que hoje dá nome ao Instituto do qual Mário Sérgio faz parte.

 

Maur ¡cio

 

Hoje, caros amigos e leitores do Pisovelho, apresento-lhes com muito orgulho o documentário do qual tive a honra de ser diretor e roteirista. Tenho certeza que da mesma honra gozam o co-diretor e editor Vinícius Levorato, as produtoras e entrevistadoras Caroline Salve e Anne Carolina, os professores entrevistados e a equipe de nosso colégio, especialmente por termos conseguido ir tão longe com algo que surgiu a partir da simples ideia de manter a memória brasileira viva e assim impedir que futuros abusos ocorram.

 

Hayashi

 

Esperamos que vocês usem o nosso O Que Trago do Chumbo como uma importante ferramenta de reflexão acerca dos nossos direitos como cidadãos e seres humanos, para que assim tomemos para nós com afinco a tarefa de não permitirmos que ninguém jamais tire-nos esses direitos, a tanto custo (e sangue) conquistados. Como disse no dia da estreia de nossa obra: “Há quem diga que águas passadas não movem moinhos. Nós acreditamos que movem sim. Pelo menos na História da Humanidade movem, uma vez que a História se repete. Estudar a ditadura militar que abateu o Brasil durante 21 anos é estudar também os erros do passado e evitar que eles ocorram novamente no presente. É dar valor à liberdade de expressão, ao direito de manifestação política, ao direito ao voto, ao direito de escolher os rumos da Nação, ao direito de viver”. Ótimo filme e excelente reflexão.

 

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Documentário completo: