Mal Malévola surge em meio a uma grande safra de releituras de contos de fada clássicos, a maioria delas insatisfatórias, como a fraca Alice No País das Maravilhas de Tim Burton, o insosso Oz – Mágico e Poderoso e o desastre João e Maria – Caçadores de Bruxas. Em meio a tantos desapontamentos, a releitura de A Bela Adormecida, com Angelina Jolie como vilã, um visual extremamente sombrio e uma fantástica versão da clássica Once Upon A Dream cantada por Lana del Rey, prometia ser uma das grandes surpresas do ano. Bom, como era de se esperar, não passou de mais um grande desapontamento. No filme, Malévola (Jolie) é traída ainda jovem pelo seu amor (Sharlto Copley), que lhe rouba as asas em troca de se tornar Rei. Mais tarde, como forma de vingança, ela amaldiçoa a filha do Rei, Aurora (Elle Fanning), ainda que sem imaginar que futuramente ela se encantaria com a garota, passando a questionar a si própria e a maldição que lançou. Malévola é uma propaganda enganosa em vários sentidos. Na primeira meia-hora, o filme realmente aparenta apresentar algum diferencial das tantas outras releituras lançadas recentemente, apresentando uma história que até prende nossa atenção, mas que aos poucos vai caindo em diversos clichês, que são ainda agravados pela direção de Robert Stromberg, que dirige seu filme como uma peça de teatro, em que os personagens se deslocam livremente e instantaneamente de um ambiente (e situação) para outro, desprovidos de qualquer senso de espaço. O roteiro de Linda Woolverton também não trata Malévola como uma protagonista digna, deixando a personagem com uma personalidade pouco delineada e que é até esquecida em alguns momentos, não dando a chance para Jolie brilhar como poderia. Por fim, nos resta apenas o belo visual (que nem de longe é sombrio como o apresentado nos trailers, mas que ainda sim é muito bem produzido) e a ótima canção de Lana, a qual toca apenas nos últimos minutos do filme, quando já estamos prestes a exclamar frases como “ufa, achei que não iria terminar nunca”. Nota: Regular Tempo As comédias românticas continuam sendo o ponto fraco de Hollywood. Produzidas aos montes anualmente, poucas conseguem realmente mostrar a que vieram e apresentar algum diferencial, sem cair nos clichês de sempre. Assim, é muito satisfatório quando cineastas como Richard Curtis, brilhante tanto como diretor (Simplesmente Amor) quanto roteirista (Um Lugar Chamado Notting Hill e Quatro Casamentos e um Funeral), nos lembra o quão sincero e grato este gênero nos pode ser, trazendo boas surpresas. Em Questão de Tempo, Tim (Domhnall Gleeson) é um jovem que descobre através de seu pai (Bill Nighy, que merece uma indicação ao Oscar há tempos) que pode viajar para qualquer momento no tempo que ele já tenha presenciado. Assim, ele passa a usar as viagens no tempo para tentar realizar seu maior desejo até então: o de encontrar um amor, desejo que se realizará na figura de Mary (Rachel McAdams). O maior trunfo de Questão é em momento nenhum soar forçado ou clichê. Todo o elenco está ótimo e torna cada uma das personagens extremamente carismáticas e próximas a nós, fazendo com que o roteiro do filme, por mais que tenha um fundo totalmente calcado na imaginação, nos pareça completamente plausível, tornando a história narrada uma experiência intensa, que nos leva do riso ao choro com facilidade. A direção de Curtis está como sempre encantadora, associando mais uma vez a magia do amor à magia londrina. A trilha sonora também é fascinante, indo de The Cure a Nick Cave, passando, claro, por astros contemporâneos, como The Killers e Amy Winehouse, que ajudam a embalar este excêntrico romance. Nota: Foda Getulio No sexagenário do suicídio de Getúlio Vargas, nada mais oportuno do que realizar um filme biográfico a respeito deste Presidente, que foi um dos mais marcantes e importantes para a construção da História Moderna do Brasil. No longa, que ficou a cargo do competente João Jardim (e que é produzido, claro, pela Globo Filmes), diretor do excelente documentário Pro Dia Nascer Feliz, a estrutura tradicional dos filmes biográficos – que narra a vida toda do biografado (e que nem sempre dá certo) – é abandonada e dá vez a uma narração tensa e dinâmica da crise que abalou os últimos dias de vida do governante, em um estilo que lembra muito o ótimo A Queda! – Os Últimos Dias de Hitler. Em Getúlio, Tony Ramos interpreta o personagem-título, o qual, próximo a completar seu mandato como Presidente eleito, tem de lidar com uma acusação de ter encomendado o assassinato de seu opositor mais ferrenho, o jornalista carioca Carlos Lacerda (Alexandre Borges). Em meio à