BudaUma das funções do cinema – senão a maior delas – é contar histórias. Não que realizar estudos filosóficos ou despertar pensamentos críticos no espectador também não seja importante para a sétima arte, mas historicamente o cinema tem uma predileção a contar grandes histórias. Sejam essas histórias calcadas em fatos ou completamente criadas pela mente de um roteirista, haverá sempre algum diretor disposto a transpô-las para o cinema. É engraçado, portanto, que o novo filme de Wes Anderson, O Grande Hotel Budapeste, comece justamente com uma discussão acerca da forma cíclica com que as histórias se propagam e de sua importância para a construção da literatura e, logo, da História. Engraçado porque, para além de seus planos coloridos e geometrizados, Wes é conhecido por ser um dos maiores contadores de histórias de Hollywood. Sem grandes preocupações em fazer com que o público acredite que seus filmes poderiam acontecer na vida real, ele, em todo o seu currículo, buscou apresentar personagens excêntricos em situações mais excêntricas ainda, tudo para colaborar, claro, com sua forma excêntrica de fazer cinema. Buda2Em Grande Hotel, M. Gustave (Ralph Fiennes) é responsável por gerenciar um hotel que vive praticamente em um mundo à parte, seja por sua distância do mundo em transformação do século XX ou até mesmo pela forma como seus negócios são conduzidos. Como forma de atrair clientes fiéis, Fiennes se envolve com as senhoras de idade avançada que se hospedam em seu hotel e, na maioria delas, acaba desenvolvendo vínculos e até uma certa afetividade. Quando uma dessas clientes, Madame D. (Tilda Swinton), morre de forma misteriosa e lega a ele uma obra de alto valor como herança e gratidão, Gustave e seu ajudante Zero (Tony Revolori) passam a ser alvos de uma perseguição dos membros da família da falecida, cujos interesses vão sendo descobertos a medida que a perseguição vai ficando mais perigosa – e divertida. O roteiro, assinado pelo próprio diretor junto a Hugo Guinness, é, como era de se esperar, uma genialidade à parte e o grande pilar do filme junto ao estilo característico da direção de Wes Anderson. Se em seus filmes anteriores, a introspectividade de algumas personagens tinha dificuldades em dialogar com as tentativas de construir um ambiente divertido e ao mesmo tempo coerente (algo que em Moonrise Kingdom ficou muito claro), aqui o diretor parece ter encontrado seu caminho, ao se desprender de vez do distanciamento que havia de sua obra com o público. Em Grande Hotel, o maior trunfo está no fato de não acompanharmos protagonistas introspectivos ou praticamente desconhecidos, mas sim de acompanharmos uma dupla carismática e que consegue nos cativar em pouquíssimo tempo de longa. Buda8Em grande parte graças ao excelente trabalho de atuação de Fiennes e de Revolori, o gerente do hotel e o seu ajudante acabam formando uma dupla imbatível, principalmente devido ao contraste de suas personalidades. Gustave é falante, agitado e cheio de lábia, ao passo que seu acompanhante é um homem de poucas palavras, ainda que extremamente atento e preocupado com tudo que acontece ao seu redor. O grande conectivo entre os dois é (além dos passados nebulosos), no entanto, o humor estabelecido pelo roteiro. O jeito malandro de Gustave acaba ligando-o à inconsequência e ingenuidade de seu ajudante, algo que fica bastante claro já no início do filme pela forma como o ajudante cativa seu futuro chefe e faz com que ele o contrate para trabalhar em seu hotel. O humor e a comédia inteligente e sutil do filme acabam atingindo o elenco e o roteiro como um todo, fazendo com que tudo aquilo que acompanhamos seja tão improvável e inverossímil e, ao mesmo tempo apresentado de uma maneira tão documental, que acabamos por aceitar de muito bom grado todas as sequências absurdas que nos serão apresentadas ao longo da uma hora e meia de obra. Assim, as cenas da