BoyposterHá inúmeras formas de se fazer cinema. Pode-se seguir desde as mais tradicionais, com os caminhos já percorridos pelos cineastas, muitas vezes até como uma forma de homenagear a própria sétima arte; ou também pode-se seguir caminhos novos, que tragam novas formas de ver e imaginar a ação que se passa na telona. Esse tipo de inovação é e sempre será bem-vinda, uma vez que o cinema, como todas as outras formas de Arte, precisa se renovar constantemente, mostrando que ainda tem fôlego para muitas e muitas décadas. É com muita felicidade, então, que recebemos essa inovação de um diretor como Richard Linklater, que já havia dado o primeiro passo ao realizar uma trilogia (a linda trilogia Antes) composta quase que unicamente pelos diálogos de dois personagens, interpretados por Ethan Hawke e Julie Delpy. Em Boyhood – Da Infância a Juventude, o diretor acompanhou, junto a seu elenco, uma família comum norte-americana (criada pelo roteiro que Linklater também assina) por 12 anos, mostrando tanto as transformações psicológicas das personagens quanto físicas do elenco, além de importantes marcos históricos e culturais da última década. Apesar de ter em seu centro a família como um todo, o filme foca no amadurecimento de Mason (Ellar Coltrane, praticamente estreante em 2002) e na forma como ele lida com grandes desafios, como a separação dos pais, os conturbados novos casamentos da mãe e o ingresso na vida universitária. Boy3 Em termos do que é narrado, como é de se esperar, não há grandes surpresas. No filme, está apenas a história de uma família de classe média dos Estados Unidos, que apresenta todos os desafios de qualquer família de classe média no mundo. Sem grandes picos dramáticos, somos apresentados a temas como relacionamentos problemáticos e a questão da puberdade, abordados já muitas vezes tanto no cinema quanto na televisão. No entanto, a sensibilidade e leveza de Linklater faz com que estes temas não sejam abordados jamais de forma piegas ou exagerada, uma vez que o grande objetivo do filme é justamente trazer um ponto de vista extremamente submisso à realidade. Por exemplo, mesmo nas cenas dramaticamente mais pesadas, que envolvem um dos padrastos de Mason, não precisamos presenciar nenhuma agressão, pois somente a maneira como a situação é abordada já a transporta diretamente para a realidade, fazendo com que pensemos no quão comum (infelizmente) esse tipo de relação é e nos sintamos oprimidos imediatamente. Boy2 Por outro lado, a genialidade do roteiro não está em momento nenhum na visão geral da história de Mason, mas sim nos pequenos detalhes; no particular. Como as filmagens ocorreram durante 12 anos (o mesmo tempo cronológico da trama), nem é preciso dizer o quão essencial o fator tempo é para a obra. Dessa forma, o diretor, ao abrir mão dos letreiros indicando passagens de tempo, optou por uma decisão um tanto quanto ousada: marcar o tempo, além das transformações físicas, através de pequenas marcas de acontecimentos históricos e culturais que marcaram os anos de 2002 a 2014. Digo que é uma decisão ousada pois exige uma grande capacidade de percepção do cineasta, que tem a difícil tarefa de escolher – no presente – fatos que ele acredita que continuarão marcantes no futuro. E Linklater faz isso brilhantemente. Assim, é impossível não perceber que estamos em 2008 quando Mason cita ao pai (Ethan Hawke) o sucesso de filmes como Batman – O Cavaleiro das Trevas ou que, ao ouvirmos Somebody That I Used to Know em um barzinho, estamos em 2012. Boy6 Boyhood é também o filme mais político do diretor, uma vez que, diferente de seus anteriores, ele traz neste a crítica com uma forma também de demarcar o tempo. Logo, o previsível humanismo do democrata Linklater fica claro na personagem de Hawke, que critica duramente para os filhos a gestão Bush e que, anos depois, juntamente a eles, sai pelas ruas recolhendo as placas de John