24 Quem acompanha ou é fã de uma série, sabe como ninguém da sensação que se tem quando tal série tem o seu fim. Por mais que o seriado tenha tido seus maus momentos ou até mesmo que não emplacasse há muito tempo, a sensação de saudade fica e até os maiores erros são perdoados por nós, fiéis espectadores. No entanto, quem acompanha ou é fã de uma série também sabe como ninguém da sensação que se tem quando tal série é – repentinamente – renovada. A sobrevida do programa parece ser a nossa sobrevida, onde um sorriso enche nosso rosto só de imaginar o retorno de todos aqueles personagens que adoramos (ou odiamos) e de todos os vai-e-véns da trama, podendo-se mencionar até – vá lá – as falhas típicas que amávamos odiar. Bom, quem é fã de 24 Horas já teve essa experiência mais de uma vez, tendo terminado a última delas (de maneira definitiva, por enquanto) na última segunda, 14 de Julho, com a exibição do último episódio da última temporada, denominada Live Another Day. Em março de 2010, no decorrer da exibição da oitava temporada, foi decretado o cancelamento da série em exibição desde novembro de 2001, logo após os atentados de 11 de Setembro, perfeitamente alinhados com sua temática: a luta dos Estados Unidos contra novos possíveis ataques terroristas. O cancelamento não foi de forma alguma dramático ou surpreendente, uma vez que há muito tempo a série já mostrava um certo desgaste, tanto na sua fórmula quanto na audiência. O roteiro que sempre seguia os mesmos trilhos (algo que falarei mais a frente) começou a cansar até mesmo os fãs mais fiéis, fazendo com que a audiência já não fosse a mesma das primeiras temporadas, caindo de 14 milhões de telespectadores (recorde conquistado na quarta temporada) para 9 milhões. 247Passados 3 anos do fim, a FOX anunciou que a série retornaria para mais uma temporada, denominada Live Another Day e que entraria no ar em 2014, sob o comando, claro, de Kiefer Sutherland como o agente Jack Bauer. A única diferença para as temporadas originais seria a redução de 24 episódios pela metade, resultando na omissão de algumas horas na narrativa em tempo real da série, o que, no final de contas, se mostrou uma atitude acertada, já que a trama ganhou agilidade e o conceito original da série em nada perdeu com essa alteração mínima. Nesta nona temporada, o ex-agente da CTU, Jack Bauer, retorna à ativa com a missão de impedir um ataque terrorista contra o Presidente dos Estados Unidos, James Heller (Willian Devane, retomando sua personagem da quarta e quinta temporada) em solo londrino, onde o Presidente encontra-se em negociações relativas ao uso de drones com o Primeiro-Ministro britânico, Trevor Davies (Stephen Fry). Ataque que justamente diz respeito ao uso dos próprios drones, sendo que seis destes pertencentes ao governo norte-americano teriam sido sequestrados por Margot Al-Harazi (Michelle Fairley, diretamente saída de Game of Thrones), a qual se prepara para lançá-los contra Londres nas próximas 24 horas, em uma clara retaliação ao ataque ordenado pelo presidente Heller que foi responsável por matar seu marido anos antes. 243Em termos de roteiro, Live Another Day não apresentou grandes inovações e seguiu a cartilha da série, executada com maestria desde a primeira temporada. Já no primeiro episódio encontramos um Jack Bauer desacreditado e tido como fugitivo, mas que nas próximas horas conseguirá atrair aliados para si devido ao fato de que é o único capaz de deter o ataque terrorista que deve atingir o presidente norte-americano. Mais tarde, quando estiver bem próximo de impedir o atentado, Jack ainda terá que lidar com um traidor infiltrado na CTU e que, vendo os avanços do agente, fará de tudo para impedi-lo. Mais para o final da temporada, o presidente norte-americano provavelmente sairá sã e salvo, mas algum personagem muito ligado