LoboMartin Scorsese é um diretor que há muito tempo já é consagrado como um dos melhores em atividade em Hollywood. Tendo se destacado com filmes de sempre grande tensão, como Touro Indomável e Taxi Driver, assim como filmes de gângster, como os clássicos Os Bons Companheiros e Cassino, além da série Boardwalk Empire, o diretor resolve correr alguns riscos no seu mais novo filme: O Lobo de Wall Street. Partindo do mesmo princípio que já usou em boa parte de seus filmes, de mostrar homens extremamente espertos que se destacam com negócios ilícitos, dessa vez, opta por uma linguagem diferente, uma comédia. Uma comédia extremamente ousada, no entanto. São exatamente 180 minutos repletos de piadas, nudez, consumo de drogas, violência… Não é a toa que o filme gerou tanta polêmica conforme foi lançado ao redor do mundo.

 
Tendo sofrido censura em países da Ásia e do Oriente Médio, e pegando classificação indicativa máxima na maior parte dos países em que está sendo exibido (o filme estreou no Brasil como não recomendado para menores de 18 anos), “O Lobo” sofreu dificuldades para emplacar indicações em premiações, mas, mesmo assim, acabou sendo indicado a 5 Oscars, merecidamente. Merecidamente porque, ao contrário do que se possa imaginar, todo o exagero e a ousadia presentes no novo filme de Scorsese tem seu objetivo, além de se tratar de um filme brilhantemente dirigido, atuado e editado, como poucos que se vê por aí.
 
Golden Globes NominationsA trama do filme é inspirada no livro de Jordan Belfort, um homem (interpretado no filme por Leonardo DiCaprio) que se iniciou ainda muito jovem em Wall Street, lidando com o louco mercado da bolsa de valores. Quando ele fracassa já no início, enquanto lida com grandalhões do negócio (como Matthew McCounaughey), resolve montar sua própria empresa para ver se sucede no mercado, porém começa a buscar o sucesso de uma maneira um tanto quanto duvidosa. Belfort engana seus clientes, fazendo os supor que estão investindo em empresas de grande valor, quando na verdade estão investindo em empresas de fundo de quintal. A cada investimento, o protagonista e seus corretores (em um time que inclui Jonah Hill e Jon Bernthal, da série The Walking Dead) abocanham 50% da ação, e nisso vão aos poucos enriquecendo. À medida que enriquecem, também acabam se envolvendo em um caminho sem volta, que inclui belas mulheres, festas de arromba, drogas fortíssimas e, como era de se esperar, agentes do FBI.

A princípio, pode soar questionável a decisão de Martin Scorsese de transformar a história de Jordan Belfort em uma comédia, uma vez que a situação e o caráter do protagonista não são exatamente cômicos e deverão ser rejeitados por grande parte do público. Porém o raciocínio do diretor é claro. Quando se assiste a trilogia O Poderoso Chefão de Francis Ford Copolla, é impossível se ter ódio da família Corleone, uma vez que toda a ação e a brilhante e inteligente maneira como os mafiosos conduzem seus “negócios”, acaba soando brilhante para nós. O mesmo vale para grande parte dos filmes do gênero, incluindo os dirigidos pelo próprio Scorsese. Contudo, neste filme, assim como já fez no também polêmico A Última Tentação de Cristo, o diretor quer que tenhamos uma visão diferente da história que está sendo contada. E praticamente nos obriga a isso através da comédia. Lobo5Belfort e seus corretores enganam as pessoas, pegam o dinheiro delas e transformam esse mesmo dinheiro em investimentos extremamente fúteis e superficiais, enquanto, como o próprio protagonista afirma em dado momento do filme, estas próprias pessoas podem estar passando por dificuldades na vida real e confiando cada centavo no investimento que fizeram em suas ações. Assim, ao transformar a história do lobo de Wall Street em uma comédia vibrante e um circo de horrores, Martin deseja que rejeitemos a personagem e tenhamos nojo de tudo que a envolve. Por exemplo, quando se ouve uma discussão sobre o uso de anões em um lançamento de dardos