Beatles Detroit tornou-se um centro importante para os cantores negros, surgiu certo tipo de música conhecida como Motortown, que foi nomeada pela Motown Records. Caracterizado por uma pessoa que canta canções melódicas e impressionistas, acompanhada de um grupo elegante com harmonias compactas e articulada. Os expoentes populares deste estilo foram Temptations, Smokey Robinson e o Miracles, Diana Ross e o Supremes, Gladis Knight e o Pips. Houve um choque no show business, pelo fato de ainda ser novidade o Rock n’ Roll. As divisões étnicas se complicaram. Por exemplo, tudo parecia bem organizado nos Estados Unidos, rhythm’n blues ficava na classificação de música negra, hillibily e country and western, na de música branca, e os cantores de ternos discretos causavam certo arrepio nos corações comportados nas paradas pop. Então, começaram a chegar os discos mais vendidos, os de Jerry Lee Lewis, um dos grandes representantes do pop rock, e os de Elvis Presley, o símbolo maior do Rock n’ Roll entre 1956 e 1963. A dúvida recaía sobre a forma de classificação, pois como enquadrar o rapaz loiro como Lewis no setor de rythm’n blues? Ou até mesmo Elvis, pois quando as pessoas apenas o ouviam imaginavam que ele era um cantor negro. Deveriam classificá-lo ao lado de Frank Sinatra na parada pop? Foi esse o início do famoso pop rock que deu origem aos Beatles. Só em 1962, com o surgimento dos Beatles, os quatro rapazes com cabelos longos, de Liverpool, Inglaterra, que o rock voltou a reunir forças para manter-se poderoso como nunca. No início, eles foram aclamados por suas energias e personalidades individuais atraentes e não pela inovação de suas canções que tiveram influência de Berry e Presley. E foi graças a eles que o grande impacto da década de 1960 na era do rock não foi nos Estados Unidos, mas, com certeza, na Inglaterra. Nos anos 1940, 1950 e início de 1960 sequer existia a palavra teen-ager (adolescente). Havia o esforço para a reconstrução do pós-guerra que, num momento, reforçava o apego britânico às normas e o orgulho natural de ter vencido o inimigo tão voraz e hediondo, e em outro, apontava dura realidade austera proveniente da falta de recursos e das privações em todos os sentidos de bens materiais. O mundo de John Lennon, Paul MacCartney, Ringo Star e George Harrison começou no The Cavern Club em Liverpool, depois tomaram o rumo do sucesso mundial. Ao longo de apenas oito anos, os Beatles mudaram para sempre o cenário do Rock n’ Roll, criando uma linguagem musical única e influenciando o comportamento da juventude de sua época, como ninguém havia feito antes. Esse fenômeno comportamental da década de 1960 foi chamado de Beatlemania. Nenhuma banda até hoje conseguiu repetir o sucesso dos Beatles, até nos tempos difíceis, depois da divisão do grupo e com a morte de Lennon, eles ainda bateram recordes de vendagens. Voltando aos Estados Unidos, nos anos 1960, a música espelhava as tensões da Guerra do Vietnã e desempenhava um importante papel na cultura americana. As letras das canções de rock traziam rebeliões, protestos sociais, sexo e, principalmente, drogas. Para Carmo, uma “série de manifestações culturais novas refletiam e provocavam novas maneiras de pensar, modos diferentes de compreender e de se relacionar com o mundo e com as pessoas.” (CARMO, 2003, p.51). StonesMuitos grupos, entre eles o Jefferson Airplane e o Grateful Dead, tentavam expressar na música, o sentimento aural das drogas psicodélicas, produzindo sons longos, repetitivos e esquisitos, com letras surreais (conhecidos como acid rock ou hard rock). Em 1964, com o lançamento do primeiro disco dos Rolling Stones, instaurou-se um novo cenário para o rock; enquanto de um lado os Beatles queriam segurar nossas mãos, os malvados Stones convidavam-nos a virar a noite com eles. Com o rock se firmando nos anos 1960, as drogas também encontraram seu espaço com o surgimento do LSD-25. Um dos ícones do rock na época que fazia grande usufruto delas era Jim Morrison, líder dos The doors, grupo musical que teve início em 1965 e foi de suma importância para o estilo. Essa banda deu origem ao psicodelismo, aos longos solos, às letras incompreensíveis, mantendo um contato permanente com as vibrações do público, ao lado de Pink Floyd (1965) e Jimi Hendrix que, por sua vez, apresentavam um som virtuoso. Hendrix tornou-se um dos grandes símbolos da época e até hoje se discute se um dia alguém poderá superar seus dotes com a poderosa arma do rock, a guitarra. Claro que, nessa época da invasão inglesa no rock, o grupo inglês The Who, um dos representantes árduo do Hard rock ao lado do Led Zeppelin, também embarcou nessa viagem para o mundo. O grupo The Who foi considerado um dos mais importantes da época ao lado dos Stones e dos Beatles. A banda cativou o público por causa de suas