v:* {behavior:url(#default#VML);} o:* {behavior:url(#default#VML);} w:* {behavior:url(#default#VML);} .shape {behavior:url(#default#VML);} Dallas01Ao longo da história da humanidade, muitas histórias acabam ganhando a mídia e, principalmente, o coração das pessoas pela coragem e ousadia de encarar grandes desafios que outros não ousariam enfrentar. E, assim como ocorre na realidade, ocorre no cinema. Clube de Compras Dallas, dirigido por Jean-Marc Vallée, é um filme corajoso, tanto na história que traz quanto pela maneira como foi produzido. Se no roteiro do filme temos um protagonista com a necessidade de mudar sua vida e maneira de pensar após ser diagnosticado com o vírus da AIDS em plena década de 80 e que inicia uma verdadeira luta contra a indústria farmacêutica, nos bastidores tivemos Matthew McCounaughey e Jared Leto encarando uma dieta radical para perder peso e dar vida aos protagonistas, numa tentativa (que se mostra extremamente eficiente) de trazer ainda mais realidade a esta história real capaz de surpreender e incentivar muitos espectadores deste excelente filme. Na trama, McCounaughey é Ron Woodroof, um eletricista de Dallas acostumado a viver uma vida baseada em rodeios, drogas injetáveis e sexo com belas mulheres, assim como todos os seus amigos. Porém, depois de uma perda drástica de resistência, ele é diagnosticado como portador do vírus da AIDS em uma época em que só o nome do vírus já era suficiente para tornar o aidético crente de que está em seus últimos dias, como acontece com Woodroof. No entanto, o eletricista resolve lutar por sua vida ao invés de simplesmente esperar a morte chegar, e acaba descobrindo que uma droga injetada pelos médicos nos portadores do vírus, o AZT, pode ser mortal na dose em que é aplicada, mesmo sendo vendida como a salvação para a doença. DallasNisso, Ron resolve iniciar um esquema de comercialização de remédios orgânicos e menos letais provenientes do México e que são proibidos nos Estados Unidos, numa clara tentativa da indústria farmacêutica norte-americana de barrar qualquer outro remédio que não seja o que ela está fabricando e lucrando com ele, mesmo sabendo dos efeitos colaterais do mesmo. Nesta nova perigosa empreitada (o Clube de Compras Dallas do título), o eletricista contará com a ajuda de Rayon (Leto), um transexual também portador do vírus e que o ajudará a lidar com antigos preconceitos e a aceitar melhor a sua doença. Assim, é possível dizer que Clube trata de duas questões, simultaneamente e de maneira brilhante, sobre a AIDS: a humana e a médica. Do ponto de vista humano, partimos do preconceito maior em relação à doença, o qual era a relação unilateral que se fazia com a homossexualidade. Esse paradigma a própria trama do filme já quebra em momentos quando, por exemplo, vemos a personagem de Matthew McConaughey olhando para a tela do computador e lendo que a doença é quase unânime entre os homossexuais, fazendo com que pensemos de imediato: "tem algo errado aí", uma vez que o filme deixa bem claro em suas primeiras cenas que Ron era heterossexual. Esse preconceito continua sendo quebrado conforme o longa se desenvolve, com a aproximação entre McConaughey e a personagem de Jared Leto, que acaba se tornando seu maior amigo e parceiro de negócios. A barreira final do preconceito é ultrapassada na (belíssima) cena dos dois em que um aperto de mão se torna um abraço; um abraço forte, apertado, sem quaisquer receios. Dallas03Já do ponto de vista médico, como o poderoso O Jardineiro Fiel de Fernando Meirelles (curiosamente também distribuído pela Focus Features) nos dizia, mais uma vez somos apresentados à comunidade médica testando um remédio em seres humanos que, como ela própria sabe, está surtindo o efeito contrário nos pacientes, apesar de ser muito mais lucrativo do que, por exemplo, a vitamina que a personagem de McConaughey desenvolve, a qual não gera nenhum efeito colateral e ainda prolonga a vida dos aidéticos. Nisso, a luta para salvar vidas começa, mas a situação é desesperadora: a máquina do dinheiro e o apoio governamental contra um homem com o objetivo de ajudar outras pessoas a derrotar uma doença pela qual elas foram praticamente desacreditadas (nesse sentido é importante prestar atenção ao contador de tempo que aparece algumas vezes no decorrer do filme e que faz toda a diferença na hora de transmitir sua principal mensagem). No entanto, é bom ressaltar que as intenções de Rod não são 100% humanitárias, em outro ponto forte do filme, devido à dose extra de realismo que o filme ganha com esta abordagem. Ao mesmo tempo em que o eletricista deseja impedir que o restante dos portadores do vírus continuem caindo na armadilha do AZT e correndo sério risco de vida, ele nos lembra