McCain e substituindo-as pelas de Barack Obama. Dessa forma, percebe-se que no filme a política não é feita de forma gratuita e meramente panfletária (como no descarado O Mordomo da Casa Branca), mas está inserida no debate político que acontece em toda família. Como já disse, além das marcas históricas e culturais, outra marcação temporal é a transformação do elenco, que acompanha a transformação das próprias personagens. Sendo assim, ao mesmo tempo que acompanhamos o crescimento do protagonista, vemos como, a medida que a essência de seu personagem se mantém, se mantém também a da atuação de seu intérprete, a qual por oras até soa pouco espontânea, mas nada mais é do que o retrato sincero de um jovem quieto e que apenas vive o mundo ao seu redor (nesse sentido, vale destacar que toda a sensibilidade do diretor é refletida no protagonista, que, não à toa, se torna um fotógrafo com olhar único, gerando uma das mais belas cenas do filme, na qual ele fotografa a natureza a caminho de sua faculdade). Boy5 É curioso notar também o rápido envelhecimento de Hawke, que vai desde uma aparência bem jovial no início dos anos 2000 (quando ainda nem havia filmado Antes do Pôr-do-Sol) até um rosto muito mais envelhecido e maduro nos anos mais recentes. No entanto, o mais importante de se notar no ator é a sua total entrega nos filmes de Linklater, onde sempre aparece muito desenvolto e fiel a seus personagens, o que, infelizmente, não tem acontecido muito nos últimos tempos em sua carreira. Patricia Arquette como a mãe de Mason, entretanto, é quem se destaca como uma grande surpresa do filme, entregando a talvez melhor atuação de sua carreira, extremamente válida para um possível Oscar no ano que vem. Uma exceção do elenco é Lorelei Linklater, filha do diretor e que interpreta a irmã de Mason inicialmente de forma muito graciosa, mas que vai aos poucos perdendo o brilho ao longo da projeção (o que faz com que, acertadamente, sua participação na trama vá sendo diminuída progressivamente). Boy7 Porém, ainda que quase sempre acompanhado do brilhantismo já citado, o roteiro do filme não escapa também de alguns problemas, como a repetição de algumas situações, o que faz com que ele ganhe previsibilidade em diversos momentos, tornando a já longa duração da obra ainda maior nestes, ainda que recupere certa agilidade em seu terceiro ato, com a chegada dos 18 anos na vida do protagonista. Tecnicamente, um dos aspectos mais interessantes e importantes de Boyhood é a trilha sonora, escolhida a dedo com grandes sucessos da música que, ao mesmo tempo que tem a função de demarcar o tempo da narrativa, tem a função de complementar o áurea extremamente tranquila das personagens e, consequentemente, do filme. Assim, ao longo das quase três horas de longa, somos brindados com cenas embaladas por Yellow, Island In the Sun, Get Lucky, Crazy, Wish You Were Here e, claro, o grande tema do filme, a ótima Hero, da banda Family Of The Year. Boy4 Por último, acredito que nem seja necessário reiterar que essa bela obra de Richard Linklater deixa sua marca na história do cinema, uma vez que a excelente repercussão do filme no mundo todo já o fez, mas acredito que mais do que mostrar que é sempre possível inovar, o diretor, sempre um visionário, deixa um recado ainda mais importante: o de que inovar não é dar uma complexidade forçada a algo que, no fundo, é simples (que é o que muitos cineastas fazem ultimamente), mas sim mostrar que a inovação nada mais é do que expor aos nossos olhos toda a simplicidade que busca sempre fugir deles na nossa avidez por modernidade. E aqui toda a simplicidade reside no olhar de um menino pela passagem do tempo em sua vida. Trailer:  EUA , 2014 – 163 minutos
Drama Direção:
Richard Linklater Roteiro:
Richard Linklater Elenco:
Ellar Coltrane, Patricia Arquette, Ethan Hawke, Lorelei Linklater, Nick Krause, Sam Dillon, Evie Thompson Otimo photo Otimo.png