agressivas apresentações, nas quais costumavam quebrar instrumentos ao final de seus shows, um sucesso para aqueles que adoram o bom e velho rock n’ roll. Porém, se a Inglaterra tinha seus bons representantes, os americanos não podiam ficar de fora, pois o menino do interior que cantava folk, cristão convertido, soldado dos direitos civis, alquimista do rock, Bob Dylan, lançou-se na estrada para um novo estilo: o Folk rock. Depois dessa movimentação, em 1950, a febre do estilo contaminou a Inglaterra, os Estados Unidos e o mundo, o time ficou completo. Beatles, Rolling Stones, Pink Floyd, Bob Dylan, The Doors, Jimi Hendrix e The Who. De 1967 para frente, os festivais musicais entraram em sua melhor fase, milhares de jovens os frequentavam justamente para ouvi-los. Apareceram jovens com roupas coloridas, incentivando o uso das drogas para aumentar as possibilidades de um pensamento livre. Eles pregavam a paz e o amor livre, interessavam-se pela filosofia indiana, apareceram inicialmente na Califórnia, depois atravessaram o oceano em direção a Londres, conhecidos como hippies. O festival de grande importância para o movimento hippie foi realizado no famoso Woodstock, Nova Iorque, em agosto de 1969: “grande parte das pessoas que viram o documentário [“Woodstock”, de 1970] ou ouviram falar, ao longo dos anos, pensam que se tratava de drogas e sexo. O que houve foram três dias de paz, música e amor. Não houve brigas ou assassinatos – e eram tempos conturbados, com a Guerra do Vietnã e [os EUA gastando dinheiro com] o homem na Lua. Mas não tínhamos crack, cocaína ou heroína naquele festival. As pessoas estavam usando maconha e ácido. Era um tempo de inocência. Eles se uniam e se ajudavam porque a comida e a água estavam acabando. Havia muita camaradagem e muita gente fazendo amor, claro. Era muita gente bonita tirando a roupa e se banhando no lago, então eles faziam amor.” (ELLIOT TIBER, G1, 2009). Mais tarde, um evento semelhante, que trazia os Rolling Stones, aconteceu em Altamont, Califórnia, sendo marcado por vários incidentes violentos que foram filmados, entre eles houve inclusive um assassinato. O rock nunca mais seria o mesmo. Enquanto isso, novamente no Brasil… JovemA década se inicia com Jânio Quadros agora na presidência, o homem que tomou providências drásticas – quando só era governador – levando os jovens que deixavam de se comportar sob uma sociedade imposta, agora seguindo o ritmo novo que chegara ao Brasil através do cinema e da música propriamente dita. O rock abriu na década 1960 com uma mistura de rock tradicional, som instrumental, surf music e outros ritmos como o twist e o hully gully. E mais uma vez, sob influência de outros países, como afirma Arthur Dapieve (1994, p14) “No amplo panorama da música brasileira, contudo o rock ainda era ouvido como um artigo importado e supérfluo”. Continuando a manifestar as influências sofridas pelo sucesso do rock, os cantores da época eram visivelmente influenciados pelo estrangeiro, às vezes, até mesmo realizando plágios. Ronnie Von, por exemplo, cantou Meu Bem, versão em português para a música Girl, dos Beatles, que o próprio Ronnie criou. Seguindo a linha, Renato e seus Blue Caps lançaram seu primeiro LP em 1962, e ficaram famosos pelas versões que faziam das músicas de língua estrangeira (na maioria Britânicas), como Menina Linda ou I Should Have Known Better, de Lennon e MacCartney. Esse momento pode ser visto de uma forma mais analisada por Renato Ortiz: “O que chama a atenção, quando se focaliza o período da incipiência da moderna sociedade brasileira, é a forte presença estrangeira. Realidade que decorre (…) da fragilidade das instituições existentes, tornando necessária a importação de quadros e de conhecimentos gerados fora do país.” (2001, p.191). “Wanderléa Salim, em 1962, lançou seu primeiro compacto. Depois em 1963, lançou o LP Wanderléia pela CBS. Chegou a vez, então, dos The Fenders, ou melhor, The Fevers lançar seu primeiro LP no ano de 1965 com a música Letkiss (versão de Letkiss). Mais tarde, Wanderléia conheceu Roberto Carlos que, depois do fracasso com Louco por Você, juntou-se ao Erasmo Carlos e lançou Splish-splash. O LP É Proibido Fumar fez muito sucesso na época. Nascia a Jovem Guarda.” (Fróes, 2000). “No mesmo ano, surgiu a expressão iê-iê-iê, por causa da versão da música She Loves You, dos Beatles, lançada em 1963, e também do filme A Hard Days Night, batizado no Brasil de Os Reis do iê-iê-iê. Os clubes de futebol proibiram a transmissão direta de suas partidas, a TV Record, com a ajuda do ex-dirigente Machado de Carvalho da CBD, ocupou o horário com a futuramente famosa Jovem Guarda.” (Dapieve, 1994). Um ano depois, Wanderléa, Renato e seus Blue Caps, Roberto, Erasmo, Martinha, Golden Boys e companhia, tomaram a frente da Jovem Guarda. Traziam grupos