CopNão é de hoje que Hollywood faz remakes de grandes sucessos do passado, tentando fazer com que eles repitam o mesmo sucesso atualmente. Dividido entre produções que deram certo (A Morte do Demônio, Scarface, Os Infiltrados) e outras que nem tanto (O Vingador do Futuro, Psicose, Planeta dos Macacos), esse subgênero do cinema (se é que podemos chamá-lo assim) sempre é causador de muita polêmica, principalmente pela responsabilidade grande que carrega nas costas, visto que a maioria dos filmes que geram as refilmagens tem legiões de fãs, os quais tem uma visão extremamente minuciosa e crítica, sempre esperando que o novo exemplar faça jus ao que idolatram. Bom, até aí tudo bem, é o que todos já sabem. Porém, é necessário entender que o cinema depende muito do tempo, ou seja, todo filme é muito influenciado pela época em que se vive e pela situação atual da sociedade. Sendo assim, quando se opta por fazer um remake mais de 20 anos depois, como é o caso de Robocop, é preciso que se faça uma atualização de conceitos e uma adaptação ao novo momento pelo qual a sociedade passa. Dessa forma, é burrice que exijamos que José Padilha faça um filme idêntico ao original, ao invés de imprimir seu tom crítico de praxe em um longa que retrata um pouco dos bastidores da política norte-americana, como ele faz nesse remake que sim, funciona muito bem. Cop3Na trama, ambientada em 2028, Alex Murphy (Joel Kinnaman, conhecido por aqueles que acompanham a série The Killing) é um policial dedicado a prender um dos maiores chefões do crime de Detroit, quando é ferido em uma fatal emboscada, deixando a mulher e o filho desolados. Paralelamente, tem-se a empresa OmniCorp, que enfrenta dificuldades em fazer com que seus “policiais robôs” sejam aceitos pela sociedade e principalmente pelo Senado, no qual enfrenta grandes críticas. Assim, como uma maneira de conquistar o povo e a classe política, o dono da empresa, Raymond Sellars (Michael Keaton) resolve colocar um policial humano com grandes danos corporais por trás do uniforme de seus robôs, sendo Murphy o escolhido. Porém, o plano de usar o policial como uma propaganda de seu negócio começa a fugir do controle conforme o mesmo vai descobrindo detalhes preciosos da sua tentativa de assassinato e buscando justiça. José Padilha, dono de uma primorosa carreira aqui no Brasil (tanto seu documentário Ônibus 174 quanto os dois Tropa de Elite foram muito bem aceitos por crítica e público) pode causar estranhamento a princípio por ter sido o escolhido para dirigir tal remake, principalmente por ter tido uma estreia tão súbita em Hollywood e por diretores já conhecidos serem normalmente os responsáveis pelos remakes (Lars Von Trier e Tim Burton são exemplos). Mas, depois que se vê o filme, o motivo da escolha do diretor brasileiro nos parece um tanto quanto clara: Padilha é capaz de fazer uma crítica ácida à política de um país, principalmente no que se trata de questões envolvendo segurança. Também porque, claro, um estrangeiro não teria tantas dificuldades em aceitar dirigir um roteiro como o de Joshua Zetumer, que critica tão avidamente os Estados Unidos. Cop6Em Robocop, assim como na versão original, há uma forte veia questionadora por trás da embalagem típica de blockbuster. Se o filme de Paul Verhoeven falava sobre uma Detroit em caos que não sabia como lidar com o crime, este exemplar fala sobre a necessidade dos EUA de buscarem manter sua imagem como país mantenedor da segurança, principalmente após os ataques de 11 de Setembro e o envolvimento do país em diversas guerras, na chamada “guerra ao terror” declarada pelo presidente George W. Bush. E se a crítica é contra tal período, logicamente o filme opta por criticar os Republicanos, a ala conservadora da política do país. Dessa maneira, sobra também para a mídia manipuladora de direita, que através de seus discursos lotados de furor e indignação (falsos, entretanto), tendem a convencer a população a adotar a violência como forma de proteção, como Padilha já nos alertava através da personagem Fortunato (André Mattos), em Tropa de Elite 2. Se toda a crítica de Padilha pode parecer inútil aos brasileiros devido ao seu foco nos Estados Unidos da América, na verdade ela se mostra um tanto quanto aplicável para o Brasil também, principalmente nos últimos tempos. O caso do criminoso amarrado a um poste em praça pública e violentado por “justiceiros”, os quais foram defendidos veemente por uma parte da mídia brasileira, nos lembra a maneira como a personagem de Samuel L. Jackson, o apresentador Pat Novak, e o deputado Fortunato defendem veemente esse tipo de violência disfarçada de justiça em rede nacional, normalmente (mesmo que nem sempre) apoiados por interesses políticos, como as sequências de Robocop que envolvem Novak fazem questão de deixar bem claro. Cop5As semelhanças com Tropa não param por aí, no entanto. As sequências de ação (indispensáveis a um filme do gênero, por mais que este tenha um empenho maior de buscar a reflexão) lembram o mesmo estilo que Padilha adotou nos seus dois filmes anteriores, com tiroteios que conduzem muito bem a ação e tensão, além de sequências longas e ininterruptas de tirar o fôlego, principalmente as que começam a partir dos 45 minutos finais de filme, quando