que é um ser humano como qualquer outro e que busca o lucro através do seu Clube de Compras, como mostra a própria estrutura do Clube, a qual lembra uma verdadeira empresa capitalista, permitindo que apenas determinadas pessoas tenham acesso (havendo inclusive um processo de cadastramento) e controlando cada centavo gasto e lucrado por meio do negócio. Porém, o lado empresarial do protagonista não significa de maneira alguma que ele seja frio, como mostra o fato de ele começar a desenvolver pesquisas no campo da AIDS e o seu próprio relacionamento com Rayon, em que ele se mostra um amigo fiel e capaz de defender o sócio a qualquer custo, como vemos na excelente cena do supermercado. Dallas04Ainda em se tratando dos dois pontos de vista trabalhados no filme, há de se dizer que o roteiro assinado por Craig Borten e Melisa Wallace é capaz de nos deixar estupefatos e revoltados com a situação a qual somos apresentados, pois, na atual sociedade em que vivemos, podemos, felizmente, dizer que boa parte dos preconceitos em relação a AIDS já foram quebrados, o que faz com que, quando olhamos para a maneira como a doença era tratada na década de 80, sejamos ainda mais surpreendidos pelo fato da “culpa” do vírus ser atribuída quase que totalmente às relações homossexuais, sendo que, como o filme deixa bem claro, os heterossexuais também eram extremamente suscetíveis à doença, principalmente pela sensação que possuíam de que jamais seriam vítimas. Por outro lado, há ainda o repúdio à comunidade farmacêutica, a qual acaba se mostrando mais como uma máquina de dinheiro do que como uma comunidade que busca zelar pela saúde de seus pacientes. Tal crítica fica presente no filme tanto pelo conflito enfrentado pelo protagonista quanto pela personalidade dos médicos a que somos apresentados, sempre preocupados demais com os remédios que comercializam do que com os próprios pacientes, muitos praticamente sem qualquer esperança. Aí temos um dos poucos pontos fracos do filme: a médica interpretada por Jennifer Garner, a qual é usada como uma mea-culpa para a situação, evitando a generalização e mostrando que podem haver sim médicos, ainda que poucos, que realmente se importem com as vidas das pessoas as quais foram destinados a cuidar. Dallas05Entretanto, ainda mais surpreendente do que a trama e a crítica a que somos apresentados durante o filme, é a transformação que se percebeu ao longo da carreira de Matthew McConaughey, astro que atinge definitivamente o ápice de sua carreira com Clube de Compras Dallas. O ator, que começou bem com filmes como Tempo de Matar, Contato e Amistad, não demorou para despontar como galãs de comédias românticas, tendo sido praticamente esquecido pelos grandes diretores de cinema por quase uma década. Porém, desde 2011, com O Poder e a Lei e Killer Joe (ambos excelentes), o ator voltou aos papéis sérios e densos que o iniciaram, tomando novamente as atenções para si. Agora, com a personagem mais exigente de toda a sua carreira, não há como ter dúvidas de que Matthew finalmente encontrou o seu caminho e está disposto a não perder mais esse posto, como mostrou nessa poderosa e aflita atuação. Outro ator que merece destaque é Jared Leto, que, assim como Matthew, consolida o seu dom para a atuação com esse papel. Na pele de Rayon, ele consegue encarnar perfeitamente uma personagem com mudanças constantes de comportamento no decorrer da projeção, que vão do confronto com o pai devido a sexualidade até a dificuldade em se afastar das drogas, passando pela amizade sincera e curiosa que ele passa a nutrir com Ron. Sua personagem tem também a ajuda do ótimo trabalho de maquiagem de Melanie Deforrest, fazendo com que praticamente não percebamos que é o vocalista do 30 Seconds to Mars quem está por trás de Rayon. Dallas02Por fim, Clube de Compras Dallas acaba ganhando seu lugar especial no cinema por conseguir abordar o assunto da AIDS por um outro âmbito, o dos conflitos médicos que envolviam a doença nos anos 80. Ainda sim, o filme não deixa de lado uma abordagem humanitária, a qual já foi feita de maneira tocante e importante por filmes já consagrados, como Filadélfia. Logo, ter “Dallas” ao lado de filmes como 12 Anos de Escravidão no Oscar deste ano mostra que Hollywood está definitivamente passando por uma de suas melhores safras de filmes importantes em muito tempo, motivo de alegria para qualquer cinéfilo ou amante da sétima arte. Isso sim é cinema que se dá gosto de ver, refletir e discutir sobre. Trailer: Dallas Buyers Club
EUA , 2013 – 117 min.
Drama Direção:
Jean-Marc Vallée Roteiro:
Craig Borten, Melisa Wallack Elenco:
Matthew McConaughey, Jared Leto, Jennifer Garner, Steve Zahn, Dallas Roberts, Kevin Rankin, Denis O’Hare Foda photo Foda.png