MacacosposterNesses sete meses de trabalho no Pisovelho, tive a oportunidade de falar sobre alguns dos grandes blockbusters do final de 2013 e deste primeiro semestre de 2014. Foram eles: O Hobbit: A Desolação do Smaug, Robocop, X-Men: Dias de um Futuro Esquecido e mais recentemente No Limite do Amanhã. De uns tempos pra cá, meu tempo para assistir filmes e séries diminuiu radicalmente, então passei a ser mais seletivo na hora de escolher as obras para apreciar, principalmente quando se tratava de ir ao cinema presencialmente. Assim, esses foram alguns dos blockbusters que já havia selecionado e que tinha muita vontade de ver e que, realmente, não me desapontaram. Em todos os que mencionei, até gostei bastante do resultado final. No entanto, é triste apontar que até mesmo sob a direção de cineastas extremamente competentes, como Peter Jackson, Bryan Singer ou até mesmo o brasileiro José Padilha, sempre fica faltando algo para que o trabalho possa ser considerado extremamente marcante ou impecável. Esse “algo que falta” tem sido bastante comum no mercado dos filmes de grande orçamento e, na maioria das vezes, se encontra no ponto em que, próximo ao final, todos acabam descambando para longas sequências de ação que desviam até a concentração do espectador e que são o desperdício de um tempo de longa que poderia ser dividido (de forma muito lógica, até) em uma boa sequência de ação e cenas que intensificassem os conflitos e dramas da trama, destacando o trabalho de roteiro. Esse tipo de artifício era muito comum nos “filmes de verão” (de acordo com a estação do ano em que os grandes blockbusters são lançados nos Estados Unidos) da década de 80 e 90, possibilitando a ascensão de gênios da sétima arte como Steven Spielberg e George Lucas, que souberam explorar essa lógica a seu favor e construíram obras-primas que serão sempre lembradas tanto pelos cinéfilos quanto pelo grande público. Macacos3Há 3 anos atrás, era lançado Planeta dos Macacos: A Origem, um prólogo do clássico de 1968 estrelado por Charlton Heston. A Origem, muito bem intencionado e com um sábio uso da tecnologia, acabou se mostrando um filme eficiente, ainda que ficasse bem distante da profundidade do original e até mesmo de ser um blockbuster inesquecível do século XXI, não exatamente por apresentar os problemas que mencionei anteriormente (as intermináveis sequências de ação que deslocam o clímax do filme de todo o seu desenvolvimento), mas sim por se distanciar até demais deles, sendo um pouco chato em alguns momentos. Bom, é com muito orgulho que posso dizer que sua sequência, Planeta dos Macacos: O Confronto, não apenas corrige os erros de seu antecessor, como adiciona em grandes quantidades tudo que faltava nele, tornando-se sim um blockbuster de altíssima qualidade e que lembra – e muito – os grandes clássicos do cinema de aventura (se é que se pode classificar esse filme extremamente denso desta forma) dirigidos, principalmente, por Spielberg. Exatamente quinze anos após os eventos que encerraram A Origem, o cenário de O Confronto é bastante diferente. Os humanos encontram seu mundo praticamente destruído e vivem condenados a isolação como em bases militares, tudo devido ao enfrentamento com os macacos e o surgimento de um vírus letal, o da Gripe Símia. Por outro lado, os símios liderados por Caesar (Andy Serkis) agora vivem de forma tranquila em uma sociedade própria, com suas próprias regras e sem qualquer aproximação com os humanos restantes, fazendo com que eles até acreditassem no desaparecimento da nossa espécie. Essa crença, no entanto, é abalada quando Carver (Kirk Acevedo), pertencente a um grupo que busca uma represa próxima a onde vivem os macacos para a geração de energia, atira e mata um primata. Esse momento, que poderia se tornar um grande entrave entre macacos e humanos, acaba na verdade se tornando a oportunidade do grupo liderado por Malcolm (Jason Clarke) de se aproximar de Caesar e seus companheiros para conseguir enfim explorar a represa. A grande rejeição dos macacos aos humanos devido aos eventos do primeiro filme se mostra, no entanto, como um fator que dificultará essa aproximação e poderá encaminhar os dois grupos para um grande e doloroso confronto. Macacos4É sabido por todos que o ser humano e o macaco (o chimpanzé, mais especificamente) possuem