GG0O suspense, gênero que teve seu ápice nas mãos do mestre Alfred Hitchcock, acabou sendo marginalizado pelo cinema após a morte deste, sendo limitado a poucas produções (e grandes produções) até 1995, quando é ressuscitado pelo já clássico Seven – Os Sete Crimes Capitais, nas mãos do habilidoso David Fincher, que começava a trilhar o sucesso em Hollywood (antes havia dirigido Alien 3, que nem de longe foi um grande sucesso de crítica). Nos anos seguintes, nas mãos de Fincher, viriam outros grandes filmes: Clube da Luta, O Quarto do Pânico, Zodíaco e Millennium – Os Homens Que Não Amavam as Mulheres. Em suma: ainda temos pouquíssimos suspenses por ano, mas só de saber que teremos pelo menos um filme de Fincher, já sabemos que o gênero estará muito bem representado. Garota Exemplar é o Fincher de 2014. No filme, adaptado do livro de Gillian Flyn (que assina o roteiro), Nick Dunne (Ben Affleck) é o homem imperfeito que entra em um relacionamento com a mulher perfeita, Amy (Rosamund Pike), a qual praticamente simboliza a “beleza americana”. Com o passar do tempo, a relação dos dois vai se desgastando mais e mais, até culminar no misterioso desaparecimento de Amy, que rapidamente se torna o centro da atenção da mídia e, logo, do país. Conforme as investigações prosseguem, tudo indica que o grande responsável pelo sumiço (e possível assassinato) de Amy seja Nick, ainda que ele negue de toda forma que cometeu o crime. MCDGOGI FE006Garota tem todos os ingredientes para um grande filme de Fincher. O roteiro é totalmente inesperado, cheio de reviravoltas e o clima de tensão permanece constante, mesmo após acharmos que tudo já foi praticamente resolvido. Neste caso, porém, o diretor aponta para algumas direções e saídas diferentes de seus filmes anteriores. Como toda a história do filme depende exclusivamente da relação entre os dois protagonistas, é natural que, muito além da investigação de um crime (como em Seven, Zodíaco e Millennium), seja necessária a imersão para dentro do universo das personagens, afim de que possamos fazer nossas próprias avaliações acerca de tudo que acontecia na vida do casal Dunne e tentarmos descobrir quem foi o culpado pelo crime e quais foram os fatores motivadores. Neste sentido, como era de esperar, Fincher se sai muito bem, ainda que tenha a ajuda de duas sensacionais atuações de Affleck e Pike. Affleck, sempre em uma situação bastante cômoda com suas personagens, sai aqui de sua zona de conforto e precisa fazer constantes alterações na personalidade de seu Nick para convencer o público. Já Pike é simplesmente a melhor atuação deste ano até agora, surpreendendo com a capacidade de tornar sua personagem uma incógnita que parece que nunca será revelada a nós. Neste ponto, reside tanto a graça quanto o problema do roteiro: Amy é a personagem mais interessante e curiosa da trama, mas o brilho de sua personagem acaba levando o roteiro em alguns momentos para a inverossimilhança. GGMerece destaque também a atuação de Carrie Coon como a irmã de Nick, o qual é o papel de estreia da atriz, vinda da TV, no cinema. Margo Dunne é o ponto de equilíbrio entre Nick e Amy e uma das poucas personagens na qual podemos confiar, até porque ela partilha da mesma incerteza do público. Neil Patrick Harris, Tyler Perry e Kim Dickens trabalham com papéis mais “fáceis” e clichês, mas ainda sim fazem ótimos trabalhos. Essa subjetividade e impessoalidade de Garota Exemplar acaba levando o filme a rumos que vão além dos clássicos clichês do suspense. Aqui aparece uma crítica avassaladora à mídia e à opinião pública, que, através de programas sensacionalistas, nos levam a acreditar em histórias que nunca saberemos se são verdade ou não. Independente disso, nosso “espírito justiceiro” acaba nos fazendo toma-las como verdades absolutas, fazendo com que julguemos a tudo e a todos. Ao mesmo tempo, não é só a mídia que nos engana, uma vez que nós mesmos nos deixamos enganar pelas aparências e imagens que criamos em nossas mentes. O