Enemy2013 foi um ano de gratas surpresas no cinema. Tivemos Azul É A Cor Mais Quente, Gravidade, A Caça, Django Livre, O Mestre, O Som Ao Redor, só para citar alguns dos que fizeram a alegria dos cinéfilos. No entanto, um dos filmes que mais chamou atenção e que não vinha carregado de muitas expectativas foi Os Suspeitos, suspense estrelado por Hugh Jackman e Jake Gyllenhaal e dirigido pelo canadense Denis Villeneuve. Villeneuve vinha de uma carreira promissora ainda que pouco conhecida e fazia sua estreia em Hollywood (mesmo Os Suspeitos não tendo sido exibido em uma grande quantidade de salas por lá) com um thriller intrigante, inteligente e angustiante, que lembrou os bons filmes do começo da carreira do diretor David Fincher, considerado o maior diretor de suspense do cinema contemporâneo. Dessa forma, quando anunciado que o novo filme de Villeneuve seria mais uma vez um suspense estrelado por Gyllenhaal e ainda baseado em um livro de José Saramago, é natural que todos nos nutríssemos das melhores expectativas possíveis, as quais, é bom lembrar, nem sempre são totalmente correspondidas. Enemy3O Homem Duplicado conta a história do professor Adam (Gyllenhaal), que vive preso em uma vida monótona e cansativa, sendo que o tempo em que ele não está dando aulas, está corrigindo provas, negligenciando até a própria esposa (Mélanie Laurent, sim, “Au revoir, Shoshanna!”). No entanto, sua vida tem uma mudança radical quando, ao assistir a um filme, Adam descobre que existe um ator com a aparência e a voz igualzinha a sua, fazendo com que ele queira conhecer seu “sósia”, ou melhor, seu “gêmeo”. Porém, quanto mais ele se aprofunda na busca pelo seu “outro eu”, mais ele se envolve em um perigoso jogo, que acaba tendo consequências irreversíveis em seu psicológico e em sua maneira de lidar com a própria vida. O livro homônimo de Saramago (o qual não li, aviso desde já) é classificado por muitos como um “livro inadaptável”, ou seja, que, tamanha a abstração de seu tema ou a complexidade de sua linguagem, tornam-no praticamente impossível de ser transferido para a linguagem audiovisual. Outro grande sucesso do autor, Ensaio Sobre a Cegueira, já havia sido adaptado para as telonas em 2008 sob as mãos do brilhante Fernando Meirelles (Cidade de Deus) e resultou em uma obra que – felizmente – conseguiu transferir com competência a experiência sensorial do livro para o cinema (e esse sucesso pode ser comprovado pelo fato do próprio Saramago ter se emocionado ao assistir a adaptação dirigida pelo brasileiro). Talvez o sucesso de Ensaio e a prova de que as obras do já falecido escritor português podem sim ser adaptadas, tenham motivado Villeneuve a aceitar esse novo (e grande) desafio. Enemy2Nesse ponto, é necessário analisar os objetivos do diretor com o filme. Claramente influenciado pela necessidade de se manter fiel não só a história, mas também à característica maneira de contá-la de Saramago, Denis acaba criando um filme extremamente conceitual e artístico, muito distante de suas obras anteriores, as quais, ainda que afastadas do cinema de massa, não eram tão preocupadas com o “fazer a arte” em si, mas sim com a trama narrada. Nesse momento entra o maior o problema de O Homem Duplicado: o filme nos fisga rápido com a sua história e nos deixa curiosos acerca de quando ela começará finalmente a se desenvolver e, quando isso finalmente acontece, o interesse vai aos poucos se esvaindo e sendo trocado por uma sensação de “parece que já vi isso, só que de uma forma menos cult”. Assim, a princípio, é extremamente curioso acompanhar a rotina de Adam e ir criando no pensamento uma ideia de como os pequenos detalhes de sua vida se encaixarão no dilema que ele enfrentará a seguir, mas, logo que o dilema aparece de fato no filme, começa também a sensação de que a história do homem que da noite pro dia encontra alguém igualzinho a si, já nos é conhecida, e até as tentativas da direção de nos mostrar o contrário, seja através da inserção de elementos aparentemente nonsense ou da construção de todo um clima de suspense, acabam se mostrando falhas, uma vez que o desinteresse permanece até a meia hora final, que é quando o clímax de O Homem se inicia. Enemy4Junto à meia hora inicial, a meia hora final do filme é a grande responsável pelos seus acertos, uma vez que ela concentra todo o fôlego que vinha sendo guardado durante o desenvolvimento da trama e nos mostra que, apesar de toda a mesmice do filme até então, o roteiro guarda uma surpresa pouco comum em comparação aos filmes do gênero. Enquanto na maioria desses filmes o protagonista se empenha em destruir o seu “gêmeo” ou descobrir o porquê de ter ocorrido tal