AmanhaNa onda do fluxo temporal, No Limite do Amanhã é mais uma das ficções científicas recentes que tratam – junto a boas doses de ação e romance – de experiências com o tempo. No longa dirigido por Doug Liman, o fato de reconhecermos na trama elementos já vistos em muitos outros filmes trabalha tanto a favor quanto contra, trazendo previsibilidade em alguns momentos, mas tornando o filme mais divertido em outros.

Aqui Tom Cruise interpreta Cage, assessor de imprensa do Exército que se vê obrigado a lutar sem experiência alguma em uma das batalhas mais importantes em meio a um mundo que sofre ataques de alienígenas (chamados de miméticos) e cujos países são colocados uns contra os outros devido a isso. Sua falta de habilidade acaba fazendo com que ele morra rapidamente da batalha, porém, surpreendentemente, ele acaba retornando imediatamente para o início do seu dia até que morra novamente. Com a ajuda de Rita (Emily Blunt), Cage descobre, no entanto, que essa sua capacidade de resetar o dia pode se tornar uma grande arma contra os miméticos. Ainda que prejudicado em alguns momentos por um Cruise mediano e pelo excesso de comicidade, No Limite do Amanhã termina por se mostrar um filme divertido e bem roteirizado dentro de seus objetivos como longa de ação, mesmo que diminuído caso comparado a exemplares recentes de temática parecida, como o ótimo Contra o Tempo. Nota: Bom Pele Tecnicamente estonteante, com um roteiro de dar nós na cabeça de qualquer um e com uma das melhores atuações da atualidade: é assim que se pode resumir Sob a Pele, novo filme do diretor Jonathan Glazer e que causou polêmica recentemente por apresentar cenas de sua estrela, Scarlett Johansson, completamente nua. O filme começa com o ser interpretado por Scarlett chegando ao nosso planeta, onde iniciará uma caçada cruel para sua sobrevivência, mas que acaba expondo nossa fragilidade enquanto seres humanos. Tal fragilidade acaba sendo ainda mais explorada conforme a protagonista vai se distanciando de sua natureza e se aproximando de nossas características como humanos. Essa experiência acaba se tornando um doloroso autoconhecimento que a fará passar por situações com uma crueldade que desconhecia quando ainda era distante de nós humanos; quando ainda não sofria com os sentimentos (ou com a ausência deles). É difícil descrever a maneira como o diretor consegue encher nossos olhos através de cenas de uma precisão e habilidade técnica incrível e também como consegue – por meio de pouquíssimas palavras (ainda que com a ajuda da melhor atuação da carreira de Johansson) – fazer com que reflitamos acerca de nossa natureza fraca e perversa. Nota: Foda Normal Depois de Behind the Candelabra, é a vez de The Normal Heart, novo filme da HBO que já abocanhou 16 indicações ao Emmy e que ainda possui uma longa estrada de premiações pela frente. Nada mais justo, uma vez que, junto a Clube de Compras Dallas, o longa mostra de maneira crítica e ao mesmo tempo sensível a luta contra a AIDS na década de 1980 nos Estados Unidos. No filme de Ryan Murphy é narrada uma história baseada na própria trajetória de vida do autor da peça que originou o roteiro, Larry Kramer. No início dos anos 80, são identificados os primeiros casos do vírus HIV – ainda que não associados ao vírus em si – que, devido ao fato da doença nunca antes ter sido vista e só vitimar (a princípio) homossexuais, acaba ficando conhecida como uma “epidemia gay” e sendo tratada com descaso pelo governo. Em meio a essa negligência, um grupo que se dedica a cuidar da saúde dos homossexuais do país passa a travar uma importante e complicada luta política contra os governantes norte-americanos. Lotado de atuações arrebatadoras como as de Mark Ruffalo, Matt Bomer, Joe Mantello e Julia Roberts, o longa é um retrato angustiante e sufocante de uma luta política em meio a inúmeras e trágicas mortes ainda sem qualquer explicação, as quais acabaram por colocar em cheque os próprios limites dos envolvidos, como pode se comprovar através de belíssimas cenas como as que encerram esse brilhante filme. Nota: Foda Hoje Praticamente uma continuação do curta de sucesso Eu Não Quero Voltar de Sozinho de 2010, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho volta a debater temas polêmicos presentes no curta: a cegueira, a homossexualidade e o amor na juventude. Felizmente, com o mesmo sucesso. O filme dirigido por Daniel Ribeiro (mesmo diretor do curta), volta a contar a história do garoto Leonardo (Guilherme Lobo), o qual, além de ter que lidar com a deficiência visual, com os pais superprotetores e com o bullying na escola, tem que lidar com o amor que sente por seu mais novo colega de sala, Gabriel (Fábio Audi). Como se não bastasse, sua forte amizade com Giovana (Tess Amorim) é abalada pelo ciúme de seu relacionamento com Gabriel. Ainda que optando em não correr grandes riscos durante boa parte da projeção e com um final que opta por uma saída simples e direta, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho é um ótimo exemplo de filme que consegue nos trazer a sensação de leveza e plenitude durante toda a sua exibição, isso graças à naturalidade com que o romance dos protagonistas é tratado e, claro, com a ajuda de artifícios como as excelentes atuações e a escolha da trilha sonora, que engrandecem o seu brilho como um dos melhores filmes nacionais do ano. Nota: Ótimo MissViolence_Posters_RHD Própria encarnação da tragédia grega, Miss Violence se inicia com Angeliki (Chloe Bolota) saltando da janela de seu apartamento em meio à festa de seu aniversário de 11 anos, comemorada entre os familiares que moram consigo. A partir daí, seguem-se momentos difíceis na família, a qual acaba se desestruturando totalmente até chegar a ponto de revelar segredos que se encontravam enterrados até a morte da filha mais velha. Dirigido com a costumeira frieza do diretor Alexandros Avranas, o filme começa em um ritmo extremamente lento e que não parece querer revelar muito a respeito de suas personagens, as quais permanecem enigmas completos até praticamente metade da duração. A partir daí, conforme os segredos da família vão se desenrolando, um ritmo diferente e mais dinâmico é impresso ao filme, tornando-o muito mais agradável de ser acompanhado, ainda que essa segunda metade contenha cenas muito mais densas que a primeira. Mesmo com integrantes do elenco que nem sempre impressionam, é louvável a maneira como o roteiro (assinado pelo próprio diretor em parceria com Kostas Peroulis) consegue nos levar da indiferença ao desprezo através da exploração de temas extremamente delicados, como o suicídio e o abuso sexual, praticamente tabus em plena sociedade do século XXI. Nota: Ótimo