KillTendo brilhado pela primeira vez no Festival de Sundance de 1991 com o lançamento de Cães de Aluguel, não demorou muito para Quentin Tarantino se tornar um diretor renomado em Hollywood e atrair multidões de fãs que aguardam ansiosamente o lançamento de cada filme seu. Depois de “Cães”, veio o premiado Pulp Fiction, Jackie Brown e futuramente seus lançamentos mais recentes, Bastardos Inglórios e Django Livre (isso contando apenas os filmes dirigidos completamente por ele). No entanto, Pulp Fiction divide o maior sucesso da carreira de Tarantino juntamente a outro filme, este exibido em dois volumes e lançado entre “Jackie” e “Bastardos”: o inesquecível Kill Bill. No filme, Uma Thurman (que volta a trabalhar com o diretor depois da marcante Mia Wallace) interpreta A Noiva, uma mulher que sofre um atentado no dia do casamento pelo próprio (quase) marido, Bill (o falecido em 2009 David Carradine), e pelos integrantes do grupo de extermínio que participava. Após ficar em coma por vários anos, ela faz com que todos que participaram do crime acreditem que ela nunca mais se recuperará, sendo que na verdade o seu retorno é próximo e trará consigo um desejo incontrolável de vingança, que atingirá um por um destes, até chegar naquele que a feriu mais profundamente: Bill. Kill3A obra traz as características mais marcantes de seu diretor: muitas referências e homenagens, litros de sangue e um brilhante roteiro alinear. Quentin usa toda a sua liberdade como diretor e roteirista para criar uma história que chega a ser absurda em alguns pontos, mas que nos diverte e envolve a tão ponto que nem percebemos tais absurdos e passamos a concebê-los mais como integrantes da trama que só servem para a fortalecer. O descompromisso com a realidade do roteiro faz também com que sejam possíveis as constantes alusões aos western spaghetti e aos filmes e séries de kung-fu que fizeram muito sucesso nas décadas de 60 e 70, valendo lembrar que a clássica série “Kung-Fu” era protagonizada por Carradine, mesmo ator que interpreta o antagonista-mor de Kill Bill. Kill2Ainda que filmados de uma única vez e feitos para ser lançados em um único volume, os dois segmentos do filme apresentam algumas diferenças, principalmente no que diz respeito a maneira como a narrativa é conduzida. No primeiro volume, mais violento e frenético, abordar as personagens e as situações a fundo acabam ficando em segundo plano, dando espaço a longas sequências de ação ou até sequências curtas, porém significativas, como, respectivamente, a batalha da Noiva contra Vernita Green (Vivica A. Fox) e o momento em que, recém saída do quarto de hospital, a protagonista tenta mexer os dedos dos pés enquanto se encontra deitada no banco de trás da Pussy Wagon (carro que é realmente usado por Tarantino na vida real). Kill5Já o segundo volume apresenta uma preocupação maior em tapar os buracos da trama, nos contando exatamente como ocorreram os fatos que levaram a Noiva ao coma e nos apresentando perfeitamente as personagens ausentes ou com pequena participação no primeiro filme, como Budd (Michael Madsen), Elle Driver (Daryl Hannah) e o próprio Bill. Assim, boa parte das sequências de ação acabam se tornando diálogos não menos brilhantes, como os embates entre a Noiva e Bill e a áspera relação mantida entre Budd e Elle Driver. Essa decisão acaba se mostrando extremamente sábia, uma vez que, enquanto o primeiro volume serve para nos tornar familiares com a história, o segundo tem a função de aprofundar ainda mais o nosso interesse, dando profundidade ao aguardado epílogo da vingança da protagonista. Kill4O maior mérito de Kill Bill é, entretanto, mostrar que cinema pode ser descontraído, descompromissado e divertido ao mesmo tempo que é de qualidade, inteligente e saudosista. Não só este é o maior mérito do filme como do próprio Quentin Tarantino como diretor e roteirista que, junto a outros grandes nomes da sétima arte, mostra que o maior segredo para se fazer bons filmes é ser apaixonado pelo cinema e, ao mesmo tempo que buscar reverenciá-lo, buscar salvá-lo, principalmente em uma época em que os grandes filmes são deixados para trás devido a blockbusters cada vez mais vazios e desprovidos de qualquer compromisso em ser uma obra de qualidade. Dessa forma, encontrar um filme como este nas telonas ou nas nossas estantes é um suspiro aliviado para qualquer cinéfilo. Trailer: