AzulNão são todos os filmes vencedores do Festival de Cannes que conseguem a visibilidade e a repercussão que Azul é a Cor Mais Quente conseguiu ao ser anunciado o ganhador do Festival por Steven Spielberg, no ano passado. Logo surgiram as polêmicas: a França passando por um momento conturbado com a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo, e o filme premiado tratando, com cenas tórridas de sexo e ao longo de quase três horas, do relacionamento entre duas mulheres. Mais tarde, mais polêmicas: a autora das HQs, Julie Maroh, que inspiraram o filme alegou serem machistas as cenas de sexo e uma das protagonistas veio a público denunciar abusos do diretor durante a filmagem. No entanto, todas essas polêmicas precisam ser retiradas da cabeça do espectador para que ele possa ver e entender esse filme da maneira correta, uma vez que ele vai muito além da abordagem de um relacionamento homossexual e de suas cenas picantes, trazendo para as telonas a história de um relacionamento e as transformações deste com o passar do tempo, tudo de uma maneira extremamente sincera, o que é muito difícil de encontrar no cinema atual. Azul4Na trama, Adèle Exarchopoulos interpreta uma personagem homônima (como sugere o título original, A Vida de Adèle), que além de estudar e trabalhar, lida com um período de autoconhecimento, principalmente no que diz respeito a sua sexualidade. Após uma experiência heterossexual um tanto quanto desanimadora, ela conhece Emma (Léa Seydoux), uma estudante de Artes Plásticas de cabelo azul, muito bem resolvida com sua homossexualidade e que a impressiona pela personalidade forte e pelo pleno domínio de assuntos relacionados à Arte. Logo as duas começam a se relacionar em segredo e, à medida que Adèle lida com a homofobia dentro da escola e Emma luta para conseguir a exposição de sua obra em uma importante galeria, elas vão enfrentando os altos e baixos da relação, sempre de maneira bastante intensa por ambos os lados. Azul2O maior mérito do roteiro brilhante, assinado pelo próprio diretor Abdellatif Kechiche e por Ghalia Lacroix, é tratar um relacionamento homossexual como qualquer outro (como, aliás, deveria ser tratado em todo e qualquer filme e na sociedade em si) e conduzir o relacionamento entre as duas da forma mais realista possível, chegando a ponto de ser cruel. O amor, a atração, o impulso, a decepção… está tudo no filme da maneira mais verossímil possível, tudo impresso nos rostos das duas protagonistas. "Azul", que não é à toa é a cor da melancolia (atentar para a belíssima fotografia de Sofian El Fani, com destaque para o uso da cor azul no decorrer do filme e os momentos em que ela é usada) questiona os relacionamentos da modernidade e, ao nos colocar frente a frente com a protagonista Adèle em diversos closes, ele questiona que amor nós somos capazes de nutrir. Além disso, outra grande conquista do roteiro é conseguir manter o filme durante suas quase três horas em um ritmo que não cansa absolutamente nada quem o está assistindo. Quando se vê, o tempo voou e “Azul” já está entrando em seus momentos finais. Isso também porque cada cena acaba se mostrando essencial dentro do que o filme deseja nos transmitir, desde as pequenas cenas (como a dança ao som de I Follow Rivers no aniversário de Adèle) até as grandes (a cena do restaurante). Todas elas parecem nos ensinar algum olhar novo sobre o amor que Emma e Adèle nutrem. Azul3As atuações de Adèle e Léa também se mostram surpreendentes, visto a entrega total que as duas conferem aos seus papéis. Ambas vivem personagens bastante intensas e que vivem cada sentimento ao extremo, sendo essa sensação expressada perfeitamente em cada cena das duas protagonistas. É impossível não notar o choro de desespero e angústia de Adèle ou o olhar matador de Léa, e nisso a direção de Kechiche se mostra extremamente eficiente, pois nos coloca a todo o momento diante de closes e planos que favorecem os rostos das duas atrizes, como que nos obrigando a perceber todos os detalhes, até os mais íntimos, que elas possam esconder. Logo, – e nós temos muito a agradecê-lo por isso – nos obriga também a reparar nas brilhantes atuações das duas. Dessa forma, além de possuir todo um significado político e social dentro do país e da época em que foi lançado, Azul é a Cor Mais Quente consegue o que poucos filmes conseguiram até hoje: fazer um estudo completo e sincero a respeito do amor, tendo como ponto de partida uma relação em que todos os sentimentos são vividos a flor da pele. Ao final das duas horas e cinquenta minutos do longa, é impossível não se sentir tocado pelo filme e começar a se repensar todos os nossos relacionamentos e tudo que já sentimos por um outro alguém, alguma vez em nossas vidas. Trailer: La Vie d’Adéle
França , 2013 – 180 minutos
Drama Direção:
Abdellatif Kechiche Roteiro:
Abdellatif Kechiche, Ghalia Lacroix, Julie Maroh (HQ) Elenco:
Adèle Exarchopoulos, Léa Seydoux, Salim Kechiouche, Benjamin Siksou, Mona Walravens Foda photo Foda.png