crise, mais do que defender o seu mandato e a sua inocência, Vargas passa a buscar, principalmente, defender sua honra como político e a manutenção de sua imagem como líder nato e imune a qualquer tipo de abalo. Vindo do gênero documental, o diretor encontra muita facilidade ao conduzir os fatos e personagens históricas e dar a elas o exato tom necessário, sem nunca exagerar. Assim, são grandes momentos do filme cenas como a inicial, em que o próprio Getúlio Vargas apresenta ao público – com surpreendente (ou não) sinceridade – sua trajetória até aquele momento. Grandes atuações como a de Tony e Drica Moraes (como Alzira Vargas) ajudam a sustentar papéis fortes e marcantes, ainda que a performance de Borges como Lacerda se apresente um tanto quanto decepcionante, principalmente ao percebermos que o perfil do ator não se encaixa em momento algum com o do personagem que interpreta. Por fim, outros pequenos deslizes, como o uso de legendas para identificar determinadas figuras, não prejudicam o ótimo resultado final de Getúlio, ainda que saibamos que este poderia ter sido ainda melhor. Nota: Ótimo Escape Há várias formas de um filme criar interesse no público. Uma delas é criando polêmica e a outra é fugindo dos lugares-comuns do cinema, com ideias totalmente inusitadas. Escape From Tomorrow, do estreante Randy Moore, possui os dois itens. Criou polêmica ao ser inteiramente filmado sem qualquer autorização nas dependências do Parque Walt Disney, na Flórida, e ainda sim ter sido exibido em importantes festivais, como o de Sundance; e foge completamente do lugar-comum ao apresentar uma trama que depende quase que totalmente da capacidade de abstração do espectador. No filme, Jim (Roy Abramsohn) vai passar alguns dias de férias com a mulher e os filhos na Disney. No entanto, assim que chegam lá, estranhos acontecimentos passam a atormentar o visitante e sua família, como duas garotas francesas que o atraem pelo parque e a presença de uma misteriosa mulher, que serão capazes de colocar muito mais do que um casamento e o convívio com os filhos em cheque, mas também a vida toda a família. Apesar de todo o suspense implícito na trama, Escape em nenhum momento é (ou pretende ser) um filme de terror. Desde as primeiras cenas, sabemos que o que veremos nos próximos 90 minutos é um filme adulto de fantasia, sem qualquer pretensão de apresentar um nexo lógico ou um senso de razão. Nada do que o roteiro nos apresenta faz qualquer sentido ou senso de realidade, mas toda a diversão garantida pelo filme vem justamente do fato de nos vermos entretidos e curiosos acerca de uma história que sabemos não fazer sentido algum, tamanha a eficiência do roteiro e da direção de Moore. Direção esta que muito nos surpreende por sinal, tanto pela acertada escolha de uma fotografia em preto-e-branco quanto por alguns inspiradíssimos takes do estreante, que resultariam em momentos de péssimo gosto caso não fossem guiados por um diretor que sabe exatamente o que está fazendo e os objetivos de seu filme. Nota: Foda por Guilherme Augusto: Godzilla Em certo momento, bem próximo do terceiro ato quando enfim será apresentado o grande clímax do filme, estava me perguntando quando que eu poderia “ver” Godzilla. Estava praticamente suplicando ao diretor Gareth Edwards que mostrasse o lendário monstro em ação e pudesse curtir o que este longa-metragem finge ser: um filme de monstro. Guillermo del Toro me deixou mal acostumado com Círculo de Fogo, entregando cenas magníficas de batalhas entre os Kaiju e os Jaeger. Por isso, quando vejo Godzilla pela primeira vez neste novo filme, a adrenalina sobe (é permitido até um “uau” tamanha a eficiência do trabalho de design e CGI) para depois ser abortada por uma promessa de algo melhor. Assim, Edwards vai criando várias expectativas falsas numa tentativa de desenvolver um suspense estilo Tubarão e Cloverfield, para, só no minutos finais, nos presentearmos com uma bela sequência de ação envolvendo o monstro. E mesmo com momentos memoráveis nesta parte (e dando aquela sensação de “filmaço”), a recuperação já é tarde demais, pois a frustração é maior que qualquer outro sentimento. Na verdade, a culpa desta grande frustação de não ver o grande astro destruindo seus inimigos por mais tempo, é devido a subtramas envolvendo os personagens humanos, com desperdício de ótimos atores em participações pífias e uma história fraca do principal personagem humano interpretado por Aaron Taylor-Johnson. O que faz aumentar ainda mais a vontade de ter visto Godzilla, pois realmente os minutos valem a pena quando está em cena. Pena que são poucos para sua grandeza. Nota: Regular