um ancestral comum, da qual derivou sua evolução e a diferenciação entre as espécies, explicação iniciada por Charles Darwin e que foi ganhando corpo com o passar do tempo, principalmente com os primeiros estudos de genética. Essa aproximação entre as duas espécies é o que permite o cinema sempre coloca-las frente a frente, uma vez que a única (porém essencial) diferença (além do físico e dos níveis de inteligência) entre os dois foi a formação da sociedade humana, enquanto o primata permaneceu vivendo em seu estado de natureza. A História humana, que o colocou na organização em Estado em detrimento da manutenção do estado natural, foi tema de estudo e de divergência até de grandes figuras da filosofia, como os filósofos Rousseau e Hobbes. Rousseau, como iluminista, defendia que o homem era melhor enquanto pertencente ao meio natural, enquanto Hobbes, como teórico absolutista, defendia que o homem na natureza vive em constante estado de guerra, a medida que o surgimento de um Estado seria a única coisa capaz de manter a ordem. Explano sobre tudo isso porque é justamente a ideia que Planeta dos Macacos debate. Neste filme, os humanos não estão mais acomodados em suas casas, presos ao seu dia-a-dia de trabalho para que possam ganhar seus salários e usufruir do poder do capitalismo. Muito pelo contrário. O único reduto de humanos sobreviventes a que somos apresentados vive em condições extremamente precárias, amontoados no que restou das cidades, que se tornaram mais parecidas com bases militares do que com outra coisa. Não há mais a busca pelo lucro e nem mesmo pela felicidade, sendo que a única busca que existe é a busca pela sobrevivência. MacacosOs macacos liderados por Caesar não vivem em situação muito diferente, uma vez que se agrupam no meio da floresta, sem qualquer outro objetivo que não seja a liberdade e a distância dos humanos, que já os fizeram tão mal. Em outras palavras, também procuram sobreviver. A grande diferença é que, ao contrário dos seres humanos, os macacos nunca conheceram outra forma de vida. Mesmo trancados em jaulas e maltratados por aqueles que se divertiam ao ver os animais que consideravam inferiores, os símios sempre desejaram voltar para aquele que é seu lar, a floresta, para poder viver em paz com seus companheiros de espécie e cumprirem seu ciclo. Nunca foram iludidos pelas ideias utópicas de busca da felicidade através da plenitude, de honra através do trabalho, ou muito menos da necessidade de uma moeda que determinasse todo o seu modo de vida e os condenasse à pobreza ou à riqueza. Eles nunca abandonaram os ideais de estado de natureza, enquanto os humanos só desejam sair dele (destaque para os momentos em que a personagem de Gary Oldman, Dreyfus, diz que a energia gerada pela represa pode ser o início da reconstrução da civilização). Macacos8Quem é melhor? O humano ou o macaco? Ah, o humano mata, faz guerra… Mas o macaco também faz, tanto que é ele que inicia o conflito nesta sequência, ainda que tudo tenha sido gerado pelo ódio à maldade humana. A verdade é que discutir para saber quem é melhor não importa, porque, a partir do momento em que o confronto do título é estabelecido, homem e macaco são iguais. Não há qualquer diferença. Os macacos querem viver. Os homens também querem. Os macacos querem destruir os homens. Os homens querem destruir os macacos. O homem perdeu tudo que tinha e agora vive praticamente isolado, quase sem rastro de civilização. O macaco foi retirado de onde vivia, levado à civilização e trazido de volta ao estado natural, mais uma vez distante da civilização. Esta é a grande questão e o grande trunfo do filme. Quando lemos que uma das regras dos símios é que “macaco não mata macaco” e vemos os macacos matando a si próprios para sobreviver, ou quando vemos um homem apontando a arma para um companheiro para conseguir o que conquista, é porque os dois ali se encontram no mesmo patamar, disputando a vida com suas próprias vidas. A guerra e a luta entre os membros da mesma espécie é algo que o ser humano faz desde sempre, mas que muitas vezes passa despercebido por nossos olhos, ou que – propositalmente – ignoramos, crendo ser normal deixar esse tipo de informação no “modo automático”. “Ah, bombardeamentos na Faixa de Gaza? Isso é normal. Muda de canal, já estamos carecas