NinfoCriador do movimento Dogma 95 ao lado de Thomas Vinterberg (A Caça), Lars Von Trier é um diretor que consegue a incrível marca de ter causado polêmica em todos os seus filmes lançados até hoje. Já fez um filme sobre um grupo que finge ter problemas mentais, já insinuou um genocídio em uma dessas melhores obras, já mostrou a mutilação dos genitais de um casal na telona e, como todos sabem, já até declarou “entender Hitler” no Festival de Cannes durante um de seus lançamentos recentes. Dessa vez, o diretor causou ao anunciar a produção de um filme sobre uma ninfomaníaca, mas não um filme comum, um filme que pedia que você se esquecesse do amor e que traria picantes cenas de sexo explícito no decorrer da projeção. Mais tarde, mais polêmicas. A obra de cinco horas do diretor havia sido editada pelos estúdios sem seu consentimento e se transformado em dois volumes de duas horas com cenas de sexo não tão explícito assim. A decisão não agradou muito o diretor, claro, mas ainda sim a ideia foi realizada e o filme chega agora aos cinemas do mundo com seus dois volumes. No entanto, bastou acontecer o lançamento para uma enxurrada de críticas cair sobre Von Trier. O motivo? O filme não cumpriu o que prometia e, ao invés de se deparar com o filme forte prometido, o público e a crítica se depararam com um filme com supostamente uma trama rasa banhada por cenas de sexo que nem eram tão fortes assim. Ninfo2Ter tido essa interpretação errônea do filme não é totalmente culpa do público, aliás, a menor parcela da culpa cabe a ele. Von Trier, mais uma vez, usou de sua capacidade incrível de marketing para divulgar o filme, só que dessa vez usou de um artifício um tanto quanto desleal: a propaganda enganosa. Ninfomaníaca, por mais que tenha como seu principal pilar o prazer sexual, trabalha muito o amor também, então, de certa forma, pedir para que tal sentimento seja esquecido durante a projeção é praticamente pedir para que os espectadores realmente não compreendam a trama e os seus significados. Além disso, qual seria a necessidade de cenas com um teor sexual ainda maior dentro do filme, se, nessa versão de cinema, tudo aparenta estar perfeitamente interligado, contextualizado e sem exageros? Mas antes de falar mais sobre as polêmicas que cercam o filme, melhor introduzi-lo. A obra começa quando Joe (Charlotte Gainsbourg) é encontrada por Seligaman (Stellan Skarsgard) abandonada em um beco muito machucada e pede para que ele não chame a ambulância, com medo da polícia ser acionada. Sendo assim, ele a leva para sua casa, onde ela faz uma viagem até a sua juventude (Stacy Martin) para tentar explicar para ele como ela chegou até aquele ponto. Ninfo6Quando Joe começa a contar sua história, já adianta que, desde criança, teve uma afeição maior pelo prazer do que as outras garotas. Mas, depois de uma perda de virgindade tão traumática, o que levaria aquela jovem a se tornar uma ninfomaníaca? Esse talvez seja o ponto principal do filme e o seu maior acerto. Quando ela, em uma cena brilhante, consegue seduzir um homem ao ponto de fazer com que ele a permita estragar aquele que talvez viria a ser um dos principais momentos de sua vida, Joe não descobre apenas o seu domínio em relação ao sexo, mas também descobre os seus limites como mulher. Ou melhor, ela não só os descobre como passa a utilizar todo esse poder a favor de si própria. Seu bom relacionamento consigo e o suposto autoconhecimento total em relação ao seu corpo e aos seus sentimentos fazem com que Joe se sinta completamente independente, buscando assim um afastamento em relação a qualquer tipo de sentimentalismo ou atração mais profunda, mantendo-se sempre apenas próxima do prazer carnal, aquele que é efêmero e que permite que ela se sinta no controle de tudo, além de, claro, fazer com que ela se sinta desejada e feliz. Em uma cena, por exemplo, ela mente para os homens com quem faz sexo, dizendo a todos que eles foram seus primeiros, apenas como uma forma de satisfação própria em enganar o outro, que está totalmente controlado pelo prazer que ela forneceu. Ninfo8No entanto, o filme nos mostra que, por mais que Joe consiga se manter longe de qualquer forma de amor até certo ponto, ela não deixa de ser um ser humano e, quando finalmente se depara com esse sentimento, sua vida e sua maneira de ver as coisas começam a mudar. Mesmo assim a forte atração da garota com o sexo persiste, uma vez que o amor só surge em sua vida quando ela reencontra o homem que tirou a sua virgindade, Jérome (Shia