X9 Na situação atual do cinema, os blockbusters têm ganho cada vez mais espaço nas telonas, principalmente quando se trata de sequências, remakes e reboots. Os dois primeiros já são velhos conhecidos do público, porém o último desses subgêneros, os reboots, estão mais comuns do que nunca. Conhecidos por serem o início de novas franquias contadas a partir de um diferente ponto de vista, eles tem como alvo especial os filmes de heróis ou franquias de grande sucesso no passado, como ocorreu em O Espetacular Homem-Aranha, Batman Begins, Homem de Aço, Star Trek, Planeta dos Macacos – A Origem, dentre muitos outros, algumas vezes com sucesso e outras nem tanto. Um dos recentes alvos desse tipo de produção foi a série X-Men, a qual, vindo de uma trilogia de grande sucesso do início dos anos 2000, encontrou novos ares em 2011 nas mãos do diretor Matthew Vaughn com X-Men: Primeira Classe, produção que teve muito sucesso tanto de crítica quanto de bilheteria ao contar o início da trajetória dos mutantes, algo que não havia sido apresentado ao público anteriormente. Três anos depois, o diretor Bryan Singer – de X-Men e X-Men 2 – retorna para uma “quase-continuação” de Primeira Classe, investindo em uma tática pouco comum: promover um encontro entre os ícones da franquia original e da mais recente, iniciada em 2011. X1Em X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido, a mutante Kitty (Ellen Page) encontra uma forma de enviar seus colegas ao passado, para que eles possam encontrar a si próprios e tentar impedir o avanço das máquinas Sentinelas, as quais se tornaram uma máquina letal de caça aos X-Men. Vendo tal estratégia, o professor Xavier (Patrick Stewart) sugere que Wolverine (Hugh Jackman) retorne ao início dos anos 70, para que possa encontrar a si próprio (James McAvoy) e Magneto (Michael Fassbender) ainda jovens e persuadi-los a lutar para evitar que Mística (Jennifer Lawrence) assassine o criador dos Sentinelas, Dr. Trask (Peter Dinklage), pois foi este o dia em que as máquinas ganharam força e que o futuro dos mutantes passou a ser ameaçado definitivamente. Fazer com que passado e futuro se encontrem – e portanto as duas franquias – foi uma escolha arriscada por parte do roteiro de Simon Kinberg? Nem tanto. Na verdade, foi uma escolha mais inteligente do que arriscada, pode-se dizer. O motivo para isso é relativamente simples. Quase todos os reboots já nascem fadados a um risco iminente, o de não encontrar novamente o público que glorificou a série no passado, e esse risco muitas vezes acaba sendo extremamente certeiro, gerando produções decepcionantes principalmente quando comparadas a suas obras originais. No entanto, desde o primeiro X-Men, exibido nos cinemas no longínquo ano de 2000, os roteiros tem-se dado a um trabalho pouco convencional no universo dos blockbusters: trabalhar a personalidade de cada um de suas personagens a fim de fazer com que estas personagens criem laços quase íntimos com o público que as acompanha. X5A princípio, tal escolha pode parecer elementar, uma vez que, desde as HQs, é mais do que essencial trabalhar a personalidade dos X-Men, pois, ao contrário da maioria das produções, não se trata de apenas um único herói, mas de um grupo deles e cada um com características completamente distintas um do outro, sendo que são justamente essas características que indicam os conflitos que os protagonistas enfrentarão no período em que vivem e entre si próprios, em um outro diferencial da série. No entanto, ainda que elementar, tal trabalho poderia acabar tendendo a ineficiência se não fosse a regularidade e seriedade dos roteiristas envolvidos na trilogia original, além do excelente trabalho de Bryan Singer e Brett Ratner (diretor de X-Men: O Confronto Final), os quais foram responsáveis por gerar uma das franquias mais lucrativas e queridas pelo público. Porém, como