de ouvir falar de disso”. E o homem segue mudando de canal. No entanto, é quando ele vê toda sua civilização ser destruída por animais que sempre julgou inferiores que ele se dá conta dos terrores de uma guerra e do valor que cada vida tem, independente de qualquer outro fator (ou já chegamos a ponto de nos esquecer do direito universal?). Ao apresentar cenas de ação com esse propósito, Planeta dos Macacos cumpre o objetivo de levar o espectador à reflexão e à revisão de conceitos. Objetivo que não é apenas deste filme ou do cinema, mas sim da Arte como um todo. Macacos11O roteiro de Mark Bomback, Rick Jaffa e Amanda Silver, ciente das múltiplas situações que podem ser abordadas e do poder da trama que tem em mãos, não perde tempo. Não há, como em A Origem, momentos de pura exaltação da personalidade das personagens ou de contemplação dos cenários da trama, uma vez que, como todo caos, tudo exige urgência. Entretanto, essa urgência não vem na forma de inúmeras e cansativas sequências de ação (que são bem poucas até, por sinal), mas sim na forma de inúmeros conflitos entre as personagens no decorrer do filme. O drama e a intensidade encontram-se presentes durante todo o desenvolvimento do roteiro, desde a morte do primeiro macaco nas mãos de um humano, já nos primeiros minutos do filme, até a reviravolta que o confronto sofre em seu clímax. É nesse ponto que O Confronto se diferencia dos blockbusters que mencionei no começo e se distancia dos problemas enfrentados por boa parte dos filmes do tipo: aqui os conflitos não são feitos por meio de tiros ou objetos voando, mas sim através de diálogos e situações que mostram o potencial devastador de tudo que está acontecendo com a Humanidade. A direção de Matt Reeves também é bem mais madura que a de Rupert Wyatt, sabendo acompanhar perfeitamente o forte roteiro que tem em mãos. Nesse sentido, essa sequência talvez seja a mais próxima do filme original de 1968 do que todos os outros filmes da série produzidos em seguida. Reeves deixa de lado toda e qualquer possibilidade de alívio cômico (ufa!) ou de perder minutos com planos que explorem a beleza da paisagem, concentrando-se em mostrar a diferença entre os mundos dos humanos e dos macacos, ainda que ambos sejam sombrios. Vale destacar os momentos em que o diretor explora os vestígios de humanidade nos sobreviventes enquanto eles dançam livremente ao som de músicas antigas, mas que os remetem aos tempos de civilização. A cena do diálogo entre Caesar e Maurice (Karin Konoval) em que eles comentam sobre passado e presente também é belíssima e talvez seja a maior prova da evolução dos símios enquanto sociedade depois da tomada da Ponte em A Origem. O diretor também não economiza em cenas de violência e forte impacto emocional para carregar ainda mais seu filme, algo que pode chocar aqueles que foram ao cinema buscando cenas fofas como as que ilustravam a relação entre Will (James Franco) e Caesar no longa anterior. Macacos10Quando me referi à semelhança com os grandes filmes de Spielberg no início da crítica, me refiro a uma semelhança tanto na direção quanto no roteiro, mostrando que ambos beberam fortemente da fonte do diretor (quando este ainda passava por sua melhor fase, claro). O roteiro tem como fio condutor o drama da disputa entre animais e seres humanos, em que os animais acabavam sempre obtendo vantagem, como mostrado nos clássicos Tubarão e Jurassic Park, por exemplo. Contudo, esse drama é mostrado tanto de um ponto de vista mais sério como do Planeta dos Macacos original, quanto do ponto de vista de uma eletrizante história de aventura. A direção de Reeves também lembra em muito a visão de Steven, principalmente em relação a Jurassic, uma vez que temos humanos lutando pra sobreviver em pleno território animal em uma batalha que parece praticamente invencível. Na cena do grupo voltando da floresta para o alojamento logo após o assassinato de um símio do grupo de Caesar, é impossível não se lembrar de uma das primeiras cenas do filme dos jurássicos. E já que a intenção de Reeves é criar um clima obscuro e de poucas expectativas, é inegável o excelente trabalho de fotografia de Michael Seresin. Como já disse, não há tempo para contemplar paisagens, mas apenas para mostrar como elas contribuem para tornar o filme ainda mais denso. Tanto