Noe Darren Aronofsky é um dos diretores que fazem parte do chamado cinema autoral. Um cinema que o diretor tem grande domínio e liberdade criativa com a sua obra. Assim, fica fácil ligar certas características que eles repetem em seus filmes, como os temas, por exemplo. Martin Scorsese e seus anti-heróis, Paul Thomas Anderson e a relação de pai e filho, os irmãos Coen e seus personagens fracassados, e assim por diante. Darren é conhecido por se interessar por personagens obcecados, e qual será a consequência desta obsessão em suas vidas. Só para citar alguns exemplos, temos o cientista Tommy em Fonte da Vida e a bailarina Nina em Cisne Negro. Dois personagens que são transformados por sua obsessão, levando ela até as últimas consequências. Então, não é surpresa nenhuma que o diretor tenha se interessado em recontar (ou reinventar) a história de Noé que, afinal, é um homem obcecado por uma missão divina e fará de tudo para que ela seja cumprida, até se for preciso enfrentar sua própria família. Noe8A história bíblica de Noé já é de conhecimento popular, mas Darren não está interessado em apenas retratar o que está na bíblia, o foco do diretor está no homem, não no mito. O roteiro  foi escrito juntamente com Ari Handel, tendo como início a explicação de quando surgiu o pecado entre os humanos. Adão e Eva foram corrompidos pelo fruto proibido, e deste a morte de Abel por Caim (o gesto da mão com a pedra será repetida diversas vezes numa insegurança do diretor, duvidando que o público lembre disso em um momento crucial do filme), os seres humanos se dividiram entre duas linhagens: os homens de Caim e os herdeiros de Sete (o terceiro irmão). Esses herdeiros são os responsáveis por cuidar e respeitar o que o Criador construiu na Terra, e Noé (Russell Crowe) é o atual protetor. Reparem que Deus, no filme, é tratado como o Criador, sem nenhum conceito de religião, e sim como um ser onipresente que pode tanto criar e também destruir segundo sua vontade. Com este poder, ele é representado como o principal antagonista do filme, deixando o impactante rei Tubal-cain (Ray Winstone), apenas como imagem de seu erro em ter criado os homens. Para reforçar isso, o diretor não esconde as consequências que o genocídio mundial do Criador causou, revelando as pessoas morrendo afogadas, enquanto, desesperadas aos gritos, tentam se agarrar em uma montanha. Deixando de lado, qualquer dúvida que poderiam ter do filme ser uma propaganda religiosa. Noe7O filme pode ser dividido em duas partes: a primeira que desenvolve a relação entre os personagens, os sonhos de Noé e a construção da arca. Esta parte que culmina na batalha entre os homens e Noé, se assemelha muito mais a uma fantasia, remetendo a obras como O Senhor dos Anéis e Harry Potter, em que os guardiões poderiam fazer parte de qualquer um desses filmes. Só lembramos que é uma história bíblica por causa de seu plot.   Na batalha, Darren mostra uma segurança invejável em conduzir as cenas de ação, com efeitos visuais belíssimos (exceto pelos animais artificiais), revelando uma ótima mão para blockbusters. Queria ter visto os rostos dos produtores de Wolverine – Imortal ao verem o que ele poderia ter feito com o herói da Marvel. E para ajudar no clima de tensão, a trilha sonora de Clint Mansell que, mesmo não compondo uma música-tema memorável como em outros trabalhos, conduz com maestria as cenas. Noe5Na segunda parte, quando Noé e sua família estão seguros dentro da arca, o filme cresce, deixando de ser um blockbuster para um estudo de personagem ao estilo  Aronofsky. Se o perigo no exterior da arca eram os homens, agora no interior, será o conflito interno que Noé sofre em levar seu objetivo até o fim, já que ele chega a conclusão que todos os humanos devem morrer, principalmente ele e sua família. Assim, ao descobrir que a mulher de seu filho, Ila (Emma Watson), está grávida, decide matar a criança se ela nascer uma menina, para impedir a linhagem dos humanos. De um homem pacificador e amado pela família, Noé se transforma em um homem louco e cegado pela obediência ao Criador, que o abandona a mercê de suas escolhas. Nesta parte, sobra belas atuações da maioria do elenco, menos dos três filhos de Noé, que estão ali apenas para ocupar cenário. O que é uma pena, pois Logan Lerman recebeu um papel importante como Ham, mas o limitado ator não consegue variar muito nas expressões. Contudo, o maior destaque fica mesmo para Crowe que se transforma durante as duas partes da história, tendo que transmitir diversos sentimentos de um personagem complexo e apaixonante.   Noe6Outro ponto interessante, é que o filme não abraça totalmente o criacionismo, conseguindo unir, de uma maneira bem inteligente, ao evolucionismo. Esta união é evidente na sequência sobre a criação do Universo. Um dos momentos mais belos não só do filme, mas da história do Cinema. Uma sequência que ganha força com uma vivíssima fotografia de Matthew Libatique. Durante o filme, ele contrasta perfeitamente a beleza da natureza com a destruição do ser humano. Provocador, reflexivo sobre a condição humana e um ótimo blockbuster, Noé discursa sobre o Homem, como espécie, que recebeu um presente que é viver neste paraíso, porém ele insiste em destruí-lo, insiste em ser superior, entrando em um caminho de autodestruição sem volta. Nossa próxima extinção não será através da água ou do fogo, mas de nós mesmos.  Trailer: Noah
EUA , 2014 – 138 minutos
Épico Direção:
Darren Aronofsky Roteiro:
Darren Aronofsky, Ari Handel Elenco:
Russell Crowe, Ray Winstone, Jennifer Connelly, Emma Watson, Anthony Hopkins, Logan Lerman, Douglas Booth Otimo photo Otimo.png