completamente inútil e puramente sádico, rimos dos protagonistas e não com eles, tamanha a pena que acabamos sentindo da degradação que os mesmos sofreram quando tiveram contato com as enormes cifras de Wall Street. O pilar mais forte do filme, apesar da sempre inteligente direção de Scorsese, é no entanto o roteiro de Terence Winter. As três horas de duração podem parecer um tanto quanto exageradas, mas sua intenção também é um tanto quanto clara. Para que possamos abominar o universo do dinheiro que funciona nos bastidores das bolsas de valores, é necessário que conheçamos o universo de cada um daqueles que participam dele, e para isso precisamos encarar uma detalhada jornada para a vida desses personagens ao longo do filme. Aqui se tem, além de Jordan Belfort, o chefão assumidamente viciado em drogas e sexo, personagens como Donnie (Jonah Hill), o inconsequente braço-direito de Belfort; o pai do protagonista, Max (o também diretor Rob Reiner), que se mostra capaz de espionar agentes do FBI em troca de acobertar as ações do filho, apesar de ele mesmo reprová-las; o banqueiro suíço Jean Jacques (“o artistaJean Dujardin), um criminoso do mundo financeiro sem fidelidade alguma; e até Emma (Joanna Lumley), a qual, mesmo idosa e tia da mulher de Belfort, e sabendo que ele é um viciado em drogas, aceita participar dos negócios sujos do mesmo e até se insinua para ele em dado momento. Lobo6O roteiro de Winter, além de buscar uma imersão quase que total no íntimo de suas personagens, busca também fazer uma crítica ácida ao capitalismo e aos crimes de corrupção que ocorrem em seus bastidores. A crítica política pode ser perfeitamente simbolizada pelo embate inicial de Jordan e Jean Jacques, em que fica clara a “importância” da Suíça para os banqueiros estelionatários, uma vez que ela apresenta uma legislação bastante frouxa no que diz respeito ao mundo financeiro. Além disso, é importante relatar o sucesso que o filme acaba tendo em tentar ocasionar uma rejeição ao mundo de Wall Street, uma vez que, aqueles que presenciarem o submundo do local através das três horas desse longa, dificilmente serão capazes de investir mais um centavo sequer em qualquer bolsa de valores. Aliás, não se pode deixar de reparar: se algumas pessoas se ofenderam com o sexo poético de Azul É A Cor Mais Quente ou a liberdade do nu em Um Estranho no Lago, estas mesmas não deverão conseguir assistir nem uma hora de O Lobo de Wall Street. Mas nesse sentido é necessário, mais uma vez, sair em defesa da comédia. Todas as cenas de sexo e de consumo de drogas são usadas como forma de expor suas personagens ao ridículo, como já fica exposto numa das primeiras cenas do filme, quando, ao usar cocaína, Mark Hanna (personagem de McCounaughey) entoa, enlouquecido, um hino musical completamente cômico e que é usado mais tarde quando Belfort motiva mais corretores iludidos com as loucuras de sua empresa. Tal exposição ao ridículo também ocorre em cenas verdadeiramente brilhantes, como na relação que se faz com a cocaína de Belfort e o espinafre de Popeye. Lobo1As cenas de sexo, por sua vez, são usadas com um intuito parecido, mostrando que os protagonistas são tão exagerados e sem limites que se mostram incapazes até de controlar suas próprias vidas. Por exemplo, Jordan começa o filme casado com Teresa, mulher que o ajuda em algumas ideias importantes em seu empreendimento e que ele diz amar, porém que rapidamente troca por Naomi (Margot Robbie), com quem se casa e tem dois filhos, mas acaba clamando o nome de outra enquanto dorme a seu lado. Ou seja, os corretores da bolsa do filme encontram, no sexo e nas drogas, ao mesmo tempo que uma felicidade unicamente instantânea, um caminho para perdição que os leva para a insatisfação e ambição eterna. Assim, um dos poucos momentos que encontramos o protagonista e seu melhor amigo entristecidos e com o olhar abatido, é o momento em que revelam que estão há tempos sem beber ou fazer uso de qualquer tipo de