LaBeouf) e, vendo ele aos seus pés, passa a rejeitá-lo, como se ainda rejeitasse a primeira vez que os dois tiveram contato físico. No entanto, essa maneira de dominação pela tensão sexual que ela faz Jérome sentir, acaba impedindo que ela realize o seu amor por ele, como vai acontecer durante toda a sua vida, mostrando que, para Joe, o amor sempre anulará o sexo e o sexo sempre anulará o amor. É assim que entendemos quando Joe diz ser um ser humano ruim, visto que ela não consegue entender que o problema não é si própria, mas sim suas dificuldades em aliar o desejo ao sentimento amoroso, visto que ou ela abnega de um em função do outro ou nega os dois. Para ajudá-la a entender nesse processo, o diretor usa de passagens metafóricas e inúmeros simbolismos, além do personagem Seligman, uma espécie de “ego” para a Joe adulta, para a qual ele explicita e explica todas as simbologias que a envolvem, sem contar que ainda funciona como uma forma de estabelecer elos para que a protagonista prossiga com os capítulos de sua história. Ninfo4Assim, se por um lado o filme consegue nos envolver plenamente ao detalhar a vida e os momentos pelos quais ela passa, ele acaba nos irritando ao forçar determinados simbolismos e, para piorar, deixa-os perfeitamente claros aos nossos olhos, com um didatismo completamente desnecessário. Todos esses problemas se encontram concentrados nos diálogos da protagonista com Seligman, que acaba se mostrando mais como uma manifestação do ego do próprio diretor, uma vez que o público acaba se deparando com discussões que surgem do nada e que se mostram sem qualquer utilidade, além de uma tentativa de exibicionismo de Von Trier, se mostrando como um diretor que, mesmo diante de tantas polêmicas, quer se manter cult e genial. Por mais que existam tais falhas, é inevitável dizer que, até certo ponto, o filme é mantido com uma verossimilhança ímpar. Pode parecer clichê, mas Ninfomaníaca acaba indo muito além das aparências. Todas as personagens são trabalhadas de maneira realista e nada caricata, de forma a expor todo o seu íntimo e sua maneira de pensar. Joe não é vista como ninfomaníaca, mas como uma mulher problemática em busca da felicidade e que, mesmo achando que se conhece plenamente, ainda tem dificuldades em aliar o seu psicológico a suas ações efetivas. Jérome, por sua vez, é mostrado como um homem machista sob a ação de um forte complexo de inferioridade, visto sua dificuldade em aceitar a rejeição sexual de Joe a princípio e depois de conseguir satisfazê-la sexualmente de maneira plena, no que acaba aumentando ainda mais o seu complexo e fomentando um ciúme destrutivo, proveniente da não-aceitação em ser subjugado por uma mulher. Ninfo7Da mesma forma, algumas personagens que parecem não dizer a que vieram, são na verdade peças usadas por Lars para formar o quebra-cabeça do filme e ajudar o espectador a entender o mundo da protagonista diante de diferentes situações. O Pai de Joe (Christian Slater) é a personificação do Complexo de Édipo presente na protagonista, além da tristeza intrínseca nela e a apresentação de suas válvulas de escape (tudo isso em um dos melhores capítulos do filme, filmado em uma inspirada fotografia em preto e branco); a Senhora H. (Uma Thurman) é o confronto de Joe com a natureza perigosa que sua forma de lidar com o sexo e com os homens pode gerar; K (Jamie Bell) é a carência de Joe em ser dominada também, em mais uma das formas de mostrar que ao, acreditar que já se conhece plenamente, a protagonista acaba oprimindo alguns desejos de seu íntimo (é impossível não se lembrar de Um Método Perigoso nesse capítulo); e por fim, P (Mia Goth), assim como Jérome (não é a toa que as duas personagens são interligadas em dado momento), é a dificuldade de Joe em lidar com seus sentimentos mais profundos e conseguir aliá-los ao sexo. Entretanto, se há uma grande verossimilhança na representação das personagens e em parte da narrativa, tal característica parece sumir a partir do momento em que começa a abordagem da vida adulta de Joe, principalmente no que diz respeito a relação que ela estabelece com L (Willem Dafoe) e a profissão que toma para si. Se durante toda a sua juventude tudo nos parecia perfeitamente plausível, por mais que houvesse momentos cômicos ou que fugissem da nossa realidade cotidiana (a aposta no metrô e a brincadeira no restaurante), sua fase adulta parece criar um enorme afastamento do público, visto a enorme fuga da realidade das situações apresentadas pelo roteiro. É difícil de