ME Sempre tomei o cuidado de nunca idolatrar nenhuma celebridade. Não há nada de errado em idolatrar a arte de um artista que você admira.  Por exemplo, adoro o trabalho de Daniel Day-Lewis como ator, Martin Scorsese como diretor e Bon Jovi é minha banda favorita. Contudo, dificilmente confundirei o artista do ser humano que ele é, pois sua arte pode ser perfeita, mas como ser humano ninguém é, principalmente em Hollywood. A proposta do realizador David Cronenberg – outro que admiro o trabalho – é mostrar a vida das celebridades sem o glamour que as mídias baba-ovo as vestem, e nada melhor para exemplificar isso, uma cena que vemos um dialogo de uma celebridade com sua assistente, enquanto ela faz suas necessidades no banheiro. MTTS_00878.NEFEm Mapas Para as Estrelas, o diretor revela uma verdade nua e crua atrás do que é escondido pela manipulação de revistas, jornais e televisão. Um estudo que nos alerta sobre a grande diferença entre aquele artista que amamos tanto e a pessoa que ele é na vida real, pois Hollywood é assim, um mundo de aparências.  O roteiro de  Bruce Wagner está mais interessado no interior de seus personagens do que num quadro geral da indústria do cinema, diferente do clássico de Robert Altman, O Jogador, que descontrói esse universo tanto visualmente quanto no conteúdo. Então, algumas figurinhas marcadas dão o ar da graça neste filme, como o arrogante astro adolescente, a decadente atriz que quer voltar ao sucesso e a rica família que faz de tudo para esconder da imprensa os problemas pessoais. Entre essas histórias, ainda sobra tempo para criticar a superficialidade de relacionamentos desta indústria, em que não há limites para conseguir o que deseja. MS2É claro que não pode-se generalizar tudo, mesmo assim é interessante ver aqueles seres perfeitos, que muitas pessoas idolatram como se fossem deuses, também são sujeitos à loucuras, segredos obscuros e a vergonha alheia. Com um roteiro deste em mãos, Cronenberg não poupa energia para chocar o máximo possível o público de sua realista visão, e nem precisa investir tanto na violência, pois os personagens são repulsivos o bastante para chocar alguém.  A personagem Havana Segrand, atuação primorosa de Julianne Moore, quer desesperadamente atuar em um remake que sua mãe atuou no original. Uma forma de obter novamente o sucesso e provar para si mesma que pode superar a falecida mãe. Se não bastasse a pressão de conseguir o trabalho, ela é atormentada por alucinações de sua mãe (a linda Sarah Gadon de Enemy) que só proporciona um pouco mais de caos numa vida em crise. Então não se espante (ou sim) quando Havana comemora a sua contratação em um filme, esquecendo que para isso acontecesse, uma criança teve que morrer. Na luta pelo topo não há espaço para lamentações. MSEla não é a única,  a história é recheada de personagens frios, cínicos, egoístas e desesperados, e se há alguma compaixão entre eles é por causa de compartilharem os mesmos problemas. Assim vemos  o astro mirim Benjie Weiss (Evan Bird) achando que um mini Ipad vai diminuir o sofrimento de uma menina à beira da morte, ou um motorista de limusine – o novo queridinho de Cronenberg: Robert Pattinson – que entra em um relacionamento para ter alguma base no roteiro que está escrevendo. Entretanto, a responsável por ligar todas as histórias é a personagem de Mia Wasikowska, a sofrida Agatha Weiss. Apesar de um problema mental, ela consegue ser a mais sã de uma família à beira do caos. É até irônico que nesta família, o pai (John Cusack) seja responsável por trazer tranquilidade a milhares de estranhos e, num momento de fúria, ele usa de sua habilidade para causar dor. MS4Nem tudo são flores, a insistência de estabelecer a ligação dos irmãos Weiss através de um poema – que deve ter sido citado umas seis vezes no filme – mostra um certo medo do roteirista em achar que o público não fosse entender a mensagem. Sem falar que os efeitos visuais nunca foram o forte em um filme de Cronenberg (e sim a maquiagem como nos inesquecíveis A Mosca e Videodrome), pois em uma cena que deveria chocar, não provoca nada, já que fica difícil sentir algo por um boneco virtual pegando fogo. Seguindo a mesma linha de raciocínio de seu último filme, Cosmópolis, em que vemos uma sociedade em crise, Cronenberg entrega sua resposta do que ele pensa de Hollywood e que prêmios, milhares de fãs e valorização da imprensa não fazem de uma pessoa um ser completamente feliz e que o brilho dessas estrelas já desapareceu faz um bom tempo. Trailer: Maps To The Stars
EUA/CANADA, 2014 – 111 minutos
Drama Direção:
David Cronenberg Roteiro:
Bruce Wagner Elenco:
Mia Wasikowska, Julianne Moore, John Cusack, Olivia Williams, Carrie Fisher, Sarah Gadon, Robert Pattinson Otimo photo Otimo.png