adeptos do movimento, lançaram moda nas ruas, o movimento que foi iniciado pelo público jovem logo atingiu todas as idades. Vieram às modas dos cabelos compridos para os rapazes e calças colantes de duas cores, bocas de sino, cintos e botinhas coloridas, a minissaia sempre acompanhada de botas de cano alto. Nas letras das músicas: nada de sexo, drogas ou política. A Jovem Guarda não foi um movimento político, mas sim, comercial. A conhecida “indústria de gosto” que rege como uma religião até os dias de hoje: “Criou-se uma “indústria de gosto”, que passava pela “aposta” em certos artistas, o que implica em estratégias de multiplicação de suas apresentações em programas de auditório, execução de suas obras em “especiais” de TV, entrevistas e participações em talk shows etc., tudo destinado a dar-lhes o máximo de visibilidade.” (SILVA, 2001, p.99). TroEm 1968, o presidente Costa e Silva declarou válido o Ato Institucional número 5 – AI-5, cancelando todos os dispositivos da constituição de 1967. E conforme Carlos MarceloO AI-5 deforma a simetria entre os poderes. Entre os 12 artigos, o ato concede ao presidente da República autoridade para subjugar o Poder Legislativo e decretar o recesso do Congresso Nacional” (p.36, 2009). Agora a cassação de direitos políticos poderia ser decretada com extrema rapidez e sem burocracia, o direito de defesa ampla ao acusado foi eliminado, suspeitos poderiam ter sua prisão decretada imediatamente, sem necessidade de ordem judicial, os direitos políticos do cidadão comum foram cancelados e os direitos individuais foram eliminados pela instituição do crime de desacato à autoridade. Os militares assumiram definitivamente que não estavam dispostos a ser um poder moderador e, sim, uma ditadura. Mas com tantas mudanças no foco político, a censura domina o nosso país e se, antes, tínhamos a Jovem Guarda, na onda do iê-iê-iê, em 1967, ela sai de cena para entrar a Tropicália, “se a jovem guarda era reflexo dos Beatles da fase iê-iê-iê, a tropicália era o reflexo dos Beatles fase Revolver (1966)” (Dapieve, 1994, p.14). Seus participantes formaram um grande coletivo, cujos destaques foram os cantores-compositores Caetano Veloso e Gilberto Gil, além das participações da cantora Gal Costa e do cantor-compositor Tom Zé, do maestro Rogério Duprat e, claro com tanta gente, não podia faltar o que a Tropicália nos revelou até então como coadjuvantes, acompanhados da moça de cabelo ruivo: Rita Lee e os Mutantes. A cantora Nara Leão e os letristas José Carlos Capinan e Torquato Neto completaram o grupo, que teve também o artista gráfico, compositor e poeta Rogério Duarte como uns de seus principais mentores intelectuais. A música brasileira sofre uma radical mudança: “Assim a repressão pós AI-5 e a censura decorrente colocavam novos desafios para os artistas mais comprometidos com as questões políticas, além de exigir a reorganização da oferta e da demanda musical como um todo. (…). Neste aspecto, os diferentes símbolos para driblar a censura apareceram tanto nas novas formas de se utilizar a linguagem cifrada e metafórica como também na relação de se expressar a música através do corpo.” (SILVA, 2001, p. 49). Irreverente, a Tropicália transformou o gosto pela música e a política, e também a moral e o comportamento, ainda, conceitos como os de: corpo, sexo e vestuário. A contracultura hippie foi assimilada, com a adoção da moda dos cabelos longos encaracolados e das roupas escandalosamente coloridas. Adicionando seu movimento não só a música, mas também englobando toda uma cultura para si, entretanto também foi conduzido pela tropicália o artista plástico Hélio Oiticica performática de aspirações anarquistas, e no teatro com José Celso Martinez Corrêa uma das mais importantes mentes ligadas ao espetáculo de palco. Provando que o movimento tropicalista não se envolveu só com a música popular e sim em quase toda a cultura disponível no Brasil nos tempos de AI-5. “Como já se destacou, o florescimento cultural no período revelou-se diferenciadamente na literatura, no teatro, no cinema, nas artes plásticas e na música popular. São daquele tempo diversos movimentos, que produziam importantes obras de arte no seio do Cinema Novo, do teatro de Arena, do Teatro Oficina, dos espetáculos do Teatro Opinião, dos CPCs da UNE, da Bossa Nova, da música popular brasileira, da coleção de livros de poemas Violão de rua, do concretismo, das exposições de artes plásticas e do tropicalismo.” (RIDENTI, 2000, p.270). O movimento, libertário por excelência, durou pouco mais de um ano e acabou reprimido pelo governo militar. Seu fim começou com a prisão de Gil e Caetano, em dezembro de 1968, o fim da Tropicália marcava o início do AI-5. A cultura do país, porém, já estava marcada para sempre pela descoberta da modernidade e dos trópicos. Parte 3