fato, nesse os protagonistas (ou pelo menos um deles) simplesmente resolvem se aproveitar da situação e tirar proveito um da vida do outro, ainda que estejam cientes das possíveis consequências que tal atitude possa trazer. Dessa forma, o mais-do-mesmo e a previsibilidade do roteiro acabam dando lugar à novidade e imprevisibilidade, o que faz com que seja uma pena que o longa seja tão curto e que esse clímax não possa ter se desenvolvido com mais calma e mais tempo, o que tornaria, com certeza, O Homem Duplicado um filme bem melhor. Aliás, o final do filme é um capítulo à parte e também merece uma discussão. Completamente simbólico (e com uma simbologia totalmente adequada a personalidade do protagonista), ele acaba fazendo com que voltemos em determinados trechos do filme para que possamos entende-los mais a fundo (ou entende-los pela primeira vez), o que acaba se tornando uma experiência muito interessante, até porque as simbologias do filme são abertas e cada um pode interpretá-las de acordo com a maneira que enxergou o longa. Contudo, por mais interessante que seja toda a simbologia por trás da obra, fica uma sensação de que ela foi apenas mais um mero adereço para ilustrar a trama e não uma peça fundamental para a compreensão do filme, como em filmes como Clube da Luta, uma vez que, ainda que não compreendamos a primeira ou a última cena, é possível abstrair um significado do filme como um todo ou pelo menos da parte menos abstrata da obra. Enemy5Entretanto, colocar toda a culpa pelas falhas do filme no roteiro seria uma imensa irresponsabilidade, uma vez que a escolha de Gyllenhaal como protagonista também tenha sua parcela de culpa. Tendo sido co-protagonista de todos os grandes sucessos de sua carreira (O Segredo de Brokeback Mountain, Zodíaco e Os Suspeitos; Donnie Darko e Contra o Tempo são exceções), Jake sempre foi ofuscado pelos companheiros de elenco, graças ao fato de ser pouco expressivo e apresentar poucas diferenças na construção de cada uma de suas personagens, por mais diferente que sejam. Dessa forma, colocar Gyllenhaal para interpretar duas personagens diferentes em um mesmo filme se mostra um grande equívoco, visto que o talento do ator não é grande a tamanho de conseguir realizar duas atuações totalmente diferentes e satisfatórias, sendo que é impossível não confundir Adam ou Anthony em vários momentos ou ter que ficar decifrando quem é quem pelas esposas ou pelas falas (nesse sentido, é necessário elogiar a construção das personagens no roteiro e a ótima demarcação de suas características e diferenças, que acabam salvando a nossa pele durante vários momentos). Ainda em se tratando do elenco, Mélanie Laurent, Sarah Godon e Isabella Rossellini, todas talentosíssimas, acabam sendo desperdiçadas em papéis com pouco espaço e participações curtas, mais uma vez uma falha causada pela curta duração do filme. Enemy7Porém, quando se trata dos aspectos técnicos, o longa de Villeneuve é louvável. O design de produção de Patrice Vermette, a direção de arte de Sean Breaugh e a fotografia de Nicolas Bolduc se unem para criar a perfeita imagem de uma Toronto sombria e misteriosa, criando exatamente a mesma atmosfera perseguidora e sufocante que envolve os dois protagonistas. Além disso, merece destaque também os créditos vintage, que em muito lembram os filmes das décadas de 50 a 70, principalmente em relação aos suspenses da época, em especial os do mestre Alfred Hitchcock. Merece destaque também a trilha sonora de Danny Bensi e Saunder Jurriaans, extremamente eficiente na criação de tensão, ainda que sua insistência incomode em alguns momentos. Por fim, seria injusto dizer que a culpa de O Homem Duplicado não ter correspondido todas as expectativas geradas no público é da obra de Saramago e de sua complexidade, uma vez que se tem a sensação de que o roteiro poderia ter sido muito melhor trabalhado se não fossem as intenções de Denis de criar uma obra altamente conceitual, o que acabou a tornando distante demais do roteiro de Javier Gullón e até do próprio público. Não que a Arte pela Arte ou as obras com o único objetivo de ser cult sejam ruins, uma vez que vários clássicos do cinema saíram desse tipo de intenção, mas negligenciar o roteiro para dar a preferência a estética, a forma e a linguagem pode custar caro, como aconteceu com esse filme de Villeneuve, do qual prefiro guardar a lembrança do genial Os Suspeitos e de suas igualmente excelentes obras anteriores. Trailer: Enemy
Canadá / Espanha, 2013 – 90 minutos
Suspense Direção:
Denis Villeneuve Roteiro:
José Saramago (livro), Javier Gullón  Elenco:
Jake Gyllenhaal, Mélanie Laurent, Sarah Godon, Isabella Rossellini Bom photo Bom.png