12O cinema possui várias funções, dentre elas entreter, informar, homenagear… Porém, dentre todas estas, uma que não pode jamais ser esquecida, é a capacidade da sétima arte de tocar em assuntos delicados, fazendo com que a sociedade os relembre e ponha em pauta, uma vez que certos assuntos nunca poderão ser deixados para trás na nossa memória e na História. Um desses temas extremamente delicados é a escravidão. Triste período que já foi muitas vezes abordado no cinema, uma vez que já tivemos tanto clássicos como E O Vento Levou... (ainda que este o abordasse de uma maneira um tanto quanto suave, romântica e até favorável aos escravocratas) quanto filmes mais recentes, como os indicados ao Oscar de 2013: Django Livre (em que a escravidão era quase um plano de fundo para uma trama essencialmente de ação) e Lincoln. Falar sobre a escravidão atualmente como uma forma de construir debates pode parecer, à primeira vista, um tanto quanto redundante, uma vez que tal escravidão ocorreu há muito tempo e, infelizmente, nada mais se pode fazer para mudar tudo o que aconteceu. Porém, o que se esquece é que essa escravidão é também a responsável por diversos problemas sociais que persistem até hoje, como a discriminação racial, que perdurou nos Estados Unidos de maneira muito forte e triste por muito tempo após a abolição. Assim, tem de se convir que debater esse período é muito importante sim, e, mais do que isso, é necessário fazê-lo de maneira séria e real, sem qualquer ressalva ou suavização dos fatos. É necessário encarar o passado para construir um presente mais digno e justo para todos. Dessa maneira, ao lançar 12 Anos de Escravidão, o diretor Steve McQueen mostra, mais do que qualquer diretor, estar disposto a reacender esse debate como nunca se fez antes. 12 anos de escravidão é uma das apostas do Globo de OuroNa trama, Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor) é um homem livre que vive muito bem com a mulher e seus dois filhos, e que possui um enorme talento para a música (é um exímio violinista), além de ter grandes noções de arquitetura. Contudo, quando ele é enganado por dois supostos músicos, sua vida muda radicalmente. Solomon é sequestrado e vendido como um escravo, indo parar na fazenda do Sr. Ford (Benedict Cumberbatch), um escravocrata que reconhece os dons e talentos de Northup e passa encarregá-lo de várias funções em sua fazenda. No entanto, a ascensão do escravo incomoda o funcionário Tibeats (Paul Dano), que acaba fazendo com que Solomon tenha que se mudar, sendo então enviado para a fazenda de Edwin Epps (Michael Fassbender). Lá seus problemas começam. Epps é um homem extremamente rigoroso e cruel, assim como sua mulher (Sarah Paulson), a qual tenta a todo custo punir a escrava Patsey (Lupita Nyong’o), com quem seu marido passa a se envolver e Solomon acaba nutrindo uma amizade. Dessa forma, o escravo passa a ter que sobreviver diariamente na fazenda do terrível Sr. Epps, a medida que busca uma maneira de recuperar a sua liberdade, retirada de maneira abrupta e sem sentido. Quando se lê sua sinopse, pode parecer que 12 Anos… é só mais um filme sobre o tema, que o abordará da mesma forma como todos os outros fizeram. Mas não é, pois, para entender e sentir o filme, é preciso antes perceber que "ser escravo" não é só ser traficado do seu país, retirado de sua vida e obrigado a realizar trabalho forçado em condições desumanas com pessoas que te tratam feito uma verdadeira mercadoria. É também ser escravo de uma situação da qual não se pode controlar, ser escravo de pessoas horríveis que deliram ao ver o sofrimento humano, ser escravo de dogmas, ser escravo da mentira (que se torna necessária), ser escravo da vontade, cobiça e ambição alheia… Não somos apresentados apenas à situação da escravidão, mas apresentados também, da maneira mais realista possível, a como os escravos se sentiam dentro da situação e mais, acabamos nos sentindo como eles. É impossível não se envolver no sofrimento de Solomon Northup, que, da noite para o dia, perde tudo o que tinha e tem sua vida mudada completamente; no sofrimento de Patsey, que sofre nas mãos da mulher de seu dono, por ser abusada pelo mesmo; de Elisa, que se vê separada (talvez para sempre) de seus filhos… 121Além disso, o roteiro do filme, assinado por John Ridley a partir da biografia escrita pelo próprio protagonista da trama, acerta ao mostrar que os escravos não eram somente súditos, submissos à situação que viviam (como a maioria dos filmes nos mostra), mostrando que eles também eram capazes de reagir e lutar com toda a força e vivacidade por aquilo que eles mais queriam e, como o filme tanto reitera, o que todos desejam e valorizam: a liberdade e a sobrevivência. Em cenas como quando Solomon se rebela contra Tibeats ou nos confrontos diretos com o Sr. Epps, fica visível que os escravos obedeciam a seus senhores buscando preservar a própria vida (como o próprio Northup diz em um diálogo com Elisa), mas mantinham sua honra e não aceitavam facilmente qualquer ofensa ou injúria, provando que até poderiam ser tratados como mercadoria, porém