as florestas quanto o ambiente humano são representados em cores frias que pendem para um melancólico azul o tempo todo, como se todas as personagens do filme vivessem em um rigoroso inverno eterno. A trilha sonora do sempre ótimo Michael Giacchino (é quase inevitável deixar de notar a praticamente onipresença do compositor em obras que se passem em ambientes naturais, indo desde a série LOST até a última adaptação de O Elo Perdido para os cinemas, passando pelos games de Jurassic Park) também contribui para a criação de um ambiente tenso, além de fazer uma suave (e quase imperceptível em alguns momentos) homenagem à clássica trilha de Jerry Goldsmith do Planeta dos Macacos original. Macacos12Em termos de atuação, o filme continua muito dependente da tecnologia de captura de movimentos, sem a qual talvez perdesse boa parte do seu brilho nos dias atuais (e se este exemplar perderia o brilho, seu antecessor não existiria). No entanto, ainda sim é preciso destacar o trabalho de Andy Serkis, o qual mantém boa parte das personagens marcantes movidas por computação gráfica do século (o Gollum de O Senhor dos Anéis e O Hobbit e o King Kong de Peter Jackson são as maiores delas, apesar de que admiro muito seu trabalho como o Capitão Haddock de As Aventuras de Tintin) e que ainda não foi devidamente reconhecido, mesmo após a grande campanha para uma indicação ao Oscar 2012, que acabou não acontecendo. Ele traz de volta o Caesar do final de A Origem, um macaco que carrega em seus olhos ainda a decepção e o ressentimento dos humanos (que o diga a excelente e impactante cena que abre este filme) mas que também sabe reconhecer a bondade nestes, além de levar de forma muito leal e sincera sua relação com todos os outros macacos. O perigoso e ambicioso Koba (também um excelente trabalho de Toby Kebbell) apresenta justamente o contraponto a toda a personalidade de Caesar, causando na plateia um choque (proporcional à possível alienação do espectador) por ser um macaco cujo interior nada mais é do que o de um humano, ideal que recusamos muito a combater por ser a nossa própria representação. Por fim, as personagens live-action acabam até perdendo espaço devido ao grande trabalho de computação gráfica dos macacos e sua importância para a trama. A família do protagonista Malcolm, completada pelas personagens da atriz Keri Russell e do jovem Kodi Smit-McPhee, não convence, por mais que tente-se o tempo todo fazer com que criemos algum laço emocional com os mesmos. Essa falta de apelo se dá tanto pela falta de expressividade dos atores escolhidos para os papéis quanto pelo próprio roteiro, que optou por tornar os macacos os grandes protagonistas da trama – decisão muito justa, por sinal. A personagem de Gary Oldman, que poderia ter tido um destaque maior devido a excelência de seu intérprete, também não empolga, se mostrando uma personagem extremamente dúbia, em que não conseguimos interpretar seus sentimentos ou sua forma de pensar de maneira certeira em nenhum momento da obra (ele comove ao chorar vendo uma foto de sua família, mas rapidamente passamos a rejeitá-lo quando ele se mostra um percalço no caminho do plano de Caesar e Malcolm, próximo ao final). Macacos9Bom, felizmente, estes pequenos tropeços do elenco não prejudicam em nada o resultado final do filme, o qual acaba se mostrando uma dupla inspiração. É uma inspiração para a própria Hollywood, mostrando que é possível sim fazer dinheiro de forma inteligente e fazendo com que possamos vislumbrar blockbusters melhores ou, no caso das franquias que já são boas, que se tornem memoráveis. E é uma inspiração para o próprio público do filme, que não deve vê-lo apenas como uma peça de entretenimento, mas também como um instrumento de reflexão acima do que acontece no mundo ao seu redor. Afinal, à primeira vista esta talvez seja uma civilização da qual nos orgulhemos, mas basta olhar uma segunda vez, de maneira mais atenciosa e mais crítica, pra perceber que muita coisa está errada. Incluindo a própria maneira como o futuro do homem caminha. Trailer: Dawn of The Planet of the Apes
EUA , 2014 – 130min
Ação Direção:
Matt Reeves Roteiro:
Rick Jaffa, Amanda Silver e Mark Bomback Elenco:
Andy Serkis, Jason Clarke, Gary Oldman, Keri Russell, Toby Kebbell, Kodi Smit-McPhee, Judy Greer Foda photo Foda.png