já disse anteriormente, o reboot de X-Men poderia ter colocado a perder tudo que a trilogia anterior conquistou, e Hollywood tem muitos exemplos desse tipo de ocorrência em suas produções, o que aumentou ainda mais a responsabilidade nas mãos do diretor Matthew Vaughn, responsável por Primeira Classe. Entretanto, felizmente, o projeto acabou se mostrando uma grata surpresa, sendo não apenas fiel ao espírito da trilogia original como tão excelente quanto os seus antecessores, apresentando um filme lotado de referências históricas e que nos aprofundou ainda mais acerca da psicologia de cada um dos protagonistas da série, brilhantemente interpretados por Michael Fassbender e James McAvoy, em escolhas que não poderiam ter sido mais acertadas. X4Dessa forma, ao unir dois trabalhos brilhantes, a chance de Dias de um Futuro Esquecido dar errado era baixíssima, até porque, mais do que as personagens, se encontram reunidos nessa produção os responsáveis pelas duas franquias, com Singer na direção e Vaughn ajudando no processo de construção do roteiro. Assim, desde a primeira aparição dos “velhos” Magneto, Professor X, Tempestade e Wolverine – todos de volta pela primeira vez desde O Confronto Final, exceto por Wolverine, que ganhou dois desastrosos filmes-solo nesse meio tempo (veja os comentários do primeiro e segundo filme) – já passamos a nutrir expectativas acerca do encontro destes com aqueles outros que ganharam nosso coração tão rápido e facilmente, suas versões jovens. O encontro, até por motivos da trama, acaba ocorrendo muitas vezes indiretamente, uma vez que o único integrante do futuro a viajar para o passado acaba sendo Logan, mas isso acaba se mostrando extremamente positivo, pois, convenhamos, o futuro dos mutantes já é mais do que conhecido por nós e falta apenas desvendarmos mais a fundo como tais personagens chegaram até ali através do conhecimento de seus passados. Nisso, um dos grandes pontos positivos de Primeira Classe está de volta: inúmeras referências e alusões aos períodos históricos atravessados pelos mutantes, dentre eles a Guerra do Vietnã e o assassinato do presidente Kennedy, em um excelente trabalho de design de produção de John Myhre, o qual, junto à direção de arte do filme, garante um ambiente elegante e vintage que só tem a adicionar à sensação de conforto perante a trama. X2Esse clima de conforto é gerado exatamente pelo excelente trabalho de aprofundamento da personalidade das personagens feito ao longo de cada filme da série, fazendo com que tudo que seja impossível sermos indiferentes a tudo que acontece na tela. Por exemplo, na maioria dos blockbusters, é comum acompanharmos toda a ação que ocorre, mas dificilmente acabamos por escolher um lado e torcer veemente para a vitória ou derrota de tal personagem, o que não ocorre neste filme. Desde o primeiro momento de Wolverine no passado, já estamos torcendo para que tudo dê certo e para que as máquinas Sentinelas sejam eliminadas, ajudando assim no futuro dos mutantes. Da mesma forma, é impossível não criar uma conexão com os dois grandes protagonistas do filme, Magneto e Xavier, responsáveis por uma das rixas mais famosas da história do cinema e que no passado encontram-se mais distanciados do que nunca. Com personalidades e atitudes completamente opostas, cada um nos atrai a sua forma e o fato de estarem em plena efervescência da sua juventude e mais inconsequentes do que nunca, as características marcantes de cada um passam a ser ainda mais presentes. Porém, além dos dois heróis principais, há muitos outros personagens carismáticos no passado, como o mutante Mercúrio (Evan Peters), que já nos conquista com sua primeira cena, e a Mística de Jennifer Lawrence, que, assim como na trilogia original, tem papel extremamente importante para o desenvolvimento do enredo. XPor falar em Mercúrio, é impossível não