que não era isso o que eram. Os escravos, acima de tudo, eram seres vivos, como qualquer outro. Para levar tanto sofrimento físico e psicológico para o cinema, não há diretor melhor do que Steve McQueen. Em seus trabalhos anteriores, igualmente fantásticos, McQueen já havia explorado fortemente a natureza humana e sua capacidade devastadora. Em Hunger, Michael Fassbender interpretou um presidiário disposto a superar suas maiores limitações quando resolve fazer uma greve de fome e em Shame, o mesmo ator voltou a interpretar a degradação humana através do cotidiano de um viciado em sexo. Neste novo trabalho, o diretor vai fundo na crueldade humana e mostra, além da suposta necessidade, o prazer dos escravocratas em tratar mal seus escravos, submetendo-os tanto à agressividade quanto à humilhação, principalmente através de personagens como Tibeats e o Sr. Epps, cuja grande maioria das atitudes tem puramente o objetivo de degradá-los. Aqueles que não estão acostumados com cenas de violência gráfica ou de terror psicológico devem sair do cinema impressionados (esqueça a violência Tarantinesca, não há espaço para caricaturas ou cenas de pura ação), porém, como já foi dito, é um choque de realidade mais do que necessário. 122No entanto, como um contraste a violência do filme que grita para nós e nos chama para a sua realidade, algumas mensagens são passadas com um pouco mais de suavidade e aqueles que não estiverem totalmente presos a 12 Anos… deverão sentir dificuldade de captá-las. Por meio de simbologias brilhantes e de cenas magníficas, McQueen trata quase que subliminarmente de temas como a banalização da violência no período da escravidão, a influência da religião no comportamento tirânico dos homens e a traição em busca do poder, mesmo entre aqueles que um dia já foram submetidos ao sofrimento de um escravo. Para passar todas essas mensagens com clareza é necessário também a ajuda de um grande elenco, e isso o filme tem de sobra. Chiwetel Ejiofor, como protagonista, por se tratar de um personagem que precisa apresentar servidão praticamente o tempo todo diante de seus senhores, tem a difícil tarefa de transmitir todas suas emoções e sentimentos através do olhar, e é impressionante como cumpre essa tarefa com facilidade e destreza, sendo capaz de nos deixar angustiados com a sua situação e desesperados por não podermos interferir na história e ajuda-lo. Lupita Nyong’o também está perfeita como a escrava Patsey, uma mulher presa em um corpo de menina, a qual se mostra lotada de sonhos e romantismo que foram interrompidos pela escravidão, mas que não deixa de lutar em momento nenhum por sua dignidade, como mostra na poderosa cena do sabonete, que a consagra como uma das melhores jovens atrizes em atividade. 124Michael Fassbender, mais uma vez, dá um show na pele de um tirano latifundiário, que se mostra a perfeita encarnação da loucura presente em seus impulsos religiosos, sexuais e violentos. Sarah Paulson, como a Sra. Epps, também está em perfeita forma interpretando um papel que se faz ainda muito presente na sociedade de hoje: o da esposa rejeitada pelo marido que quer ver a todo custo o sofrimento da mulher pela qual foi trocada. O elenco secundário também surpreende, desde a pequena ponta de Paul Giamatti como o cruel vendedor de escravos Freeman ao terrível supervisor da fazenda do Sr. Ford, Tibeats, interpretado por Paul Dano, um ator que tem se mostrado capaz de crescer a cada papel, como já havia provado no genial Os Suspeitos. A parte técnica se mostra um deleite a parte, com destaque para a fotografia de Sean Bobbit, que mostra o contraste dos belíssimos campos de algodão com a tristeza que adentra as fazendas da época, assim como os figurinos de Patricia Norris, também grande destaque do filme. O ponto fraco fica para a trilha sonora do veterano Hans Zimmer, que parece ter pouco a acrescentar e que até destoa do filme em determinados momentos. Depois de assistir a esse forte longa, é difícil não se ter a sensação de ter levado um soco na cara ao ser apresentado, talvez pela primeira vez, a real situação da escravidão, que abalou não só os Estados Unidos, mas o mundo todo, tal como o próprio Brasil. No começo da crítica, disse que era importante que o cinema nunca perdesse a função de cutucar feridas históricas e mantê-las sempre aquecidas nos debates, através da nossa memória e da História. Pois bem, uma coisa é inegável: Steve McQueen não só toca numa das maiores feridas norte-americanas e de tantos outros países, como ele também afunda o dedo com força, até fazer com que todos nos sintamos culpados por essa que é uma das maiores manchas na história da humanidade. 12 Anos de Escravidão promete ficar muito tempo ainda na mente de seu público, como deve ser. Trailer: 12 Years a Slave
EUA , 2013 – 133 min.
Drama Direção:
Steve McQueen Roteiro:
John Ridley Elenco:
Chiwetel Ejiofor, Benedict Cumberbatch, Brad Pitt, Michael Fassbender, Paul Dano, Quvenzhané Wallis, Sarah Paulson, Paul Giamatti, Garret Dillahunt, Michael K. Williams, Taran Killam, Alfre Woodard, Lupita Nyong’o Foda photo Foda.png