perseguição na neve e do tiroteio no Hotel acabam sendo algumas das mais divertidas do filme, provando também a maturidade do diretor ao apostar em cenas de ação, algo inédito em comparação com seus filmes anteriores, e que funciona muito bem neste, até como incremento a todo o clima de investigação e mistério que a investigação da trama nos propõe. GERMANY BERLIN FILM FESTIVAL 2014O clima de “comédia de ação” acaba sendo, dessa forma, outra prova do crescimento de Wes Anderson e de uma aposta muito bem sucedida. Aliás, como mencionei no início da minha crítica, se Grande Hotel se dispõe a nos contar uma grande história ocorrida no passado, nada mais justo que possa se atribuir de todos os clássicos elementos da ficção para cumprir esse objetivo com sucesso. Deste modo, o diretor acaba optando por fugir um pouco da fórmula de seus filmes anteriores, a de contar uma história que poderia acontecer perfeitamente na vida real e que só foge disso através de suas personagens, para criar uma história em que as personagens – ainda que lotadas de caricatura – até poderiam ser encontradas – ainda que com dificuldade – na vida real, mas em que a trama nos parece completamente absurda e ficcional. Porém, se não fosse pelo já característico estilo da direção de Wes Anderson, talvez o roteiro de Grande Hotel perdesse um pouco de seu brilho, uma vez que este depende muito da excentricidade de tudo que está sendo apresentado ao público. Dessa forma, os planos abertos, geometrizados e lotados de cores vivas acabam nos saltando aos olhos e aumentando ainda mais a sensação de estarmos imersos na experiência narrativa do filme, a qual vai se distanciando ainda mais da realidade e tornando ainda mais prazeroso o desenvolvimento da trama. No trabalho de construção de cenários, a trilha sonora do sempre ótimo Alexandre Desplat e a fotografia de Robert Yeoman também acabam exercendo papel importante, uma vez que têm traços extremamente característicos e que ajuda a dar tom à obra e ao trabalho do diretor. GHB_9907 2013?01?30.CR2Extenso e recheado de grandes nomes, o elenco do filme também é um de seus maiores destaques, já que até algumas rápidas aparições acabam sendo certeiras e dão um charme ainda mais especial ao longa. Além da dupla protagonista, Tilda Swinton (escondida sob um excepcional trabalho de maquiagem) mais uma vez esbanja talento como a senhora causadora de todos os conflitos; Adrien Brody encarna muito bem o asqueroso e confuso vilão Dimitri; Willem Dafoe usa apenas da famosa cara de mau e da aptidão para a vilania ao encarar Jopling, que termina o filme praticamente sem dizer uma palavra; Saoirse Ronan está ótima com a encantadora e ao mesmo tempo dúbia Agatha; além de Harvey Keitel, Bill Murray, Edward Norton, Jason Schwartzman, Léa Seydoux, Owen Wilson e muitas outras gratas participações especiais. Por fim, se Wes Anderson assume toda a inspiração por trás de seu novo filme no escritor Stefan Zweig, é porque O Grande Hotel Budapeste carrega consigo a preocupação com uma característica que pouco a pouco vem sumido no cinema e em muitas outras formas de se fazer Arte: a narrativa. Em um mundo lotado por espetáculos de deslumbre visual que exigem cada vez menos elaboração na hora de se contar histórias, Anderson se arrisca mais uma vez em mostrar que nem só a imagem, nem só as palavras – mas sim as duas juntas tem o poder de construir os grandes filmes e trazer de volta a glória que construiu o cinema e que cuja ausência pode ser capaz de destruí-lo. Trailer: The Grand Budapest Hotel
EUA , 2014 – 100 minutos
Comédia Direção:
Wes Anderson Roteiro:
Wes Anderson e Hugo Guinness Elenco:
Ralph Fiennes, Tony Revolori, F. Murray Abraham, Jude Law, Saoirse Ronan, Adrien Brody, Willem Dafoe, Jeff Goldblum, Mathieu Amalric, Edward Norton, Tilda Swinton, Jason Schwartzman, Tom Wilkinson, Léa Seydoux, Bill Murray, Harvey Keitel Otimo photo Otimo.png