Poster Christopher Nolan é um diretor de projetos ambiciosos, deste mudar a estrutura narrativa em Amnésia até criar um complexo mundo de sonhos em A Origem. Além de redefinir como os heróis de HQs são retratados no cinema com a trilogia Batman (confira a crítica de Ressurge). Neste ano, já com uma carreira consagrada, Nolan decide aventurar-se na ficção científica em uma história que sempre deixou claro em ter como maior inspiração 2001: Uma Odisseia no Espaço de Stanley Kubrick. O primeiro equívoco que qualquer pessoa pode ter ao assistir este novo filme, principalmente os fãs do diretor, é esperar um novo 2001 como se precisasse existir outro 2001. Só existe uma Odisseia no Espaço, só existe um Solaris, só existe um Gravidade, e pode ter certeza que existirá apenas um Interestelar. Stellar6 O filme não é livre de problemas – e com problemas conhecidos da filmografia de Nolan – mesmo assim traz uma história notável e emocionante. Escrito em conjunto com seu irmão, Jonathan Nolan, somos apresentados a uma premissa que não traz muitas novidades em relação à outros filmes do gênero. A humanidade encontra-se próximo do seu fim com um planeta cada vez menos habitável. Dominado pela poeira e escassez de alimentos, fazendeiros tornam-se mais essenciais do que qualquer outro tipo de profissão. Neste longo primeiro ato, somos apresentados a família do fazendeiro e ex-piloto da NASA Cooper (Matthew McConaughey) que espera um futuro melhor para seus filhos. A chance de um futuro melhor surge quando Cooper é convidado a integrar uma expedição espacial planejada pelo o que restou da NASA. O objetivo é procurar novos planetas que sejam habitáveis aos seres humanos. Durante o processo de apresentação do problema, os irmãos Nolan caem no seu habitual problema que é a excessiva exposição de informações nos diálogos. Por um lado pode ser bom para um público leigo que não sabe nada sobre física quântica, buraco negro, buraco de minhoca, gravidade, entre outros assuntos científicos. Contudo, diálogos expositivos mostram insegurança do roteirista em que o público possa entender algo apenas visualmente, além de tirar a naturalidade das falas, transformando os personagens em meros robôs. E robô aqui já basta o TARS que é até interessante vê-lo em ação e tem um design que lembra um certo monolito.  Stellar2 O ponto positivo durante os diálogos expositivos é que o roteiro já vai construindo o que será a trama principal: a relação de Cooper com os seus filhos, principalmente com a filha Murph (Mackenzie Foy na infância e depois Jessica Chastain na fase adulta). Através desta relação percebe-se o filme menos racional de Nolan, em que ele aposta na emoção de seus personagens para passar a mensagem da história. Esta escolha por um filme emocional funciona graças as grandes atuações como a de McConaughey que deste Killer Joe vai emendando um belo trabalho atrás de outro até ganhar o Oscar como melhor ator em Clube de Compras Dallas (e arrisco dizer que True Detective não seria a mesma série sem ele). As cenas com os filhos são uma demonstração de como um excelente ator consegue melhorar momentos que por si só seriam memoráveis. Stellar5 No entanto, o que há de melhor no filme é o segundo ato. Lembrando que para escrever o roteiro e produzir o filme, Nolan teve a colaboração do físico teórico Kip Thorne, pois sua pesquisa acerca de ondas gravitacionais é bem utilizada no filme. Na parte em que a tripulação chega no espaço, o diretor mostra porque é um dos melhores da atualidade. Utilizando o mínimo possível de efeitos visuais (Chroma Key não teve vez), a produção construiu praticamente tudo artesanalmente. Um trabalho impecável do departamento de arte. Assim, a experiência de ver naves e cenários reais não tem preço, entregando aquele ar de nostalgia dos clássicos antigos. Veja como Nolan opta por planos fechados na maioria das vezes (uma câmera vive grudada na nave) para ressaltar este trabalho, não ter que usar CGI e aumentar o choque das cenas. É verdade que em algumas cenas é frustrante não poder ver em um plano aberto, nos limitando a visão do Universo e causando uma certa confusão do que está acontecendo. Com certeza um certo equilíbrio desses dois lados teria um resultado melhor.    Stellar3 Outra característica que remete a um bom filme de ficção científica é o silêncio do espaço e aqui funciona muito bem. Quem está acostumado com os filmes barulhentos e cheios de ação do diretor irá surpreender-se. Cada minuto viajando pelas estrelas através da icônica nave espacial do filme é um tempo que você nunca quer que acabe. Contudo, o silêncio é apenas um detalhe perto da inspirada composição de Hans Zimmer que entrega um dos seus melhores trabalhos. Detalhe de como ele insere um som de relógio acelerado em uma das composições para aumentar a tensão das cenas e, ao mesmo tempo, fazer a relação do espaço-tempo. Porém, a trilha sonora não é só maravilhas. A equipe de mixagem de som escorrega feio em vários momentos. Quando há cenas de ação em que os personagens precisam falar ao mesmo tempo que há outros tipos de sons fortes no ambiente fica impossível entender alguma coisa. Fora que os outros diálogos estão bem abafados. Uma produção deste tamanho é obrigatório ter um trabalho melhor. Stellar4 Marca autoral de Nolan, as montagens paralelas continuam em sua excelência com o trabalho do editor Lee Smith. O clímax do segundo ato e o final são aulas de edição de como manter o público interessado em duas histórias ao mesmo tempo. Sim, o final pode parecer absurdo, porém ele funciona naquele universo, resultando numa sequência espetacular que merece ser vista no cinema. Interessante notar que apesar de Nolan insistir em deixar tudo explicado para o público, ele não consegue segurar a tentação de deixar pontas soltas (ou furos no roteiro) para que tenhamos nossas próprias conclusões acerca o destino dos personagens. Nunca saberemos se o pião caiu ou não.  Stellar8 Interestelar aborda vários temas deste física quântica até humanidade. Contudo, a verdadeira força deste filme está em um sentimento que transcende espaço-tempo: o Amor. O amor de um pai por seus filhos. O amor de um artista pela sétima arte. Trailer: Interstellar
EUA/Reino Unido , 2014 – 169min
Aventura / Ficção científica Direção:
Christopher Nolan Roteiro:
Cristopher Nolan, Jonathan Nolan Elenco:
Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Wes Bentley, Jessica Chastain, Matt Damon, Mackenzie Foy, Elyes Gabel, Michael Caine, Casey Affleck, Topher Grace, Ellen Burstyn, John Lithgow Otimo photo Otimo.png