droga. Mas, como nem tudo são flores, o filme também tem sua urgência em mudar de tom quando as coisas começam a dar errado. Se num momento Jordan comemora em seu barco com uma festa lotada de belíssimas mulheres, em outro está sentado em uma mesa com agentes do FBI praticamente o obrigando para que coopere com suas ações, sendo essa transição indicada simbolicamente pela queda de um helicóptero, em um dos melhores momentos do filme. Assim, “O Lobo” ganha uma dramaticidade e seriedade maior conforme vai ficando próximo de seu final, tendo seu ápice na cena em que até a vida pessoal de Belfort cai em ruínas após uma discussão com Naomi, naquele que é o momento mais tenso do filme. Entretanto, como não poderia deixar de ser, até em suas sequências finais, o tom irônico e debochado do filme continua presente, como fica marcado no uso da clássica Mrs. Robinson naquela que, nas mãos de qualquer outro diretor, seria uma cena completamente melodramática. Lobo2O equilíbrio (ou desequilíbrio, como preferirem) do longa também se deve ao brilhante trabalho técnico de edição de Thelma Schoonmaker, que contribui de maneira essencial para a dinamicidade e excentricidade do filme. Com a ajuda da narração em off, o uso de comerciais para a TV e cenas de arquivo fakes, O Lobo de Wall Street ganha um tom documental que só acrescenta para que ele se torne a comédia bem sucedida que é. Além disso, alguns cortes e o slow-motion de alguns momentos, praticamente nos transportam para a mente dos protagonistas, nos apresentando a visão deturpada do mundo que cada um deles tem. E por falar em trabalhos brilhantes, não há como ignorar Leonardo DiCaprio, em um dos trabalhos mais complexos e exigentes já feitos pelo ator até hoje. Jordan Belfort é uma personagem que está em constante transformação. No começo, o encontramos descendo de ônibus com um olhar amedrontado em Wall Street, onde se mostra submisso aos chefões e retraído pela loucura do local, além de recusar qualquer tipo de droga ou bebida. Mais tarde, vai ganhando esperteza e sagacidade, até se tornar completamente o lobo que dá título ao filme; um homem que devora dinheiro e as outras pessoas e que vive uma vida completamente sem limites. Ou melhor, uma vida em que o limite é até onde sua própria vida puder aguentar. Lobo7Além disso, todo o resto do elenco está muito bem e com excelente timing cômico, até porque boa parte deles já vem com uma veia humorística, como Jonah Hill, que rouba todas as cenas em que participa. O ator, que faz um papel parecido com o que fez em O Homem Que Mudou o Jogo, porém totalmente menos sério, está completamente à vontade e surtado no seu papel, como o melhor amigo de Jordan que se mostra ainda mais impulsivo que ele. Robbie, Reiner, McConaughey, Dujardin, Kyle Chandler (o agente do FBI que persegue os corretores) e Cristin Millioti (a primeira mulher de Belfort) também estão ótimos e absorvem o clima descontraído do filme, contribuindo bastante com ele. Por fim, se O Lobo de Wall Street se mostrou o trabalho mais ousado e arriscado da carreira de Martin Scorsese, e ele passou por esse teste com facilidade, é sinal que o diretor continua em plena forma e deve permanecer assim por muito tempo ainda. Além do mais, apesar de um divertimento certo, este filme tem muito também a nos ensinar sobre o mundo selvagem e voraz em que vivemos, como mostra a última cena. E não pode-se deixar de se dizer: dos filmes indicados ao Oscar, se tem algum que mostra uma verdadeira trapaça e é dirigido por um diretor realmente genial e eficiente, é este. Trailer: The Wolf of Wall Street
EUA , 2013 – 180 minutos
Comédia Direção:
Martin Scorsese Roteiro:
Terence Winter Elenco:
Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Margot Robbie, P.J. Byrne, Kyle Chandler, Rob Reiner, Jon Bernthal, Kenneth Choi, Henry Zebrowski, Jean Dujardin, Cristin Milioti, Matthew McConaughey, Jon Favreau, Brian Sacca, Spike Jonze, Joanna Lumley, Ethan Suplee, Jake Hoffman Foda photo Foda.png