entender, por exemplo, a passagem das sessões de K, que funcionam como uma forma de entender o tipo de desejo suscitado pela protagonista, para o ambiente criminoso das atitudes praticadas pela mesma. Tal inverossimilhança tem seu ápice com o final do filme, totalmente decepcionante e muito aquém da qualidade apresentada pela obra como um todo. Ninfo5Porém, por mais que haja tamanhas irregularidades no roteiro assinado pelo próprio diretor, há aspectos a se louvar, tais como o elenco e a parte técnica. Stacy Martin é simplesmente apaixonante e nos brinda como uma das melhores estreantes no cinema em muito tempo. Além de ser possuidora de uma beleza incontestável, Martin é expressiva como ninguém e consegue criar com os espectadores uma relação íntima com a sua personagem, nos cativando cada vez mais. A versatilidade da atriz também é louvável, visto a sua capacidade de interpretar uma Joe possuidora de várias facetas, que vão desde a Joe em pleno consumo carnal (as caras e bocas sensuais de Stacy não são nada exageradas ou caricatas), passando pela paixão que ela consegue nutrir com seus olhares e toques, até chegar aos momentos de extrema tristeza, como quando ela julga ter perdido toda a sensibilidade sexual. Charlotte Gainsbourg, por sua vez, não possui o brilho de Stacy, mas conduz bem o filme, tendo sua atuação momentos brilhantes, como quando ela tem de abandonar o próprio filho. Shia LaBeouf surpreendentemente também está ótimo em seu papel. Talvez o fato de ele finalmente interpretar uma personagem que exige mais em um filme de maior qualidade o ajude (Controle Absoluto e Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal divertiram, mas não exigiram nada demais do ator), uma vez que a qualidade de seu trabalho acaba sendo inegável, até para os que torcem o nariz para sua atuação e para suas condutas na vida real (o ator divulgou o filme em Berlim com um saco de papel na cabeça que dizia “I’m not famous anymore”). O elenco secundário também se encontra extremamente afinado, com destaque para a sempre ótima Uma Thurman, como a mulher traída que surta ao entregar o marido nas mãos de outra e Jamie Bell, como o “homem perigoso” que mostra para Joe o prazer que vem da dor. Ninfo1Como todo filme de Von Trier, o trabalho de fotografia tem grande importância e é um alívio dizer que o trabalho de Manuel Alberto Claro funciona muito bem nesse sentido. Ao optar pelo uso de uma fotografia densa e escura para narrar a triste trajetória de Joe, embarcamos com maior profundidade na história da protagonista e podemos entender de maneira mais clara seus sentimentos e sua forma de ver o mundo. A montagem de Morten Hojberg também é muito bem feita, executando muito bem todas as recorrentes inclusões simbólicas e metafóricas na obra. Todavia, o grande destaque da parte técnica fica para a trilha sonora escolhida a dedo e que vai desde clássicos da música clássica tocados por Bach e Beethoven (que são usados nas chatas discussões de Seligman, mas também servem para dar tom a cenas belíssimas como a que encerra o Volume I) até clássicos do rock como Burning Down the House da banda Talking Heads (também muito bem usada na cena em que a protagonista externa toda a sua raiva reprimida). No final de contas, podemos suspirar aliviados ao perceber que Lars Von Trier, ao contrário do que indicava, não nos apresentou mais um trabalho desastroso como Manderlay ou Anticristo, mas também não apresentou uma obra que chegasse aos pés de um Dogville ou Melancolia, por exemplo. Por outro lado, é triste pensar que Ninfomaníaca poderia ser um filme muito maior e mais significativo, se, mais uma vez, não fossem os excessos do diretor, cujo ego exagerado sempre acaba forçando demais algumas situações em seus filmes, tudo na tentativa de gerar polêmica ou ainda de elevar o seu status como diretor. Apesar de tudo isso, temos aqui um longa que merece ser visto, mas que se torna muito mais prazeroso quando, ao invés de esquecermos o amor, como a divulgação do filme nos pediu, esquecermos toda a propaganda enganosa que foi feita durante meses em cima desse filme, que também acaba sendo seriamente prejudicado pelas expectativas geradas no público. Trailer:  Nymphomaniac
Dinamarca / Alemanha / França / Bélgica / Reino Unido , 2014 – 123 minutos
Drama Direção:
Lars von Trier Roteiro:
Lars von Trier Elenco:
Charlotte Gainsbourg, Stacy Martin, Stellan Skarsgård, Shia LaBeouf, Jamie Bell, Mia Goth, Willem Dafoe, Michael Pass, Jean-Marc Barr, Ananya Berg Bom photo Bom.png