que garante que a pessoa em quem mais confiamos merece nossa confiança? Quem ou o quê um dia poderá nos dizer ou garantir isso? GG2O próprio filme acaba por criticar seu público, uma vez que somos submetidos a diversas situações que praticamente nos impõem julgamentos, julgamentos estes que logo teremos que revisitar e rever, justamente porque não temos uma verdade absoluta em nenhum momento, mas sempre acreditamos possui-la. Esse lado do filme funciona nada mais nada menos do que como um grande exame de consciência para todos que o assistem. Também é criticada em Garota a nossa busca incessante pela perfeição e as consequências devastadoras desta busca. Em um dos momentos do filme, Nick confessa que viu em Amy o encontro com uma garota perfeita e que, para isso, precisou fingir ser o cara perfeito à primeira vista, ainda que ciente de que todos seus defeitos iriam surgir uma hora ou outra dentro do relacionamento. Em outra ótima cena, Amy passeia por desenhos dos livros que ilustram sua infância de “Amy Exemplar” e, conforme seu marido a questiona sobre a veracidade daqueles momentos, ela revela que todos eles na verdade foram uma maneira que seus pais, com o intuito de vender sua própria imagem, encontraram de transformar seus fracassos em sucessos. Essa indefinição psicológica do casal protagonista ajuda a construir todo o clima de suspense do filme, já que nunca sabemos o que esperar deles. GG3A habilidade de Fincher na direção também fica clara na mudança que o diretor conduz da primeira para a segunda metade do filme. Na primeira metade, temos um clima extremamente sombrio, lotado de dúvidas e incertezas, em que a investigação policial é o foco principal. Já na segunda metade, o clima sombrio é substituído por ares de perversão e violência (aliás, esse é um dos filmes mais violentos da carreira do diretor), em que o foco é observarmos como as personagens lidarão com situações que elas próprias criaram ao longo de suas vidas, independente de aprovarmos ou reprovarmos estas atitudes. Neste ponto, ainda que tenhamos uma segunda metade bastante provocadora e que nos deixa lotados de curiosidade, a primeira metade acaba se saindo melhor, mais uma vez por causa de uma proximidade maior com a realidade. Como em todo filme de suspense, a fotografia e a trilha sonora tem papéis essenciais na construção da trama. Na fotografia, Fincher repete mais uma vez a dobradinha com o ótimo Jeff Cronenweth, construindo uma ambientação bem próxima da de Millennium, que é também o filme “fincheriano” narrativamente mais próximo deste. Já a trilha sonora fica por conta dos vencedores do Oscar Trent Reznor e Atticus Ross, que também já trabalharam com David (em A Rede Social) e que fazem mais uma vez um excelente trabalho, com uma trilha que tem seus melhores momentos nos grandes picos de tensão do filme, principalmente nas cenas que envolvem Amy e Desi Collings (personagem de Neil Patrick Harris). GG5Por fim, não se pode encarar Garota Exemplar como um simples filme de suspense, já que seu foco – e isso só percebemos no seu segundo ato – não é apenas uma investigação policial em torno de um crime, mas uma investigação psicológica acerca do potencial da mente humana. A história do filme pode parecer distante da nossa realidade, mas não podemos nos esquecer de que ela não é reproduzida desta mesma forma no nosso cotidiano e sim de muitas outras: as pequenas mentiras que contamos diariamente, as omissões e as personagens que criamos para fugirmos de nossas realidades quando estamos insatisfeitos. A princípio, pode parecer algo sem qualquer relevância, mas, como nesta ótima obra de David Fincher, o potencial devastador não tende demorar muito a vir. Trailer:   Gone Girl
EUA , 2014 – 149 minutos
Suspense Direção:
David Fincher Roteiro:
Gillian Flynn Elenco:
Ben Affleck, Rosamund Pike, Kim Dickens, Carrie Coon, Patrick Fugit, Neil Patrick Harris, Emily Ratajkowski, David Clennon, Lisa Banes, Tyler Perry, Missi Pyle, Casey Wilson Otimo photo Otimo.png