reparar naquela que é uma das cenas mais marcantes dos blockbusters dos últimos tempos (em grande mérito também da excelente equipe de efeitos visuais do filme), aquela em que, em meio ao resgate de Magneto do Pentágono, o jovem (e veloz) mutante tem a tarefa de, com o tempo correndo lentamente, parar as balas que caminham em direção a Wolverine, Charles e Magneto. Ao som de Time In a Bottle. A brilhante cena é uma verdadeira aula de como conseguir utilizar alívios cômicos sem tirar a seriedade dos filmes, o que é uma das maiores dificuldades do cinema atual. O cuidadoso trabalho de roteiro contribui para a criação de uma atmosfera em que os alívios cômicos surgem de uma forma leve e associada aos personagens corretos, sem se mostrarem excessivos, grotescos ou equivocados em nenhum momento. A genialidade por trás desta cena é tão grande que ao mesmo tempo que rimos com a excentricidade de Mercúrio, ficamos com os olhos brilhando perante a beleza da cena que decorre. X3A escolha do elenco também é mais do que acertada, reunindo alguns dos melhores atores do cinema atual. Michael Fassbender, praticamente descoberto em Primeira Classe, já acumula atuações mais do que merecedoras de uma indicação ao Oscar; James McAvoy é a perfeita encarnação da juventude e das transformações ocorridas com o Professor Xavier; Jennifer Lawrence tornou-se a queridinha do cinema e aqui nos presenteia com uma atuação completamente livre de caricaturas ou caras e bocas (como em Trapaça); Peter Dinklage é uma das maiores promessas do cinema atual e aqui impressiona ao conduzir uma personagem totalmente oposta ao querido personagem de Game of Thrones, o anão Tyrion Lannister; por fim, Patrick Stewart e Ian McKellen tem uma carreira já tão consolidada e acarinhada pelo público que são capazes de nos agradar até mesmo com participações pequenas. O único ponto negativo de X-Men: Dias de um Futuro Esquecido acaba sendo o desgaste de alguns personagens, como é o caso de Wolverine. Ainda que extremamente importante dentro da série, o personagem já acumula aparições em sete filmes, sendo cinco deles dentro da série oficial dos mutantes e dois filmes-solo, que acabaram dando muito errado e piorando ainda mais a relação do público com a personagem, a qual é agravada com o fato de ser Hugh Jackman o intérprete da personagem em todos os filmes. Outras personagens, como a Tempestade de Halle Berry, também acabam se mostrando pequenos acessórios em meio a toda a ação da trama, ainda que uma parcela de culpa (ou não) disso caiba ao carisma dos mutantes jovens, que acabam ocupando a grande parte das nossas atenções em meio ao filme. X6Por fim, é de se suspirar aliviado ao ver que, depois de quatro filmes excepcionais, esse quinto exemplar tenha dado tão certo e feito jus a excelência de seus antecessores. Visto a cena pós-créditos (e conhecendo a maneira como Hollywood tem trabalhado ultimamente) é difícil prever quantos filmes mais a série terá, mas, ainda que sem ter informação, somente esperamos que, assim como Dias de um Futuro Esquecido, eles possam manter o alto patamar de qualidade da franquia, o que faz com que ela seja uma das poucas que tenha durado por tanto tempo sem perder o nível em nenhum momento, atraindo uma legião de fãs que não vê a hora de reencontrar seus personagens favoritos, seja no passado, presente ou futuro. E confesso, eu sou um deles. Trailer: X-Men: Days of Future Past
EUA , 2014 – 131 min.
Aventura Direção:
Bryan Singer Roteiro:
Simon Kinberg, Jane Goldman e Matthew Vaughn Elenco:
Hugh Jackman, Patrick Stewart, Ian McKellen, James McAvoy, Jennifer Lawrence, Michael Fassbender, Nicholas Hoult, Anna Paquin, Ellen Page, Shawn Ashmore, Halle Berry, Peter Dinklage, Omar Sy, Evan Peters, Josh Helman, Daniel Cudmore, Fan Bingbing, Adan Canto, Booboo Stewart, Lucas Till, Evan Jonigkeit Otimo photo Otimo.png