o diretor faz questão de nos lembrar que continua capaz de nos entusiasmar com a trama de um filme policial/de ação, como já fez outras vezes e como muitos diretores encontram dificuldade de fazer hoje em dia, cada vez mais apostando em cenas que jogam elementos demais na cara do espectador e dificultam que ele compreenda tudo que acontece na tela (né, Michael Bay?). Um outro lado interessante neste remake é também a capacidade de abordar um face não mostrada na sua matriz, que é o lado humano e familiar do protagonista Alex Murphy. A ideia, que pode parecer um tanto quanto antiquada para um filme de ação hollywoodiano de grande orçamento (a Sony investiu nada mais nada menos que 130 milhões de dólares na superprodução), acaba funcionando extremamente bem ao longo do filme, seja por gerar momentos emocionantes como o do primeiro encontro de Murphy com o filho depois de se tornar o Robocop, seja para exemplificar a manutenção de certos aspectos emocionais de Murphy mesmo depois que este esteja sob a armadura, o que ajuda na construção da catarse final do personagem responsável por dar início ao clímax do longa. Cop4Joel Kinnaman, praticamente estreando com um papel destaque em um filme de grande projeção no cinema (ele participou de Millennium do David Fincher, mas em um papel com destaque bem menor), não surpreende e nem desaponta, uma vez que não são exigidos grandes esforços de si como ator, os quais são concentrados apenas em algumas cenas, como nas que mostram a relação da personagem com sua família. No entanto, o peso que Joel não possui nas costas acaba sobrando para os já veteranos Gary Oldman, Samuel L. Jackson e Michael Keaton, que o carregam extremamente bem. Enquanto Oldman brilha e rouba o filme em determinados momentos com toda a sua técnica na pele do Dr, Norton, forte aliado do Robocop, L. Jackson só confirma o grande ator que é, como já havia feito com uma das maiores atuações de sua carreira em Django Livre, do diretor Quentin Tarantino, que estreou nos cinemas (e foi indicado ao Oscar de Melhor Filme) ano passado. Michael Keaton, por sua vez, se mostra um pouco exagerado e fora do tom em determinados momentos, tendo muita dificuldade em se encontrar com a personalidade do inescrupuloso dono da Omnicorp, mas também tendo o profissionalismo de, a medida que não corresponde as expectativas criadas por sua vasta carreira, também não decepcionar o público que assiste ao filme. Abbie Cornish, intérprete da mulher de Murphy, também tem uma performance um tanto quanto parecida, só que com um personagem menor, o que diminui o impacto da sua falta de vivacidade na atuação em alguns momentos, ao contrário de Jackie Earle Haley, que, mesmo como coadjuvante (ele interpreta um especialista em táticas militares que faz o treinamento do personagem-título), consegue desempenhar muito bem o seu papel. 1174829Se o elenco enfrenta algumas pequenas irregularidades, o mesmo se pode dizer da parte técnica, na qual é possível se encontrar várias figurinhas carimbadas do cinema nacional (Padilha, em entrevista, disse que só faria o filme caso pudesse levar a sua “tropa” para Hollywood). Daniel Rezende, indicado ao Oscar por Cidade de Deus, entrega uma excelente montagem, assim como Lula Mendonça, também responsável por um ótimo trabalho de fotografia. Já Pedro Bromfan, compositor das trilhas de Tropa de Elite 1 e 2, apresenta uma trilha sonora original bem mediana e que fica até aquém das já comuns trilhas de filmes de ação, apesar de acertar ao reutilizar grandes clássicos da música que acabam fazendo toda a diferença nas cenas em que são usados, como Fly Me To The Moon de Frank Sinatra e I Fought The Law Do The Clash, sendo que ambas contribuem ideologicamente para o filme. O núcleo de efeitos visuais também não é completamente competente e em alguns momentos, principalmente no clímax do filme, é possível perceber bem claramente um Robocop tão digital que chega a lembrar um personagem de videogame (prestar atenção na cena em que a personagem luta contra grandes robôs). Por fim, com muitos acertos e pequenos irregularidades, esse remake foge do senso comum ao optar por trazer para os cinemas não uma mera cópia ou reutilização do clássico de Verhoeven, mas também uma nova leitura do mesmo, dessa vez mais séria e com outros objetivos, que conseguem se adequar perfeitamente ao mundo atual, tanto no que se refere aos Estados Unidos quanto no que se refere aos outros países, como mencionei a respeito do Brasil. É uma pena, no entanto, que o filme tenha sido tão mal recebido em solo norte-americano, tudo por causa de uma provável rejeição ideológica. Mas convenhamos: se Padilha não cutucasse uma ferida deles como fez conosco em 2007 e 2010, não seria aquele diretor corajoso e ousado que o Brasil admira e apoia. E Padilha, tenha certeza: nós brasileiros, sempre estaremos prontos para não só receber o lançamento de um novo filme seu, como também aplaudi-lo de pé. Trailer: EUA , 2014 – 117 minutos
Ação / Policial Direção:
José Padilha Roteiro:
Joshua Zetumer Elenco:
Joel Kinnaman, Gary Oldman, Michael Keaton, Abbie Cornish, Samuel L. Jackson, Jackie Earle Haley, Michael K. Williams, Jennifer Ehle, Jay Baruchel, Marianne Jean-Baptiste, John Paul Ruttan  Otimo photo Otimo.png