a Jack morrerá, encaminhando a temporada e o seu protagonista para um final, claro, nada feliz. Seguir sempre os mesmos passos pode até ser algo desgastante e letal para a série, visto a previsibilidade que traz para a trama, e até foi, como disse em relação ao quesito audiência, que mesmo nesta retomada da série não foi das melhores (teve 8 milhões de espectadores em seu primeiro episódio e 6,5 em seu último). No entanto, os 4 anos de intervalo entre a oitava e a nona temporada deram ao público uma espécie de descanso em relação a fórmula, fazendo com que até mesmo sua previsibilidade tivesse ares de novidade em Live Another Day. Afinal, o apego às personagens é tão grande que chega-se a um ponto que, mesmo sabendo que algo ruim ou bom irá acontecer, é inevitável ficarmos na dúvida ou apreensivos, com aquela vontade incontrolável de invadir a série e ter o poder de mudar os acontecimentos. 245O carisma dos protagonistas, a retomada de antigos personagens da série e novas (e ótimas) carinhas também ajudaram a construir o sucesso dessa nova temporada. Kiefer Sutherland comandou brilhantemente mais uma vez o protagonista Jack Bauer, confirmando que é um dos melhores atores de TV na atualidade, ainda que pouco reconhecido. Kiefer consegue transmitir a Bauer uma frieza descomunal, dando ao agente especial uma imagem de que ele está sempre imune a qualquer tipo de dor ou sofrimento, o que talvez seja a razão pela qual ele se garanta tanto nas perigosas missões em que se arrisca. Por outro lado, a trajetória de Bauer é marcada por perdas irreparáveis, principalmente no âmbito amoroso. A começar pela morte de sua esposa, Teri, na primeira temporada, o protagonista teve que lidar com a morte de praticamente todas as mulheres que amou. Além disso, as poucas pessoas que admira e respeita são sempre as que acabam postas em risco, colocando o agente a maior parte do tempo em posição delicada. São justamente essas situações que acabam questionando a frieza de Bauer, a qual é descontruída de maneira sutil e leve por seu intérprete, expondo toda a sua sensibilidade, principalmente através do descontrole (a sequência do cargueiro em uma das últimas cenas da série é a prova viva disso). Ao lado de Bauer, sua sempre fiel escudeira: Chloe O’Brian (Mary Lynn Rajskub), que o acompanha desde a terceira temporada, sendo a personagem com maior regularidade na série, perdendo somente para Jack. Porém, se sua participação na série é regular, não se pode dizer o mesmo de sua personalidade. Como mostra seu novo visual, mais dark e gótico, Chloe está mais uma vez mudada – e dessa vez mais indecifrável do que nunca. Se a cara de interrogação de Mary Lynn já deixava as coisas difíceis antes para Chloe, aqui o distanciamento de Bauer, a proximidade com o hacker Adrian (Michael Wincott) e a perda do marido e do filho apenas a tornaram mais fechada e oprimida. Por outro lado, algo que parece nunca mudar em si é a sua inquestionável amizade com Jack Bauer, que fica ainda mais clara com a cena que encerra a série. 244Além dos dois protagonistas, outros velhos conhecidos do fã de 24 Horas voltaram a povoar essa temporada. O presidente Heller (antes no papel de Ministro da Defesa) e sua filha Audrey (Kim Raver) centralizam a série, sendo as vítimas em potencial do dramático dia para os ingleses e norte-americanos. Junto com os dois volta também a trama da quarta temporada, principalmente no que diz respeito ao relacionamento entre Jack e Audrey e o incidente envolvendo os chineses. Além disso, é preciso elogiar a excelente atuação de Raver, a qual comanda muito bem várias cenas com forte carga dramática, incluindo aquelas em que fica claro que a relação entre Jack e Audrey não morreu, algo que será decisivo no desenrolar dessa nova temporada. Devane como Heller, por sua vez, não traz grandes novidades, carregando uma atuação como um presidente que oscila entre a calma e a austeridade, tendo que lidar ainda com o Mal de Alzheimer recém-diagnosticado. Como era de se esperar, novas personagens também acrescentam à Live Another Day, sendo a principal delas a agente Kate Morgan, interpretada por Yvonne Strahovski. A princípio um encalço no caminho de Jack, ela acaba se tornando uma das poucas em quem ele pode confiar e uma chave para que o atentado terrorista seja evitado a tempo. Seu comprometimento com o trabalho e as sombras do passado também a tornam muito próxima de Bauer, fazendo de si quase que uma versão feminina do protagonista, algo que já havia sido feito outras vezes na série, como, por exemplo, com Reneé Walker na oitava temporada. Os outros novos agentes, Erik (Gbenga Akinnagbe) e Jordan (Giles Matthey) acabam perdendo espaço para a própria Kate, não tendo grande função na temporada e sendo muitas vezes até esquecidos pelo público. 246Há de se dar destaque também aos vilões, sempre clássicos na série: Wincott como Adrian, Fairley como Margot e Benjamin Bratt como Steve Navarro. Se Wincott e Bratt não conseguem impressionar tanto com seus vilões (nem sequer nos convencendo a odiá-los), o mesmo não se pode dizer da personagem de Fairley, a qual conseguiu sair perfeitamente da “mocinha” Catelyn Stark de Game of Thrones para encarnar aqui uma vilã totalmente vingativa e fria, capaz de ferir sem dó até mesmo as pessoas mais próximas de si, como prova sua relação com os filhos Simone (Emily Berrington) e Ian (Liam Garrigan). Deve-se lembrar também o “quase-vilão” Mark Boudreau de Tate Donovan. Sua personagem acaba sendo por oras muito mais irritante até mesmo do que Margot, ainda que no final aproveite a chance de se redimir e acabe tirando de si a possibilidade de ser um vilão completo. Por fim, é possível dizer que Live Another Day trouxe consigo os trágicos acontecimentos da oitava temporada do primeiro ao último minuto. Talvez toda a sequência de tragédias ocorridas em solo nova-iorquino tenham criado na série uma urgência por momentos ainda mais dramáticos do que os que vínhamos acompanhando ao longo das outras sete temporadas. Mais do que um Jack tentando evitar um ataque terrorista a todo custo, sobrou tempo para discutir relacionamentos mal-resolvidos do passado, abordar uma doença das mais graves (e tristes) da atualidade, falar sobre temas contemporâneos como os comuns ataques de hackers e o uso de drones pelo governo norte-americano, além de, como sempre, expor a linha tênue das relações diplomáticas entre os países em um mundo cada vez mais globalizado. 249Algumas notícias começam a trazer agora boatos de que a FOX poderia renovar a série por mais uma temporada. Boatos. Muito pouco prováveis ainda. Mas se haverá renovação ou não, isso é o de menos. 24 Horas já mostrou a todos que cumpriu o seu objetivo, de inovar na maneira de se narrar os eventos de uma série, ainda mais quando estes eventos são nada mais nada menos do que o medo da população norte-americana de uma ataque terrorista pós o marco que foi a derrubada das Torres Gêmeas. Hoje em dia o mundo é bem diferente do que era em 2001 e muitas outras séries têm se mostrado dispostas a tratar deste mesmo terror, como o sucesso Homeland, dos mesmos criadores da saga de Jack Bauer. Saber se tais séries terão a mesma duração e o mesmo apelo que 24 é difícil, mas, como disse, isso é o de menos. O importante é que todos aqueles que acompanharam os 204 dias na vida de Jack Bauer acompanharam também aquele que sempre será lembrado como um dos maiores heróis da televisão – um homem duro e ao mesmo tempo frágil que tinha nas suas costas todo o peso de uma nação e dos próprios fantasmas pessoais, que na maioria das vezes pesaram muito mais do que a necessidade de proteger o Presidente americano. Trailer: